Carta da Associação dos Médicos Católicos aos Deputados


A MEDICINA E A LEI DO ABORTO

Exma. Senhora Deputada / Exmo. Senhor Deputado

A Assembleia da República vai voltar a debater a legislação relativa ao aborto. Como em Fevereiro passado foi aprovado o alargamento dos prazos legais para o aborto terapêutico e eugénico, o que vai estar em causa agora é a liberalização adicional do aborto à livre iniciativa da mãe, ou seja, a sua instituição como forma de regulação da natalidade. Trata-se de uma violação tão grosseira quanto brutal do direito mais elementar - o da vida - dos mais fracos e indefesos.

Na sua lógica não é atribuído qualquer valor à vida da criança que está para nascer, que é totalmente marginalizada. Ela visa instituir a possibilidade de eliminar a vida com o apoio da lei e dos serviços de Saúde. Com efeito, nada, nestas gravidezes, impede o nascimento de uma pessoa, a não ser a sua interrupção intencional e violenta. Ela não tem qualquer fundamento ligado à Medicina. Mas recorre aos seus serviços.

Argumenta-se com o aborto clandestino. Como se o direito à vida não devesse prevalecer, na ordem jurídica e na vida prática, sobre a pretensão de o evitar, com todo o dramatismo que se lhe reconhece. Sem dúvida, dói profundamente que haja mães que se sintam constrangidas a recorrer a ele. Não se pode ignorar, porém, que a clandestinidade também é muitas vezes procurada para garantir a ocultação de uma gravidez indesejada, mais do que por motivos de ordem social. Em qualquer dos casos, a solução deverá sempre residir em apoiar as mães a ter os seus filhos e acolhê-los, em vez de eliminá-los.

A vida da criança que vai nascer tem o valor próprio de qualquer vida humana e a ninguém cabe o direito de dispor da vida do outro. Muito menos da dos mais inocentes e desprotegidos, à mercê de quem abusa, com prepotência suprema, da sua incapacidade de defesa. Habituados, como estamos, a cuidar de quem sofre, somos também contra o aborto eugénico e terapêutico, preferindo tratar a descartar o doente. Neste momento, porém, não estão sequer em causa esses casos, nem os dramas com que por vezes se debatem os pais.

Raciocina-se como se o aborto legal, mesmo em condições de assépsia, não envolvesse risco para a saúde da mãe ou cancelasse o seu profundo trauma moral e psicológico. Trata-se de uma visão ligeira e superficial que mais despreza a mulher do que a serve.

A votação de Fevereiro passado atesta claramente que este projecto não tem nada de consensual. Antes se revelou agravador de profundas divisões no parlamento e na sociedade portuguesa. A sua re-apresentação, procurando tirar proveito de alterações de conjuntura na composição parlamentar, não surge ao serviço da população mas de alguns desígnios individuais. A sua eventual aprovação fere a dignidade da nossa vida em sociedade.

Lembramos o abaixo assinado dirigido em Fevereiro à Assembleia da República por mais de setecentos colegas. Enquanto médicos, não podemos deixar de manifestar a mais profunda repugnância pela manipulação da nossa profissão e das instituições em que a exercemos ao serviço da morte e não da vida, da eliminação de quem incomoda e não da luta contra o sofrimento. Já basta que tantas vezes nos faltem meios para cumprir os nossos verdadeiros deveres.

Aos deputados e deputadas que, em Fevereiro, votaram a favor da vida queremos manifestar a nossa solidariedade e agradecer o seu desassombro ao serviço de tantas crianças que, de outra forma, não viveriam. Àqueles que, porventura, vêem agora com mais clareza o valor a dar à vida, queremos trazer uma palavra de firme encorajamento e total apoio para reverem o sentido do seu voto. Finalmente, queremos propor a todos uma reflexão séria e profunda sobre uma causa que não deveria sequer ser sujeita a votos e que, sendo das crianças do País, é, na realidade, de todos nós.

Lisboa, 31 de Dezembro de 1997

Pela Associação dos Médicos Católicos

 

Prof. Dr. Alexandre Laureano Santos

Presidente Nacional

Prof. Dr. Fernando Maymone Martins

Presidente do Núcleo de Lisboa