COMUNICADO
Considerando o Referendo que vai ter lugar no próximo dia 28 de Junho, entende a Aliança Evangélica Portuguesa dizer o seguinte:
Em primeiro lugar, porque, não se estabelecendo qualquer razão objectiva para a interrupção voluntária de gravidez nas dez primeiras semanas, se vem a revelar esta inteiramente arbitrária e sem critério.
Dada a latitude da pergunta e, consequentemente, da modificação legal que se visa, fica no livre arbítrio da mulher e poderia, até, ficar no seu capricho o interromper voluntáriamente a sua gravidez nas dez primeiras semanas assim se permitindo que a interrupção tenha lugar sob qualquer pretexto que a mulher invoque, incluindo, por exemplo, o de não ser o filho do sexo que se pretendia, pretexto que nem sequer pode ser apreciado no estabelecimento de saúde onde se realiza.
Em segundo lugar, porque, em face da amplitude da interrogação, se confere à mulher, só por si, um direito absoluto e próprio sobre o filho do seu ventre o que, no caso de família legalmente constituída, é inadmissível, já que nem sequer o marido é ouvido neste domínio, que afinal interessa ao casal até porque constitui um dos fins da união matrimonial.
Em terceiro lugar, porque, habilmente, em face dos amplos termos interrogativos, se pretende transportar para o estabelecimento de saúde e, portanto, para o seu director e médico, o peso condenatório ético da violação do bem jurídico da vida se a interrupção voluntária da gravidez, nas primeiras dez semanas, não for realizada em estabelecimento de saúde legalmente autorizado é penalizada como infracção criminal que é, porém, se for efectuada em estabelecimento de saúde legalmente autorizado, já não será objecto de penalização, apesar de continuar a ser ilícito criminal.
Mal vai a um estado quando, em vez de criar condições pessoais, éticas, sociais e económicas à mulher para que o seu filho possa viver, lhe pretende criar e sugerir, em contrapartida, condições para que o seu filho seja aniquilado, olvidando, até, as sequelas que a situação abortiva lhe vai determinar.
Sugerir-se a morte de um ser vivo, em qualquer circunstância que seja, é negar todos os fundamentos da Fé Cristã, que anuncia a Vida como o Seu expoente último.
Dizer a uma mulher em dificuldade que a única solução é a morte do filho do seu ventre é afinal descrer dos grandes valores da mensagem de Cristo: da Fé, que permite ver o invisível e ultrapassar montes, da esperança, que o poder divino torna o impossível realidade visível, do Amor que, na linguagem paulina, "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta".
A Direcção
Lisboa, 15 de Junho de 1998