A outra face do boneco antiaborto

 

Independentemente de querer alimentar qualquer polémica a favor ou contra a liberalização do aborto, que não da descriminalização e despenalização do mesmo, como Cirurgião Pediátrico há mais de 15 anos, lidando diáriamente com inúmeras malformações, sou, por dever de ofício, levado a procurar nos conhecimentos fornecidos pela Embriologia (ciência que estuda o desenvolvimento normal e patológico do embrião e do feto) as explicações que cada dia, os Pais me pedem para justificar quer as causas quer as consequências dos desvios que o processo complexo da ebriogenese determinam nos doentes portadores de anomalias congénitas.

Quando li o artigo assinado por Graça Rosendo e Mario Robalo, citando o meu colega Dinis da Fonseca surgiu-me uma dúvida, algo que assalta com frequência os cirurgiões visto que a prática da arte cirúrgica ainda está longe de ser uma ciência exacta, pois que quando assim for encarada, os engenheiros e os informáticos resolverão melhor que ninguém as diversas opções que cada doente apresenta.

A dúvida baseava-se no princípio de que "o boneco " teria feições demasiado perfeitas e que ainda seria não um feto mas um embrião. Para esclarecer algo que me parecia resultar de um momento de amnésia, minha ou alheia, recorri a alguns textos de embriologia recentes, visto que também neste campo as coisas que eram por vezes já não são.

A dúvida inicial esclareceu-se quando verifiquei, como pensava, que " o processo de transformação de embrião em feto é um processo gradual, mas caracterizado pelo seu desenvolvimento progressivo num ser humano reconhecível como tal", facto que ocorre entre a 9ª e a 10ª semana de gestação.

Quanto á questão do polo cefálico, vulgo a cabeça, "esta área fundamental do corpo humano encontra-se perfeitamente formada ás 10 semanas, e se os olhos estão ainda encerrados é porque existe uma fusão epitelial das pálpebras", após estas já terem estado abertas cerca da 6ª semana. Os dedos das mãos e pés,"separam-se distintamente a partir da 8ª e 9ª semana".

Do que foi citado (de K. Moore e T. Persaud - The Developing Human, 5th ed. Sauders 1993 ou J. Skanadalakis e S. Gray - Embriology for Surgeons, 2nd ed. Williams & Wlkins 1994), fui levado a concluir que "o boneco" corresponde claramente pelas dimensões e características externas reproduzidas a um feto de 10 semanas, se se trata da "representação" de um "ser humano reconhecível como tal" a consciência de cada um o dirá, no dia do primeiro referendo.

 

Paolo Casella

Cirurgião Pediátrico