Excerto do artigo:

Carta a um grupo de mulheres

António José Saraiva, Expresso 13/06/98

Artigo original

 

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Eu não tive uma educação religiosa nem sou católico.

Não tive, tão-pouco, uma educação convencional.

Talvez por isso - ou seja, talvez por não ter abraçado nenhum dogma nem
ter as muletas das convenções para sustentar as opiniões - , tive
necessidade de pensar as coisas desde o princípio e de encontrar pontos
de apoio fortes, sólidos, sobre os quais pudesse estruturar uma opinião
séria.

Um desses pontos foi a defesa da vida.

A recusa, em quaisquer circunstâncias ou quaisquer que sejam os
argumentos, da manipulação da vida.

A pena de morte, a eutanásia, as experiências genéticas para
melhoramento da espécie - tudo isso recusei, porque percebi que, a partir
do momento em que se aceita o princípio da relatividade da vida humana,
torna-se muito difícil estabelecer fronteiras.

Parece um acto caridoso pôr fim à vida de um doente em estado terminal.

Mas quem nos garante que, amanhã, não haverá quem aproveite essa
«caridade» para pôr fim à vida de um parente que se tornou um estorvo?

A única posição admissível, assim, é estabelecer um cordão em torno da
vida - e não permitir que, em nenhum momento e sob nenhum pretexto,
esse cordão seja transposto.

Caso contrário, tudo fica subitamente em causa.

Tudo pode ser objecto de discussão.

Por que não aceitar a pena de morte como medida de dissuasão da
criminalidade violenta e de defesa da vida de cidadãos inocentes? Por que
não a considerar, por exemplo, no caso de crimes contra crianças?

Por que não admitir a eutanásia para abreviar o sofrimento das pessoas
que sofrem, a partir do momento em que a medicina estabeleça a
impossibilidade da cura?

Por que não ponderar, em certas condições, a selecção da espécie,
eliminando aqueles seres que, pela sua própria natureza ou defeitos, serão
sempre infelizes?

Esta é a questão.

E só há uma forma de não colocarmos tudo em causa: estabelecermos o
princípio de que a lei tem de defender a vida humana desde o momento em
que se forma até ao momento em que se extingue.

Aceitar excepções a esta regra é, objectivamente, consagrar na lei os
atentados contra a vida.

Será isto cruel?

Será uma manifestação de intransigência?

Será um sinal de intolerância?

Sim e não.

Em primeiro lugar, é indiscutível que a lei tem de obedecer a princípios e
deve ser firme na sua defesa; cabe aos juízes, depois, serem razoáveis e
justos na aplicação da lei.

Em segundo lugar, se há coisas em que é necessário ser intolerante é na
defesa da vida humana.

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