Educar
... para a irresponsabilidade sexual?
Comunicado
da Comissão Nacional Justiça e Paz.
A educação sexual é, sem dúvida, um imperativo dos
tempos de hoje. Mas quando, de facto, centrada na contracepção, no minimalismo
ético, no carácter avulso dos comportamentos, é tudo menos educação. É um
passo de consequências nefastas imprevisíveis para uma sociedade que se quer
generosa, equilibrada e responsável.
Nos últimos dias da actual legislatura, a Assembleia da
República aprovou, por maioria, o projecto de lei sobre o “Reforço das
garantias do direito à saúde reprodutiva”. A Comissão Nacional Justiça e
Paz, que entre muitas outras organizações não teve a oportunidade de se fazer
ouvir no decurso do processo legislativo e da sua “discussão mínima
garantida”, não pode de exprimir, ainda que a posteriori, uma posição de
frontal discordância desta iniciativa.
A CNJP reconhece a necessidade e a oportunidade da
abordagem da questão da educação sexual, que se considera, aliás, uma das
profilaxias da prevenção do aborto da formação para a vivência de uma
sexualidade integral e responsável.
Todavia, ao reconhecido défice educacional responde-se
com medidas que ultrapassam os desejáveis intentos formativos, na medida em que
se fomenta, não apenas o conhecimento da sexualidade, mas se faz a divulgação
do acto sexual como social, moral e familiarmente neutro ou irrelevante. Só
assim se compreenderá o ter-se interpretado como necessidade educacional a
disponibilização de preservativos nas escolas.
Ao fim e ao cabo, trata-se, sob a capa de uma boa intenção
textual de “promover uma vida sexual e reprodutiva saudável, mais
gratificante e responsável”, de um projecto com uma visão redutora,
permissiva e unidimensional da sexualidade.
De facto, perpassa por todo o texto uma visão quase
exclusivamente biológica da sexualidade, uma posição meramente mecânica e técnica
de planeamento familiar, uma distorcida e enviesada perspectiva de educação
sexual.
O Estado surge neste contexto como um tutor omnipresente
das atitudes, comportamentos e consciências dos jovens, atirando a família
para um plano secundário e coarctando de uma maneira intolerável a sua
liberdade de opção.
É sintomático constatar que o estado ou os serviços públicos
são citados quinze vezes num diploma de 13 artigos (!), ao mesmo tempo que o
substantivo Família é pura e simplesmente ignorado.
Será assim que se quer robustecer e vertebrar o papel
dos pais e da família como sede moral e educacional do desenvolvimento e maturação
da personalidade dos filhos?
Foi desta maneira que os deputados da Nação entenderam
o sinal que lhes foi dado pelo resultado do referendo sobre o aborto ou
deveremos entender esta ignóbil lei como uma tentativa consumada de ganhar na
“secretaria” o que foi perdido pelo voto consciente dos eleitores? Onde é
que está o respeito pela liberdade de cada família a educar os seus filhos com
consideração pelos valores éticos, comportamentais, cívicos e religiosos a
que livremente têm direito?
Porque é que, em nome do uniformismo e do hedonismo
comportamental, se violenta o direito inalienável e insubstituível dos pais no
projecto educativo dos filhos, com a imposição quase ditatorial da “lei”
de que, em matéria de sexualidade nas escolas, o proibido é limitar os
instintos?
Por seu lado, o diploma confunde sistematicamente educação
com mera informação, e direito à saúde reprodutiva (por paradoxal que pareça)
com direito à contracepção.
Em vez da educação do carácter e da promoção dos
valores fundamentais da vida, o que transparece desta lei é o primado do
relativo e do transitório, do prazer sem consciência, da diluição do sentido
de responsabilidade, da eleição do preservativo “através de meios mecânicos”
e de “apoio técnico para a utilização dos meios contraceptivos” como os
elementos principais da chamada educação sexual dos alunos.
E se a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis
é, em si mesma, uma atitude correcta e que importa fortalecer, esse objectivo
deve, em primeiro lugar, colocar-se ao nível da educação de valores e
não exclusivamente da disponibilização gratuita
(leia-se: paga pelos contribuintes) de meios e técnicas mecânicas.
Caberá aos pais e educadores e respectivas Associações
fazer ouvir a sua voz activa junto dos Conselhos Directivos das Escolas para que
se diminuam os efeitos nefastos desta iniciativa legislativa.
É fundamental concentrar as nossas energias em defesa de
uma verdadeira e incondicional cultura da vida, e de, uma sexualidade saudável,
afectiva e responsável contra esta vaga, por vezes subtil e quase envergonhada,
que começou na tentativa abortada do aborto livre, passou pela facilitação
inconcebível do divórcio, pela legislação sobre uniões de facto e, pelos
vistos, passará pela comparticipação paga pelos cidadãos contribuintes da
chamada pílula do dia seguinte (curiosa a estrategicamente retirada do projecto
inicial da lei agora aprovada no Parlamento)
Não basta, pois, fingirmos que nada disto é connosco,
pensando que só se passa longe de nós. Assim como não se compreende a atitude
demissionária e distante daqueles que, mesmo no exercício dos seus cargos políticos
e públicos, sempre enfatizam no discurso o que acabam por secundarizar na prática.
A educação sexual é, sem dúvida, um imperativo dos
tempos de hoje.
Mas quando, de facto, centrada na contracepção, no
minimalismo ético, no carácter avulso dos comportamentos, é tudo menos educação.
É um passo de consequências nefastas imprevisíveis para uma sociedade que se
quer generosa, equilibrada e responsável.
Bagão Felix