Mais de 190 mil abortos

Na edição do dia 18-5-98 do PÚBLICO saiu, com destaque de primeira página, o título: "Mais de 190 mil abortos por ano em Portugal" e na segunda página o subtítulo "... O trabalho permitiu-lhe estimar um número de abortamento por ano, a nível nacional, muito acima do que costuma ser referido: 192.618...", referindo esta notícia a um trabalho de investigação por mim levado a efeito.

O título e subtítulo por vós escolhidos não fazem parte dos objectivos ou das conclusões do trabalho científico por mim referido.

De facto, tal como é referido na coluna 2, da página 3, esse valor (192.618) surge como "uma extrapolação grosseira do nº de abortamentos/ano", dependendo esta extrapolação de condicionantes falíveis e referem-se a um mero exercício académico ("Se se assumir que..."), e que decorre num capítulo específico a "Discussão".

Este facto não deveria, por isso, permitir chamar para título de primeira página ou de uma notícia um mero parágrafo do capítulo "Discussão" de um trabalho científico, apresentado em provas públicas a uma Universidade e referente a um assunto tão importante como este e no qual a informação deve primar por ser o mais precisa, clara e esclarecedora do público em geral.

Este, é de facto, o primeiro trabalho de investigação nesta área a ser desenvolvido em Portugal e deveria ser preocupação do PÚBLICO comentar os dados constantes do capítulo "Conclusões": estes, sim, conclusões de um trabalho científico, no qual eu própria, como investigadora, não incluo qualquer projecção, por não haver dados científicos que lhe dêem suporte.

O capítulo "Discussão", num trabalho deste tipo, permite fazer extrapolações grosseiras ou outros exercícios, mesmo que a fundamentação seja tão especulativa quanto aquela.

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Maria Teresa Tomé, Coimbra

Jornal Público, 22/05/98