Querem
Mandar os Bebés para o Lixo!
“No
caso de uma lei intrinsecamente injusta, como aquela que admite o aborto ou a
eutanásia, nunca é lícito conformar-se com ela, nem participar numa
campanha de opinião a favor de uma lei de tal natureza, nem dar-lhe a aprovação
com o próprio voto.” (João
Paulo II, Evangelium Vitae, nº 73).
“Os
preceitos morais negativos, isto é, aqueles que declaram moralmente inaceitável
a escolha de uma determinada acção, têm um valor absoluto para a liberdade
humana: valem sempre e em todas as circunstâncias, sem excepção. Indicam que
a escolha de determinado comportamento é radicalmente incompatível com o amor
a Deus e com a dignidade da pessoa, criada à sua imagem: por isso, tal escolha
não pode ser resgatada pela bondade de qualquer intenção ou consequência,
está em contraste insanável com a comunhão entre as pessoas, contradiz a
decisão fundamental de orientar a própria vida para Deus.”
(João
Paulo II, Evangelium Vitae, nº 75).
Nuno Serras Pereira
24. 01. 2004
O povo português tem sido, nos últimos meses, submetido sistematicamente a uma chantagem emocional cujo objectivo consiste em criar um complexo de culpa que o paralise e impossibilite de proteger adequadamente a vida e dignidade dos bebés ainda não nascidos. De facto, a repetição constante do estribilho “querem mandar as mulheres para a prisão”, não tem outra finalidade senão a de suscitar um tumulto emotivo que ocupe todo o imaginário de modo a impedir uma reflexão serena e a formulação racional de um juízo verdadeiro. Esta perturbação tem fundamentalmente dois efeitos. O primeiro, cria a falsa imagem de que aqueles/as que justamente defendem as mães e os respectivos filhos/as ainda não nascidos, são uns vilões impiedosos (a finalidade consiste não só em diabolizá-los perante os outros, mas também perante si mesmos); o segundo oculta a realidade, isto é, por um lado, ignora as vidas humanas inocentes e indefesas, ameaçadas de morte, e por outro, camufla o propósito de liberalizar o aborto provocado.
O sentimento doentio de culpa faz com que os protectores da vida e dignidade de cada ser humano joguem à defesa, que quase peçam desculpa por terem a posição que têm, que não chamem as coisas pelo nome, que censurem escritos dos seus correligionários, que se acusem e digladiem mutuamente, que dêem continuamente voz aos necrófilos (amadores e promotores da morte), que sejam subservientes em relação a eles, que os aplaudam, que desanimem e desistam da luta, que vitimizem os carrascos, fazendo deles/as os protagonistas, etc.
Qualquer pessoa que mate, consciente e livremente, outra pessoa inocente, ainda mais se a isso se dedica, sofrerá, tarde ou cedo, daquilo que denomino de sindroma de Macbeth (mesmo que os motivos porque o faz difiram dos deste rei). Este trauma, que também se poderia chamar de Caim, necessita de uma longa terapia, que não dispensando a justiça tem de recorrer muito à misericórdia E, no entanto, quando se discute e debate o homicídio, a matança ou o genocídio não se fala principalmente de quem mata, mas sim de quem é assassinado. A compaixão e a decisão determinada de acorrer para proteger não se dirigem aos verdugos, mas às vítimas. De feito, que diríamos de alguém que perante os crimes dos nazis acudisse em sua defesa, fazendo tábua rasa dos judeus? - Por vezes, como disse S. Bernardo de Claraval (Sermão 13 sobre o Cântico dos Cânticos), citando a Sagrada Escritura, é preciso partir as mandíbulas do malvado para arrancar a vítima dos seus dentes (isto não significa que depois não se procure também tratar dos queixos do algoz predador. Foi o que aconteceu, por ex., com a Alemanha, depois da segunda Grande Guerra) -. Ora, na questão do aborto provocado é precisamente isso que a grande maioria da Comunicação Social faz: dá voz e imagem aos abortistas, abortófilos e abortadores, e desconhece sobranceiramente não só os defensores das crianças ainda não nascidas, mas também as principais vítimas, os pequeninos bebés assassinados e lançados ao lixo, ou queimados em incineradoras.
Quando
despontou a luta contra a escravatura nos USA, muitos pensaram que logo iria
mobilizar multidões. Porém, manteve-se muito tempo num impasse até que se
começou a mostrar fotografias dos escravos, da miséria em que viviam, das
torturas a que eram submetidos, etc. Foi então, e só então, que se deu o
ponto de viragem. A guerra do Vietname só acabou quando as imagens das vítimas
que a Comunicação Social difundiu denunciaram as consequências cruéis da
guerra. Quem se recorda da independência de Timor sabe bem o papel imprescindível
que nela tiveram os sons e as imagens. Os meios de Comunicação Social estão
perfeitamente conscientes do poder que têm e como deve ser usado quando se
trata de defender os fracos e os débeis contra os poderosos e os violentos, e,
no entanto, não há memória de que tenham exibido, uma só vez que fosse,
fotografias ou filmes de bebés decepados, mutilados, espotejados e degolados
por aborto. Nunca revelaram como os deitam para os esgotos, para as lixeiras ou
como os queimam em fornos (a semelhança entre os fornos crematórios para
incinerar bebés e os que eram usados nos campos de concentração nazis é
arrepiante) – cf. Brian Clowes, PhD, Facts of Life, pp. 14-15, Human
Life International, 1997, pp. 404). Não espanta, pois, que o Papa tenha
denunciado: “... a verdade é que estamos perante uma objectiva conjura
contra a vida na qual estão também implicadas Instituições
Internacionais, empenhadas em encorajar e programar verdadeiras e próprias
campanhas para difundir ... o aborto. Não se pode negar, enfim, que os
mass-media são frequentemente cúmplices dessa conjura, ao abonarem junto da
opinião pública aquela cultura que apresenta o recurso ... ao aborto e à própria
eutanásia como sinal do progresso e conquista da liberdade, enquanto descrevem
como inimigas da liberdade e do progresso as posições incondicionalmente a
favor da vida.” (João Paulo II, Evangelium Vitae, nº 17). Trata-se,
de facto, “... de uma guerra dos poderosos contra os fracos”. (João Paulo
II, Evangelium Vitae, nº 12).
Supondo
que só os homens roubam automóveis seria um absurdo pedir a descriminalização
do furto, uivando: querem mandar os homens para a prisão. E isto não só por
se tratar uma generalização indevida (a maioria dos homens não rouba automóveis),
mas porque a finalidade da lei consiste em evitar que se subtraia o meio de
transporte alheio. A hipotética ida para a prisão poderá ser um efeito, uma
consequência da injustiça praticada, mas quem quer a lei, não a deseja, como
é óbvio, para “mandar os homens para a prisão” (coisa idêntica se
poderia dizer em relação ao crime nefário de pederastia). O mesmo aconteceria
se quem furtasse fossem somente mulheres. Que toda e qualquer mulher não é,
necessariamente, o ser imaculado que nos querem fazer crer verifica-se
facilmente, por ex., visitando a prisão de Tires. E que todo e qualquer homem não
é, necessariamente, um ignóbil infame e perverso verifica-se olhando para a
vida de tantos santos. Muito me assombra, nos dias de hoje, que aqueles que não
acreditam, de modo nenhum, no Dogma da Imaculada Conceição creiam pia e
devotamente que todas as mulheres, com excepção da Virgem Maria, são
imaculadas, sem mancha, impecáveis. Esses sãos os mesmos que negam a existência
de Satanás, mas crêem firmemente que todos os homens são demónios, malvados
impuros e imundos.
Se até o insulto e o tabefe são crimes, com a consequente penalização, como é que a morte bárbara e cruel de um bebé pequenino pode não o ser? É indispensável que em relação ao homicídio/aborto haja “uma legislação preventiva, dissuasiva e mesmo repressiva: preventiva, porque é preciso prevenir uma agressão irreparável contra uma vida humana exposta à eliminação por parte dos mais fortes; dissuasiva, porque importa dissuadir a mãe de decidir abortar e oferecer-lhe soluções alternativas, eficazes e cordiais; repressiva, porque numa sociedade democrática qualquer atentado à liberdade dos outros, e por maioria de razão às suas vidas, deve ser punido, tendo em conta as eventuais circunstâncias atenuantes ou agravantes.” (M. Schooyans). As dimensões dissuasivas e preventivas da lei eram reconhecidas por M. Luther King, nos seguintes termos: “A lei não pode obrigar um branco a amar-me mas pode evitar que ele me linche”. “Os decretos ... não podem mudar o coração, mas podem limitar a crueldade”. Mutatis mutandi o mesmo se aplica à questão do aborto.
Que
aqueles que reivindicam a liberalização do aborto têm somente uma preocupação
retórica pelas mulheres verifica-se, entre outras coisas, pelo género de
iniciativas que tomam: se queres abortar pagamos-te uma ida a Espanha; se queres
ter o filho/a não contes connosco, não te damos um cêntimo. Pelo contrário,
aqueles que defendem a vida e dignidade de cada ser humano têm-se desdobrado ao
longo dos anos, com uma generosidade inexcedível, em iniciativas de apoio às mães
em dificuldades, às crianças desamparadas, às mulheres que abortaram. Os
primeiros oferecem a morte dos filhos/as, os segundos a possibilidade de abraçá-los,
amamentá-los, amá-los e quando isso já não é possível são eles que curam
as feridas e dilacerações provocadas pelo acto de abortamento nos que nele
estiveram envolvidos, em especial nas mulheres (“Um
pensamento especial quereria reservá-lo para vós, mulheres, que recorrestes ao
aborto. A Igreja está a par dos numerosos condicionalismos que poderiam ter
influído sobre a vossa decisão, e não duvida que, em muitos casos, se tratou
de uma decisão difícil, talvez dramática. Provavelmente a ferida no vosso espírito
ainda não está sarada. Na realidade, aquilo que aconteceu, foi e permanece
profundamente injusto. Mas não vos deixeis cair no desânimo, nem percais a
esperança. Sabei, antes, compreender o que se verificou e interpretai-o em toda
a sua verdade. Se não o fizestes ainda, abri-vos com humildade e confiança ao
arrependimento: o Pai de toda a misericórdia espera-vos para vos oferecer o seu
perdão e a sua paz no sacramento da Reconciliação. Dar-vos-eis conta de que
nada está perdido, e podereis pedir perdão também ao vosso filho que agora
vive no Senhor. Ajudadas pelo conselho e pela solidariedade de pessoas amigas e
competentes, podereis contar-vos, com o vosso doloroso testemunho, entre os mais
eloquentes defensores do direito de todos à vida.” João Paulo II, Evangelium
Vitae, nº 99).
Para os primeiros, a mulher é uma bandeira a ser usada; para os segundos, uma pessoa a ser amada. As ideologias necrófilas fazem o que Lúcifer sempre fez: apresentam uma ilusão, uma miragem, uma aparência de excelência e libertação para logo enredar e desgraçar. O Maligno transfigura-se em Anjo de Luz. Em nome do proletariado fizeram-se revoluções que o oprimiram e esmagaram. Em nome das mulheres quer-se uma descriminalização do aborto que só pode terminar numa tragédia imensa para as próprias.
Este uso e abuso da mulher como bandeira encerra um outro perigo tanto mais nefasto quanto subtil. De facto, acontece algo de semelhante ao que sucedeu com algumas campanhas irresponsáveis sobre a droga. Os toxicodependentes, por todos apaparicados, vitimizados por um discurso lamechas sentiram-se uns heróis/vítimas, uns coitadinhos, centro de todas as atenções, sem culpa nem responsabilidade alguma, incapazes de qualquer grandeza, da mínima liberdade, com direito a tudo exigir. Assim desumanizados afundaram-se ainda mais nos seus problemas. Hoje a mulher que queira aparecer em reportagens nos jornais, falar na rádio, mostrar-se na TV, ter a compaixão das multidões, ser por todos lamentada, mimada e aclamada só tem de provocar um aborto – quanto maior a quantidade dos que fizer sem arrependimento algum, maiores são as hipóteses de ser vedeta – para ser enfim considerada uma heroína. Noutros tempos uma grávida com grandes dificuldades a última coisa em que pensava, se chegava a pensar, era na possibilidade de abortar. Nos dias de hoje, depois de tanta enxurrada de propaganda, ao mínimo obstáculo, a primeira coisa em que matuta para resolver o seu problema real ou imaginário é na possibilidade de eliminar a criança. Um número muito significativo de mulheres “tem a cabeça feita”, estando, por isso, de algum modo despojadas de defesas. O instinto maternal está sendo anestesiado pela hipnose colectiva. Contrariamente ao que se apregoa a maioria de abortos não são devidos a casos dramáticos (sem negar que estes também existem), mas a leviandades por “dá cá aquela palha”.
A desfaçatez dos propugnadores da liberalização do homicídio/aborto vai ao ponto de dizerem que são contra o mesmo, acrescentando que ninguém faz um aborto de ânimo leve. Estes são os mesmos que contra toda a evidência humana e científica negam, quando lhes convém (às vezes descaem-se), que o ser humano comece na concepção, na fase unicelular. Não se entende, por isso, porque é que, por um lado, são contra o aborto e, por outro, porque é que nenhuma mulher o faz de ânimo leve. Se não há vida humana, qual é o problema? E se há, como é possível aceitar que se mate propositadamente uma pessoa inocente para se desenvencilhar? Por que não assassinar então os pais para antecipar a herança, ou o colega de trabalho para subir no emprego, ou o filho/a de 16 anos para ter uma vida mais folgada? É que essencial e qualitativamente não existe diferença alguma entre um bebé não nascido, ou já nascido, e uma criança ou um adolescente ou um adulto ou um idoso. Trata-se sempre da mesma pessoa em diversas fases ou etapas da sua existência. Acautelem-se os pais!, porque se se dá a estes o direito de matar os próprios filhos pelo homicídio/aborto, tarde ou cedo terá de se conceder aos filhos o direito de assassinar seus pais pelo homicídio/eutanásia.
Se
a pessoa humana começa na concepção - “A
distinção que por vezes é sugerida em alguns documentos internacionais entre ser
humano e pessoa humana, para depois reconhecer o direito à vida e à
integridade física somente à pessoa já nascida, é uma distinção artificial
sem fundamento científico nem filosófico ... ” -
(João Paulo II, Discorso
ai participanti ella ottava Assemblea Generale della Pontificia Accademia Per La
Vita, L’Osservatore Romano, 1
Marzo 2002, p. 5) como
é possível que o Estado não só legalize o homicídio/aborto, renunciando a
tutelar o mais fraco, mas colabore na execução à morte das pobres crianças
inocentes e indefesas? Porque do que se trata nestas campanhas abortistas não
é, como se quer fazer crer, da hipotética prisão de algumas mulheres, mas sim
a de transformar um crime num direito: “... amplos sectores da opinião pública
justificam alguns crimes contra a vida em nome dos direitos da liberdade
individual e, sobre tal pressuposto, pretendem não só a sua impunidade mas
ainda a própria autorização da parte do Estado para os praticar com absoluta
liberdade e, mais, com a colaboração gratuita dos Serviços de Saúde.” (João
Paulo II, Evangelium Vitae, nº 4). O aspecto mais
subversivo e perturbador desta tendência consiste em reivindicar que esses
crimes contra a vida sejam reconhecidos e protegidos como verdadeiros e próprios
direitos (cf.
João Paulo II, Evangelium
Vitae, nº 18).
Porém essa pretensão de liberdade absoluta é uma mentira totalitária - “Reivindicar o direito ao aborto e reconhecê-lo legalmente, equivale a atribuir à liberdade humana um significado perverso e iníquo: o significado de um poder absoluto sobre os outros e contra os outros. Mas isto é a morte da verdadeira liberdade. (João Paulo II, Evangelium Vitae, nº 20) – que tem como consequência inevitável o fim da democracia: Quando a lei, votada segundo as chamadas regras democráticas, permite o aborto, o ideal democrático, que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana, é atraiçoado nas suas próprias bases: Como é possível falar ainda de dignidade de toda a pessoa humana, quando se permite matar a mais débil e a mais inocente? Em nome de que justiça se realiza a mais injusta das discriminações entre as pessoas, declarando algumas dignas de ser defendidas, enquanto a outras esta dignidade é negada? Deste modo e para descrédito das suas regras, a democracia caminha pela estrada de um substancial totalitarismo. O Estado deixa de ser a «casa comum», onde todos podem viver segundo princípios de substancial igualdade, e transforma-se num Estado tirano, que presume poder dispor da vida dos mais débeis e indefesos, como a criança ainda não nascida, em nome de uma utilidade pública que, na realidade, não é senão o interesse de alguns. (cf. João Paulo II, Evangelium Vitae, nº 20).
Alguns
ficam apavorados e tolhidos com o argumento de que não podemos impor o nosso
ponto de vista aos outros e que, por isso, apesar de se ser contra o aborto não
se pode proibi-lo pois ninguém é obrigado a provocá-lo. Quem não quiser não
o fará e quem quiser realizá-lo-á, e viveremos todos tolerantemente
respeitando-nos uns aos outros. Todos... menos os bebés que são mortos pelo
caminho. Para eles não há nenhuma tolerância. São chacinados. Este raciocínio
dos abortistas já era usado por Stephen Douglas, um dos maiores defensores da
sociedade esclavagista, nos USA. Num discurso em 1858, diz: “O princípio
supremo é o direito que cada um tem de julgar e decidir por si sobre a rectidão
ou o erro, sobre os benefícios ou malefícios de um acto. E o direito de agir
livremente, o direito à liberdade de pensamento, de livre análise das questões,
é o nosso direito mais querido ... . É preciso deixar que as pessoas decidam
por si próprias.”. S. Douglas não tinha escravos e era “contra a
escravatura”. Não obstante, nos seus discursos advogava que quem não
quisesse escravos, não os tivesse; mas que não impusesse a sua moral aos
outros. Achava intolerável a existência de leis que proibissem os escravos: a
decisão de os ter ou não, era, como hoje se diz, “uma questão da consciência
de cada um”. A consciência e a dignidade do escravo não contavam. Ele não
era sequer considerado pessoa. A. Lincoln derrotou Douglas mostrando que os
direitos naturais e universais de cada ser humano têm de ser sempre respeitados
e que a sociedade nunca pode aceitar os actos que contra eles atentam, devendo
proteger-se com leis que os proíbam; mostrando que quem, “em consciência”,
escraviza outro ser humano, comete um crime. Como ensina o Santo Padre: “A
tolerância legal do aborto ou da eutanásia não pode, de modo algum, fazer
apelo ao respeito pela consciência dos outros, precisamente porque a sociedade
tem o direito e o dever de se defender contra os abusos que se possam verificar
em nome da consciência e com o pretexto da liberdade.”
(João Paulo II, Evangelium
Vitae, nº 71).
Aqueles
que lutam pela vida e dignidade de cada ser humano não impõem nada aos outros,
querem sim impedir que alguns imponham uma morte desumana e brutal às
pequeninas crianças ainda não nascidas.
Logo
no início desta legislatura o BE anunciou tudo o que agora está a suceder,
inclusive a cumplicidade de católicos na investida abortistas. Na altura, houve
o cuidado de chamar a atenção para quem de direito. A Igreja, considerada como
Povo de Deus, teve pois muito tempo para se preparar. Mas andava ocupada com
outras coisas e deixou correr. E, no entanto, há muito que o Papa advertiu: “É
totalmente falsa e ilusória a comum defesa, que aliás justamente se faz, dos
direitos humanos — como por exemplo o direito à saúde, à casa, ao trabalho,
à família e à cultura, — se não se defende com a máxima energia o direito
à vida, como primeiro e fontal direito, condição de todos os outros
direitos da pessoa.”
(João Paulo II, Christifideles
Laci, nº 38).
Desde
há dois meses e meio, quando a borrasca se tornou mais violenta, alguns têm
feito muita coisa, mas muitos, numa apatia assustadora, não têm feito nada,
senão bocejar ou mesmo deixar-se convencer pelos abortófilos. Ora, importa ter
presente que a questão não é somente se no dia 3 de Março os partidos votam
ou não maioritariamente a descriminalização do homicídio/aborto, ou se
conseguem avançar ou não para referendo. A questão é que devido à
propaganda sistemática estamos perdendo a batalha cultural a favor da vida e
cada vez mais pessoas se deixam seduzir pela “cultura” necrófila.
Não
se entende, portanto, com raras excepções, o silêncio de grandes nomes da
cultura e da política católicos, a sua ausência nos meios de Comunicação
Social. Tantos deles têm o mais fácil acesso a esses fóruns e não aparecem,
ou se aparecem não falam, ou se se manifestam falam mal, isto é, usam
argumentações relativistas que acabam por fazer mais mal do que bem.
A
Comissão Nacional Justiça e Paz outrora tão interventora e corajosa nestas
questões, parece agora cumpliciar-se, pelo silêncio, com a investida
abortista. Parece ignorar que não “pode ter bases sólidas uma sociedade que
se contradiz radicalmente, já que por um lado afirma valores como a dignidade
da pessoa, a justiça e a paz, mas por outro aceita ou tolera as mais
diversas formas de desprezo e violação da vida humana, sobretudo se débil e
marginalizada. Só o respeito da vida pode fundar e garantir bens tão preciosos
e necessários à sociedade como ... a paz.”
(João Paulo II, Evangelium Vitae, nº 101). De
facto, “não pode haver paz verdadeira sem respeito pela vida, especialmente
se é inocente e indefesa como a da criança não nascida.”
(João Paulo II, Discurso ao
Movimento Defesa da Vida, Italiano, 2002).
Na
comunidade em que vivo, acolheu-se a dádiva de um cão. Mais precisamente, de
um “pastor alemão”. A aceitação deveu-se, por um lado, à quantidade de
gatos que dormiam, “namoravam” e faziam as suas necessidades em cima dos
automóveis estacionados debaixo do telheiro e, por outro, aos ladrões que
durante a noite se passeavam, sossegadamente, pela casa despojando-nos
alegremente dos poucos haveres. Ora o dom de um cão, animal de respeito,
destemido, vigilante, parecia a solução indicada para manter felinos e
salteadores à distância ou, pelo menos, para nos despertar, caso houvesse ameaça
de invasão, de modo a podermos tomar as medidas adequadas à circunstância.
Seríamos o rebanho confiado à sua guarda. Mas quê! Enorme ilusão! Os gatos vão-lhe
à comida, mesmo dentro da casota!, e ele, quedo, contemplativo, em jejum, num
embevecimento. Os gatos, esses, certamente, passaram palavra sobre a comida
gratuita e abundante porque agora são uma chusma.
Quanto
aos bandidos, ao topar a sua chegada, o “pastor” alarga as narinas, arrebita
as orelhas, esperta o olhar, começa logo nuns festejos, saltitando, pulando,
abanando a cauda, nuns corcovos de contentamento, fazendo-se todo às carícias...
num grande silêncio mudo. Só mais tarde, na despedida, depois do assalto
consumado, é que entoa uns breves e ligeiros latidos que, de tão corteses e
gentis, fica-se na dúvida se se trata de uma despedida cordial se de um escrúpulo
no cumprimento do dever incumbido. Outras vezes solta um uivo curto, quase inaudível, como uma
tristeza por ver a casa roubada ou, porventura, uma mágoa, uma saudade, dos
safardanas que se piraram.
Este
cão é vastamente elogiado e louvado por todos os gatunos da cidade e mesmo do
distrito. De terras longínquas vêm visitá-lo, acarinhá-lo, festejá-lo... E
a casa a esvaziar-se, o “rebanho” na penúria, as vidas em perigo.
Estranhamente
as propriedades vizinhas que têm cães que ladram não são assaltadas e os
animais não gozam de bom-nome entre os ladrões. Consta mesmo que os denigrem
muito. O nosso cão, esse, sente-se muito babado e vaidoso com a larga
publicidade de que goza a sua boa reputação.