A INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ
resultados de uma sondagem e desafios para a acção
José M. Amado da Silva
José Adelino Afonso
Nesta altura, marcada pela realização do referendo sobre o aborto, é importante deixar expressa a nossa profunda convicção de defesa da vida e de oposição ao aborto. No entanto, no referendo que se avizinha, não é a questão do "sim" ou do "não" ao aborto que está em causa, mas a diferença entre o enquadramento legal que haverá se o "sim" ao aborto sair vencedor no referendo e o actual enquadramento legal que se manterá se for o "não" vencedor.
Por isso, neste referendo não está em causa o aborto nas situações de «perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou a saúde física ou psíquica da mulher grávida», do «nascituro [vir] a sofrer, de forma incurável, de doença grave ou malformação congénita», de «fetos inviáveis» e de «crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual [violação]», porque todas já estão consagradas na lei e o referendo não diz respeito a elas. É, assim, falso invocar estas situações em favor do "sim" no actual referendo. O que está em causa, na pergunta do referendo, é o aborto, por opção da mulher, ser completamente livre nas dez primeiras semanas.
A necessidade de informação correcta sobre o que está em causa no referendo é constatada na sondagem (quadro 1). Pois, relativamente às três situações que, já hoje, estão claramente explicitadas na lei como «interrupção da gravidez não punível» - feto defeituoso, risco de vida da mãe e violação - a percentagem de respostas da sondagem que não estão correctas (não saber o que está na lei ou responder erradamente que não estão na lei) são de, respectivamente, 68.2%, 70.3% e 75.6%. É necessário combater esta desinformação, que pode levar a decisões erradas no referendo porque está associada a atitudes de grande emotividade e capazes de "fundamentar" um voto "sim" ao aborto, relativas a situações que já têm cobertura legal, sem que o votante o saiba, escolhendo, portanto, a opção com a qual, eventualmente, não concorda.
Quadro 1 - Respostas em percentagem às perguntas sobre «quais as circunstâncias em que o aborto é permitido por lei em Portugal?»
Resposta |
Feto defeituoso |
Risco de vida da mãe |
Violação |
Mãe menor |
Mãe deficiente mental |
Falta de recursos económicos dos pais |
| Sim | 31.7 |
29.7 |
24.5 |
7.0 |
13.4 |
4.2 |
| Não | 3.1 |
3.8 |
8.3 |
23.5 |
14.5 |
27.1 |
| Ns/ Nr (1) | 65.1 |
66.5 |
67.3 |
69.6 |
72.1 |
68.7 |
| Total | 100.0 |
100.0 |
100.0 |
100.0 |
100.0 |
100.0 |
(1) 769 destes inquiridos, 52.5%, julgavam que não era permitido de todo abortar legalmente em Portugal.
Fonte: Universidade Católica Portuguesa, CESOP- Estudo sobre a interrupção voluntária da gravidez.
O que agora se propõe no referendo é o direito da mãe matar o seu filho, porque o não quer, sem que haja qualquer lesão no feto, perigo de vida para a mãe ou irresponsabilidade na gestação. É um salto qualitativo na degenerescência ética que tem de ser travado! É disso que se trata e é isso que tem de ser inteligentemente combatido. Temos pois que, na nossa divulgação, mostrar que a pergunta implícita no referendo é:
"A interrupção voluntária da gravidez já é legal nos casos de «perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida», «perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida», «o nascituro [vir] a sofrer, de forma incurável, de doença grave ou malformação congénita», «fetos inviáveis» e a gravidez [ter] resultado de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual [violação]». Não se está a pôr isso em causa agora.
Aquilo que nos é pedido para votar é se uma mulher pode decidir abortar durante as dez primeiras semanas, sem outra razão senão a de não querer ficar com o filho, isto é, dar à mãe o direito de vida ou de morte sobre o filho. Concorda?"
Embora a sondagem referida não permita quantificar o aborto, permite comprovar que é um fenómeno generalizado e que os portugueses o percepcionam como tal. A percentagem de portugueses que conhecem quem tenha feito abortos ilegais e locais onde estes se praticam é elevada (quadro 2). O aborto é um acto difundido, com envolvimento das pessoas que o sofreram ou praticaram directamente, bem como com a conivência de todas as pessoas que dele tiveram conhecimento e nada fizeram para o evitar.
Quadro 2 - Respostas em percentagem às perguntas sobre a percepção do fenómeno do aborto
Resposta |
«conhece alguém que tenha abortado clandestinamente?» |
«já ouviu falar de algum local onde se façam abortos clandestinos?» |
| Sim | 40.1 |
46.6 |
| Não | 53.9 |
50.6 |
| Ouviu falar | 3.3 |
-- |
| Ns/ Nr | 2.7 |
2.8 |
| Total | 100.0 |
100.0 |
As percentagens dizem respeito a um total de 1466 inquiridos.
Fonte: Universidade Católica Portuguesa, CESOP- Estudo sobre a interrupção voluntária da gravidez.
Assim, qual a linguagem racional, afectiva, psicológica, etc., a dirigir a estas pessoas, no sentido de votarem "não" no referendo? Se este assunto não for tratado adequadamente, muitas destas pessoas, para não se julgarem e para não julgarem os outros, ou vão votar "sim" para ratificarem as suas próprias acções anteriores, ou abstêm-se para não se defrontarem com o problema. Pensamos estar em causa a reconciliação consigo mesmos, e com a sociedade, promovendo o bem daqui em diante e estancando pelo menos alguns aspectos mais aviltantes do mal, implícitos em qualquer aborto. Fica assim lançado o desafio de transmitir esta mensagem de uma forma clara e que dê força para decidir em consonância.
Ainda de entre os resultados da sondagem, causa profunda apreensão, e merece reflexão, que sejam os mais instruídos e os que têm mais rendimentos quem mais defende a liberalização do aborto. Outra conclusão diz respeito ao impacto que tem nas pessoas terem visto o feto: as pessoas que já viram a imagem de um feto são menos favoráveis à liberalização do aborto. Finalmente, é necessário ter presente o lugar da prevenção antes da gravidez e o lugar da prevenção uma vez a gravidez consumada. É importante separar estes dois aspectos para o debate ser mais claro. E, no momento actual e face ao referendo, o que está em causa é o aborto quando a gravidez está consumada. É ter presente que, em cada caso, é um ser humano que está em causa.