AOS PADRES DE PORTUGAL
Uma carta de alguns cristãos
29. 06. 1997
O primeiro sentimento que nos surge, no início desta carta, é de reconhecimento e de gratidão pelo vosso ministério. O vosso serviço sacerdotal, vivido na fidelidade a Jesus Cristo e aos homens exige, não poucas vezes, uma abnegação extraordinária e uma perseverança heróica. É um trabalho frequentemente incompreendido ou mesmo, por muitos, ignorado. Tendes, com as comunidades cristãs a quem servis, uma autoridade especial no serviço ao mundo e à vida (quer pela assistência social quer pela espiritual) da pessoa toda e de todas as pessoas.
Exactamente por este sentimento de reconhecimento, escrevemo-vos esta carta no momento em que se coloca, repetidamente, a questão da despenalização e legalização do aborto em Portugal. Num momento de tal gravidade para a nossa vida comum, é indispensável que todos, sobretudo os que têm responsabilidades pastorais, abandonemos a atmosfera de hesitação e enfrentemos a questão que se nos apresenta com incontornável persistência.
Os princípios que nos orientam a todos em tão importante matéria não se alteraram. Também os elementos fornecidos pela ciência e pela técnica são claros. Continua, outrossim, a verificar-se uma ampla identidade de entendimento sobre a defesa da vida por parte dos cristãos. Mas essa identidade parece atenuar-se no que respeita à linguagem em que tais princípios se formulam. Por isso mesmo, julgamos dever partilhar o modo como entendemos e exprimimos a questão na síntese, seguidamente (em anexo a esta carta), apresentada. Este gesto representa, da nossa parte, uma tentativa de identificação de perspectivas e de linguagem. Não pretende, contudo, esgotar as razões da questão nem simplificá-la. Pelo contrário, tenta-se insinuar a sua complexidade.
Duma coisa estamos conscientes, neste combate, de defesa e promoção da vida, a unidade é essencial. A sua importância é de tal ordem que não admite que dele se queira tirar dividendos religiosos, ideológicos, partidários ou de qualquer outra ordem. É uma luta que obedece a um amor verdadeiro por cada pessoa concreta, em especial pela mais débil e indefesa.
Neste esforço de unidade, importa ter sempre presente o aviso do ex-abortista Dr. Bernard Nathanson à Igreja católica nos Estados Unidos da América: "Nós (os promotores do aborto) nunca teríamos levado a nossa avante se vocês (os padres) se tivessem unido resoluta e vigorosamente." Esta é a responsabilidade que hoje recai sobre nós, a Igreja de Portugal. Porque um dia ouviremos o Senhor dizer-nos: "Ouve o sangue do teu irmão bradar por mim da terra" (Gn 4,10).
ANEXO A
AOS PADRES DE PORTUGAL
Uma carta de alguns cristãos
1. A mulher é profundamente dilacerada pelo aborto
Considerações iniciais
"As opções contra a vida nascem, às vezes, de situações difíceis ou mesmo dramáticas de profundo sofrimento, de solidão, de carência total de perspectivas económicas, de depressão e de angústia pelo futuro. Estas circunstâncias podem atenuar, mesmo até notavelmente, a responsabilidade subjectiva e, consequentemente, a culpabilidade daqueles que realizam tais opções em si mesmas criminosas." (João Paulo II - O Evangelho da Vida 18 - daqui em diante: EV).
Como afirmou em nota o Cardeal Patriarca de Lisboa a questão do aborto "passa pela adopção de medidas sociais, familiares, morais e culturais que lhe combatam as causas, e não por medidas legislativas de despenalização, para as quais o Estado não tem legitimidade. Pois, sendo o aborto voluntário a destruição de um vida humana, é ilegítimo que o Estado legalmente o aceite e, ainda pior, venha depois a colaborar na sua execução com os seus serviços e hospitais."
Consequências psíquicas do aborto
" A extracção social e a idade das mulheres que recorrem ao aborto são as mais variadas. Muitas abortam sem causa grave - 20% por conveniência; 60% por problemas menores; 15% por causa grave [ ...] " Todavia as consequências são muito duras: "Realizado o aborto muitas mulheres apresentam um sentimento correspondente ao de ter sofrido um abuso de várias partes: delas mesmas (porque o seu juízo foi falseado), do ambiente, da sociedade. Não há, com efeito, um regresso à normalidade: profundos sentimentos de remorsos, de aflição e de culpabilidade começam a emergir e tornam a vida difícil. Sentem-se muito pior do que antes [ refere-se às dificuldades que a mulher experimentou e que a levaram a abortar] ; não há relação entre rapidez/facilidade da intervenção e os numerosos impactos psico-afectivos.
"Para além disso, em vez de resolver, agrava os problemas da família e do casal. Às vezes os casais separam-se; todos se sentem em parte responsáveis de um assassínio. Enfim, as mulheres têm um sentimento de perda. Vão-se dando conta de que o embrião era uma criança morta violentamente, [ ...] que nunca conhecerão. O horror ganha toda a sua dimensão; esta visão apodera-se dos seus corações e dos seus sentimentos mais profundos, até atingir o pessoal sentido da vida, com uma grande dor consequente. [ ...]
a) Dificuldades psicológicas - [ ...] Frequentemente têm pouco respeito por si próprias e julgam-se severamente chegando mesmo a não mais conseguirem olhar-se. [ ...] Os pais [ mãe e pai] põem-se em questão e julgam que já não são dignos de o ser. Têm, com frequência, pensamentos suicidas: tendo atingido a vida da criança querem acabar com a suas. [ ...] Muitas têm sonhos que revelam uma grande ansiedade (por ex: ouvem os bebés chorar sem conseguirem encontrá-los). Algumas têm fobias (por ex: medo dos médicos) ou têm comportamentos compulsivos (lavam-se muitas vezes durante o dia).
b) Problemas relacionais - Alguns casais separam-se e experimentam enormes dificuldades nas relações sexuais ou dificuldades com as pessoas do outro sexo. As mulheres, em especial, tornam-se agressivas e encolerizam-se com todos os que lhes aconselharam o aborto (pessoa do Hospital, familiares, amigos e com Deus que não interveio). Mas é sobretudo nas relações com as outras crianças que surgem os problemas, porque recordam a criança rejeitada. Algumas por medo não podem permanecer com crianças, chegando ao ponto de não conseguirem ver filmes ou cartazes publicitários com crianças.
c) Compensações e substituições - Com frequência o aborto deixa uma sensação de vazio insuportável que leva a querer preenchê-la de diversos modos. Verificam-se quedas no alcoolismo, na droga, na [ depêndencia da] televisão ou na promiscuidade sexual para fugirem à realidade que estão a viver ou por auto-punição. [ ...] ."
Para mais informação, ver o ponto seguinte.
Consequências físicas
"Esterilidade, abortos espontâneos, gravidezes ectópicas (desde que o aborto foi legalizado nos USA as gravidezes ectópicas subiram 300%), nados mortos (stillbirth), hemorragias e infecções, Choque e comas, perfuração dos úteros; peritonites, febre e suores frios, dor intensa, perda de orgãos do corpo, choro e suspiros/lamentações, insónias, perda de apetite, exaustão, emagrecimento, nervosismo, queda da capacidade de trabalho, vómitos, perturbações gastro-intestinais."
2. Os principais conflitos intrapsíquicos e interpessoais da mãe e do pai da criança abortada são
"1. Dor, muitas vezes transformada em luto patológico, que resulta muitas vezes em depressão porque:
a) não há corpo para abraçar;
b) ambos contribuiram para a morte da pessoa por quem estão de luto;
c) o bebé não nascido foi desumanizado antes do aborto, mas o processo de luto deve envolver um indivíduo real;
d) o aborto é considerado por grande parte da sociedade como um não acontecimento, tendo como resultado que as pessoas que sofrem são consideradas estranhas ou anormais;
e) não existe apoio social à manifestação do luto pela criança abortada;
f) há muitos poucos profissionais capazes e com vontade de ajudar.
2. Fúria, consigo mesmo por se ser tão auto-destrutivo, e com os outros por a (o) terem abandonado em tempo de crise.
3. Culpa, reconhecimento da ofensa a Deus, a si próprio, ao(à) companheiro(a), à família, à humanidade.
4. Medo, das suas tendências destructivas, de ser castigada(o) e/ou abandonada(o), de ter uma criança deficiente em gravidezes posteriores.
5. Auto-estima reduzida.
6. Problemas sexuais.
7. Ruptura de relações.
8. Ruptura das capacidades maternais/paternais.
"Estes graves conflitos originam os seguintes sintomas: pesadelos, sentido de vazio, dores abdominais, desespero, medo de estar só, pânico, irritabilidade, instabilidade temperamental, desejo desesperado de se distrair com o trabalho, divertimento e sexo, depressão, tendência para a auto-agressão, preocupações com a morte, pensamentos suicidas.
"Dado que os homens não têm direito legalmente reconhecido à protecção da criança não nascida, eles evitam a ligação ao bebé e dão menos apoio às companheiras. Sem o apoio do companheiro, é mais provável que uma mulher tenha uma gravidez não sucedida, quer por aborto espontâneo quer provocado [ "Gravidezes não sucedidas de todo o tipo, não resolvidas, tendem a originar luto patológico e supressões do sistema imunitário, aumentando a probabilidade de infecções e de cancro. Para situações semelhantes, uma gravidez não sucedida devido a aborto provocado tem o dobro das possibilidades de afectar as condições gerais de saúde."p. 159] . Dado que também é provável que a mulher recorra ao aborto sem o consentimento ou mesmo o conhecimento do companheiro, este tenderá a afastar-se. Este ciclo vicioso está rapidamente a ganhar força em todos os países que negam aos homens qualquer interesse legal na protecção do seu filho não nascido, enquanto insistem nas obrigações em cuidar dele caso assumam a paternidade. Os homens envolvidos num aborto sentem-se despeitados e completamente desesperados. A sua frustração e o dano infligido à sua masculinidade aumentam as taxas de violação e de violência conjugal.
"É necessário que uma mãe faça o luto por uma gravidez não sucedida antes que se possa ligar afectivamente ao filho que se lhe siga. Como uma mulher que recorreu ao aborto provocado não faz o luto pela criança morta, ela tenderá a estar ansiosa durante a gravidez e a ficar deprimida com o nascimento da criança seguinte. Tem muitas vezes problemas de ligação a esta criança e é por isso mais provável que haja problemas de negligência ou abuso. Mulheres que foram maltratadas quando crianças têm maior probabilidade de vir a abortar e mulheres que recorram ao aborto têm maior probabilidade de vir a maltratar os outros filhos. Os irmãos dos bebés abortados sofrem do que descrevemos como síndroma dos sobreviventes ao aborto."
3. As consequências nos "sobreviventes" são graves
"Hoje em dia, o síndrome dos sobreviventes afecta um grande número de jovens. Nalgumas sociedades a maioria da população sofreu danos. Quando uma pessoa sobrevive a uma situação em que familiares , amigos ou outros morrem devido a acidente, doença ou guerra, sente-se culpada por estar viva e inquieta pela sua vida. Ele ou ela não gozam a vida e têm uma sensação de condenação eminente. Quando uma pessoa sobrevive unicamente porque os seus pais decidiram que a queriam e, esses mesmos pais, mataram uma criança não desejada, a patologia do sobrevivente é agravada por relações instáveis, falta de confiança nos pais, a sensação de não possuir valor intrínseco (e assim os outros também não têm direito a existir nem têm valor intrínseco), problemas em comprometer-se e dificuldade em compreender conceitos essenciais como o amor e a confiança. Estas crianças são os sobreviventes da mais moderna das discriminações, a morte de uma criança por não ser desejada. Os sobreviventes tendem, eles próprios, a abortar os seus filhos. São vítimas da mais escondida e destrutiva forma de sofrimento da sociedade actual. A menos que este dano seja reconhecido e curado, a nossa sociedade não sobreviverá. A segunda evangelização será difícil numa cultura onde os conceitos básicos de amor, confiança, valor, realidade, paternidade e maternidade foram distorcidos. [ ...]
"Existem vários tipos de sobreviventes. Alguns exemplos: a) uma criança que sofreu um ataque directo [ tentativa de aborto] à sua vida; b) irmãos de crianças abortadas; c) adolescentes cujas mães lhes dizem: Dás-me tanto trabalho que teria sido melhor se te tivesse abortado.; d) qualquer criança que é convidada pelos pais a tomar parte de uma decisão de abortar ou não um irmão mais novo que ou é inconveniente ou deficiente (uma ocorrência cada vez mais frequente). Estas crianças sofrem para o resto da vida do Síndrome de Caim. Acreditam que: Eu matei o meu irmão e agora todos quererão matar-me. Sofrerão de um enorme sentimento de culpa e sentem-se fascinados pela violência, destruição, morte e pela cultura da morte. O tratamento destas crianças é difícil e provavelmente nunca se tornarão pessoas normais.
"Uma criança que nasce depois de um aborto, será uma criança assombrada que acredita que o fantasma do seu irmão procurará vingar-se. É também uma criança substituta que para além de sofrer uma ansiedade existencial muito grande e de culpa de sobrevivente, sente que deve corresponder a todas as expectativas dos pais relativamente à criança abortada, que na mente deles e a posteriori teria sido o filho perfeito. Estas crianças normalmente sabem que há alguém ausente. Podem chegar a ver os irmãos em sonhos (às vezes muito ameaçadores) ou pressentir a sua presença. Muitas vezes representam-nos nos seus desenhos sobre a família e por vezes são companheiros imaginários de brincadeiras. Estas crianças são ansiosas, desconfiadas e hesitam em tomar decisões e assumir compromissos. Estando vivas porque foram desejadas, acreditam que devem agradar sempre aos outros pelo que têm dificuldade em serem elas mesmas. Escapam muitas vezes para um mundo de fantasia, divertimento, droga, sexo e prazeres perigosos em que desafiam a morte. Porque precisam da aprovação e permissão dos outros para existir, são facilmente influenciados pelos companheiros ou gangs, ou então tentam ser politicamente correctos. Como não dão valor intrínseco à sua vida ou à vida dos outros e como não confiam nos pais ou em qualquer autoridade e sentem muita raiva, facilmente embarcam numa violência desenfreada. Os conflitos de que sofrem são profundos, mas muitas vezes não identificáveis ou direccionados."
4. A dimensão da devastação é imensa
"A Organização Mundial de Saúde estima que há entre 40 a 60 milhões de abortos por ano. Isto significa que em cada ano são mortos aproximadamente 50 milhões de bebés e 50 milhões de mulheres, 50 milhões de homens e 100 milhões de irmãos sobreviventes são afectados pelo aborto provocado. A este número, já por si estonteante, temos de juntar o dos avós em sofrimento, dos amigos em conflito e o de profissionais de saúde confundidos. Assim, em cada ano, cerca de 250 milhões de pessoas são profundamente afectadas pelo aborto. Em muitos países ocidentais, 70% das mulheres terão feito um aborto quando atingirem os 45 anos. A percentagem de homens e de avós afectados é semelhante. Cerca de 50% das crianças são sobreviventes a abortos. Trata-se de uma epidemia nunca antes vista na história da humanidade. [ ...]
"Nos últimos 3 anos treinamos conselheiros para lidar com as consequências deste holocausto, em 14 países. Párocos, enfermeiros, psicólogos, médicos, freiras e monges participaram nos cursos. O impacto do aborto na nossa sociedade não pode ser subestimado. Há demasiado tempo que os Homens têm vindo a minar os mecanismos que sustentam a nossa espécie. Os que conduzem os destinos da nossa sociedade têm obrigação de conhecer o profundo dano que afecta mais de metade da população mundial. A reconciliação e a terapia têm de ser adaptados à profundidade e magnitude do problema, caso contrário a humanidade não sobreviverá. Sem crianças há poucas razões para acreditar e planear o futuro. Sem esperança, as pessoa não se importam com as crianças.
"Todos vimos a dor e a confusão em milhares de pessoas, homens, mulheres e crianças, como resultado do aborto provocado. É altura de mobilizar todos os recursos possíveis para diagnosticar, tratar e prevenir este enorme e tão difundido desastre."
5. "De entre todos os crimes que o homem pode cometer contra a vida, o aborto provocado apresenta características que o tornam particularmente perverso e abominável (Omnia inter ea scelera quae patrare homo contra vitam potest, notas quasdam prae se fert procuratus abortus quibus improbus insignite ac detestabilis evadit.)." (EV 58).
"A gravidade moral do aborto provocado aparece em toda a sua verdade, quando se reconhece que se trata de um homicídio e, particularmente, quando se consideram as circunstâncias específicas que o qualificam. A pessoa eliminada é um ser humano que começa a desabrochar para a vida, isto é, o que de mais inocente, em absoluto, se possa imaginar: nunca poderia ser considerado um agressor, menos ainda um agressor injusto! É frágil, inerme, e numa medida tal que o deixa privado inclusive daquela forma mínima de defesa constituída pela força suplicante dos gemidos e do choro do recém-nascido. Está totalmente entregue à protecção e aos cuidados daquela que o traz no seio. [ ...] ."( EV 58).
Hoje, "delineia-se e consolida-se uma nova situação cultural que dá aos crimes contra a vida um aspecto inédito e - - se possível - ainda mais iníquo, suscitando novas e graves preocupações: amplos sectores da opinião pública justificam alguns crimes contra a vida [ "sobretudo quando ela é débil e indefesa"] em nome dos direitos da liberdade individual e, a partir de tal pressuposto, pretendem não só a sua impunidade mas ainda a própria autorização da parte do Estado para os praticar com absoluta liberdade e, mais, com a colaboração gratuita dos serviços de saúde. [ ...] se é muitíssimo grave e preocupante o fenómeno da eliminação de tantas vidas humanas nascentes ou encaminhadas para o seu ocaso, não o é menos o facto de à própria consciência, ofuscada por tão vastos condicionalismos, lhe custar cada vez mais a perceber a distinção entre o bem e o mal, precisamente naquilo que toca o fundamental valor da vida humana". (EV 4).
6. A despenalização ou/e legalização do aborto significa
a) Uma garantia oferecida ao agressor de que a sua vítima não será protegida.
b) Uma ameaça frontal à cultura dos direitos humanos
"[ ...] Hoje [ ...] o problema [ das opções contra a vida] põe-se também no plano cultural, social e político, onde apresenta o seu aspecto mais subversivo e perturbador na tendência, cada vez mais largamente compartilhada, de interpretar os mencionados crimes contra a vida como legítimas expressões da liberdade individual, que hão-de ser reconhecidas e protegidas como verdadeiros e próprios direitos. Chega assim a uma viragem de trágicas consequências um longo processo histórico, o qual, depois de ter descoberto o conceito de "direitos humanos" como direitos inerentes a cada pessoa e anteriores a qualquer Constituição e legislação dos Estados , incorre hoje numa estranha contradição precisamente numa época em que se proclamam solenemente os direitos invioláveis da pessoa e se afirma publicamente o valor da vida, o próprio direito à vida é praticamente negado e espezinhado, particularmente nos momentos mais simbólicos da existência, como são o nascer e o morrer. [ ...] Como pôr de acordo essas repetidas afirmações [ ...] com a recusa do mais débil, do mais carenciado, do idoso, daquele que acaba de ser concebido? Estes atentados encaminham-se exactamente na direcção contrária à do respeito pela vida e representam uma ameaça frontal a toda a cultura dos direitos do homem. É uma ameaça capaz, em última análise, de pôr em risco o próprio significado da convivência democrática: de sociedade de "con-viventes", as nossas cidades correm o risco de passar a sociedade de excluídos, de marginalizados, irradiados e suprimidos." (EV 18).
c) A morte da liberdade
Pois em nome desta anula-se a liberdade dos outros aniquilando (pelo aborto) a vida que lhe dá lugar. "Acaba por ser a liberdade dos mais fortes contra os débeis, destinados a sucumbir" (EV 19). "Reivindicar o direito ao aborto [ ...] e reconhecê-lo legalmente, equivale a atribuir à liberdade humana um significado perverso e iníquo: o significado de um poder absoluto sobre os outros e contra os outros. Mas isto é a morte da verdadeira liberdade." (EV 20).
d) A subversão da democracia
"O ideal democrático é verdadeiramente tal apenas quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana [ ...] Como é possível falar ainda de dignidade de toda a pessoa humana, quando se permite matar a mais débil e a mais inocente? Em nome de que justiça se realiza a mais injusta das discriminações entre as pessoas, declarando algumas dignas de ser defendidas, enquanto a outras essa dignidade é negada? [ ...] Deste modo e para descrédito das suas regras, a democracia caminha pela estrada de um substancial totalitarismo. O Estado [ ...] transforma-se num Estado tirano, que presume poder dispor da vida dos mais débeis e indefesos, desde a criança ainda não nascida até ao idoso, em nome de uma utilidade pública que, na realidade, não é senão o interesse de alguns" (EV 20).
e) A aceitação de uma guerra profundamente injusta
O Santo Padre fala "[ ...] de uma guerra dos poderosos contra os débeis: a vida que requereria mais acolhimento, amor e cuidado, é reputada inútil ou considerada como um peso insuportável, e, consequentemente, rejeitada sob múltiplas formas. Todo aquele que, pela sua enfermidade, a sua deficiência ou, mais simplesmente ainda, a sua própria presença, põe em causa o bem estar ou os hábitos de vida daqueles que vivem com mais vantagens, tende a ser visto como inimigo do qual importa defender-se ou inimigo a eliminar. Desencadeia-se assim uma espécie de conjura contra a vida."
7. Apelar à tolerância para aceitar o aborto é injusto
Pois, "tolerar tudo significa ser intolerante para com a justiça e o bem comum."
8. O aborto não é uma questão que possa ser deixada à consciência de cada um
Como o não é a escravatura, a tortura ou o homicidio. Que a consciência possa ser errónea e a ela se possa apelar para justificar a mais cruel e pavorosa arbitrariedade tornou-se patente com Hitler e os oficiais nazis das SS (cfr. GS 16; DH 3, 4. 11-14): "A tolerância legal do aborto ou da eutanásia não pode, de modo algum, fazer apelo ao respeito pela consciência dos outros, precisamente porque a sociedade tem o direito e o dever de se defender contra os abusos que se possam verificar em nome da consciência e com o pretexto da liberdade." (EV 71) .
9. Ao defender a vida o cristão não impõe nada aos outros
Pretende sim impedir que se imponha a morte, pela força, a bebés, ainda não nascidos, totalmente inocentes e privados de qualquer meio de defesa. Trata-se de ser a voz dos que não têm voz.
10. Dois deputados (um do PCP e outro da JS) anunciaram que na próxima legislatura, a começar em Outubro, vão propor de novo a legalização do aborto.
Tendo em conta os números anteriores pedimos a continuação do vosso trabalho, generoso e dedicado, de defesa e promoção da vida
1. "Trata-se de uma exigência sobremaneira premente na hora actual" (EV 87).
"Trata-se de uma exigência sobremaneira premente na hora actual, em que a cultura da morte se contrapõe à cultura da vida, de forma tão forte que muitas vezes parece levar a melhor. [ ...] trata-se de uma exigência que nasce da fé que actua pela caridade [ ...] De que aproveitará irmãos a alguém dezer que tem fé se não tiver obras? [ ...] devemos cuidar do outro enquanto pessoa confiada por Deus à nossa responsabilidade. [ ...] somos chamados a fazer-nos próximo de cada homem [ ...] É precisamente através da ajuda prestada ao faminto, ao sedento, ao estrangeiro, ao nu, ao encarcerado - como também à criança ainda não nascida, ao idoso que está doente ou perto da morte - , que temos a possibilidade de servir Jesus [ ...] : Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes. [ ...] O serviço da caridade a favor da vida deve ser profundamente unitário: não pode tolerar unilateralismos e discriminações, já que a vida humana é sagrada e inviolável em todas as suas fases e situações; é um bem indivisível. Trata-se de cuidar da vida toda e da vida de todos." (EV 87).
2. Recordando algumas sugestões (cfr. EV 87-100)
a) " É urgente uma grande oração pela vida,
que atravesse o mundo inteiro. Com iniciativas extraordinárias e na oração habitual, de cada comunidade cristã, de cada grupo ou associação, de cada família e do coração de cada crente, eleve-se uma súplica veemente a Deus, Criador e amante da vida." (EV 100).
b) "Realização de projectos e iniciativas concretas, sólidas e inspiradas evangélicamente."(EV 88):
- "sejam promovidos os centros destinados à divulgação dos métodos naturais de regulação da fertilidade" (EV 88).
- "Também os consultórios matrimoniais e familiares" (EV 88).
- "ainda os centros da ajuda à vida e os lares de acolhimento da vida" (EV 88).
c) "Urge uma mobilização geral das consciências e um esforço ético em comum, para se põr em prática uma grande estratégia a favor da vida. Todos juntos devemos construir uma nova cultura da vida " (EV 95).
d) "Tem de se começar por renovar a cultura da vida no seio das próprias comunidades cristãs. Muitas vezes os crentes, mesmo até os que participam activamente na vida eclesial, caem numa espécie de dissociação entre a fé cristã e as suas exigências éticas a propósito da vida, chegando assim ao subjectivismo moral e a certos comportamentos inaceitáveis." (EV 95).
e) "O primeiro e fundamental passo para realizar esta viragem cultural consiste na formação da consciência moral acerca do valor incomensurável e inviolável de cada vida humana. Suma importância tem aqui a descoberta do nexo indivisível entre a vida e a liberdade. São bens inseparáveis: quando um é violado, o outro acaba por o ser também." (EV 96).
f) "De modo particular, é necessário educar para o valor da vida, a partir das suas próprias raízes. É uma ilusão pensar que se pode construir uma verdadeira cultura da vida humana, se não se ajudam os jovens a compreender e a viver a sexualidade, o amor e a existência inteira no seu significado verdadeiro e na sua íntima correlação. A sexualidade, riqueza da pessoa toda, manifesta o seu significado íntimo ao levar a pessoa ao dom de si no amor. A banalização da sexualidade conta-se entre os principais factores que estão na origem do desprezo pela vida nascente: só um amor verdadeiro sabe defender a vida."(EV 97).
g) "Um pensamento especial quereria reservá-lo para vós, mulheres, que recorrestes ao aborto. [ ...] não vos deixeis cair no desânimo, nem percais a esperança. [ ...] abri-vos ao arrependimento: o Pai de toda a misericórdia espera-vos para vos oferecer o seu perdão e a sua paz no sacramento da Reconciliação. Dar-vos eis conta de que nada está perdido, e podereis pedir perdão também ao vosso filho que vive no Senhor. Ajudadas pelo conselho e pela solidariedade de pessoas amigas e competentes, podereis contar-vos, com o vosso doloroso testemunho, entre os mais eloquentes defensores do direito de todos à vida." (EV 99).
Aos Padres de Portugal - Uma carta de alguns cristãos
Subscrevem este documento
Dr. António Bagão Félix - Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz
Dr. António Maria Pinheiro Torres - Coordenador dos "Juntos pela Vida"
Dra. Aura Miguel - Jornalista
Dr. Duarte Guedes - Piloto de automóveis
D. Duarte de Bragança
P. Duarte da Cunha - Diocese de Lisboa
Professor Doutor Ernâni Lopes - Professor Universitário - Economia
D. Ernesto Gonçalves Costa - Bispo Emérito de Faro
Eng. Fernando Magalhães Crespo - Gerente Executivo da R.R.
Professor Doutor Francisco Carvalho Guerra - Presidente do Centro Regional do Porto da U. C. P.
Dr. Francisco Ribeiro - Presidente das Equipas de Jovens de Nossa Senhora
Professor Doutor Germano Marques da Silva - Director da Faculdade de Direito de Lisboa da U. C. P.
Dra. Isabel Lima - Direcção dos Jovens Pró-Vida
Dr. Jaime Nogueira Pinto - Professor Universitário
Professor Doutor João César das Neves - Professor Universitário - Economia
P. Professor Doutor Joaquim Cerqueira Gonçalves - Director Fac. de Filosofia de Lisboa da U. C. P.
Professor Doutor Jorge da Costa André Júnior - Professor Universitário - Engenharia
Professor Doutor Jorge Miranda - Professor Universitário
Dra. Ma. da Graça Mira Delgado - Coordenadora do Movimento de Defesa da Vida
? Dra. Ma. João Avillez - Jornalista ?
Dra. Ma. José Nogueira Pinto - Deputada
Dra. Ma. Margarida Condado - Coordenadora da Eq. Nac. da Acção Católica dos Meios Independentes.
P. Mário Silva - Ministro Provincial da Ordem Franciscana
Professor Doutor Nuno Cordeiro Ferreira - Professor Universitário - Medicina
P. Nuno Serras Pereira - Franciscano
Dr. Pedro Libâno Monteiro - Direcção Nacional dos "Juntos pela Vida"
Eng. Roberto Carneiro
Professor Doutor Valentim Xavier Pintado - Vice-Reitor da U. C. P.
Transmitido hoje (07.07.1997) no noticiário da R.R.
UMA INTERVENÇÃO CORAJOSA
DE CRISTÃOS LEIGOS EM FAVOR DA VIDA
- Palavras proferidas por D. Maurílio de Gouveia, em
Alcácer do Sal, no Domingo, 06.07.1997
" Um grupo de cristãos leigos, ocupando posições relevantes na sociedade portuguesa, acaba de tomar posição pública perante a grave questão da despenalização do aborto.
A primeira reacção que se pode tomar, perante este facto, é a de clara congratulação. É absolutamente saudável que um grupo qualificado de cidadãos, no exercício pleno da sua cidadania, e sem ocultarem a fé cristã em que se inspiram, venham dizer, na praça pública, sem peias, sem eufemismos: nós somos defensores da vida humana, ainda antes de nascer; nós somos contra o aborto, que é um atentado contra a vida humana, e por isso, um crime.
A forma, que a intervenção daquele grupo assumiu, é a de uma carta dirigida a todos os padres do nosso país. Há neste apelo um sentido de comunhão que nunca é demais relevar. Na verdade, nem sempre as posições públicas da Hierarquia sobre valores ou princípios fundamentais têm sido devidamente secundadas por alguns sectores cristãos.
Assume, por isso, grande valor e significado a tomada de posição daqueles leigos.
Antes mesmo de se sublinhar o conteúdo, justo e actualíssimo, do seu apelo, merece ser referido o próprio facto da intervenção. Não é a primeira, graças a Deus.
De facto, temos vindo a assistir nestes últimos tempos a afirmações públicas de cristãos adultos, não acerca de valores humanos, mas também acerca da sua própria fé, professada com coragem diante de uma sociedade laica e agressiva - e não tolerante! - para com tudo o que é transcendente, religioso e, sobretudo, cristão.
Porque motivo havemos de deixar que só os defensores duma ordem social laica e ateia, intervenham, com enorme frequência, e pretendan impôr as suas concepções de vida?
É, de facto, tempo de afirmar no seio de uma sociedade pluralista, o projecto homem, ou seja o ideal humanista, tal como Cristo o apresentou e pelo qual deu a vida, e tal como a Igreja o anuncia.
É tempo de os cristãos serem coerentes com as suas convicções, não se refugiando no íntimo das consciências, quando é necessário sair para os areópagos, onde se debatem as grandes questões e se tomam decisões que afectam decididamente a existência individual e colectiva.
No caso presente, da legislação sobre a despenalização do aborto, não estamos evidentemente perante uma realidade priorotáriamente religiosa. É uma realidade eminentemente humana. O direito à vida é um direito fundamental. Não há razões que legitimem o aborto.
Uma coisa é compreender os dramas, responder aos problemas que tantas vezes estão na sua origem; outra coisa é legalizar o crime.
Aqui fica, pois, esta palavra sincera de um bispo que se sente feliz ao saber que um grupo de cristãos leigos, com a maior dignidade, e fé, vêm tomar posição corajosa em favor da vida, isto é, em favor da pessoa humana."