Governo Liberaliza Aborto

Aborto de emergência, fraude e totalitarismo.

 

1. A fraude. A comunicação social tem falado de um novo “medicamento”, a que chama “contracepção de emergência”, autorizado pelo Infarmed, que será produzido pela Schering, e comercializado a partir de Setembro. Pois bem, trata-se de uma fraude.

 A fraude consiste no seguinte:

 a) em estabelecer, arbitrariamente, que a gravidez começa não na fecundação mas sim na nidação;

 b) em definir o aborto provocado ¾ isto é, a morte deliberada e directa, independentemente da forma como é realizada, de um ser humano na fase inicial da sua existência, que vai da concepção(1) ao nascimento ¾ como “interrupção voluntária da gravidez”;

c) em concluir que a pílula em questão não é abortiva, uma vez que, ao impedir a implantação do ser humano na sua fase embrionária, na parede do útero da mãe, não “interrompe” a gravidez, nos termos em que abusivamente a definiram. O truque é velho, a manipulação  da linguagem precede a manipulação social.

Que a vida do ser humano, e portanto a gravidez, começa na concepção e que impedir o embrião humano de se implantar no útero é abortá-lo são evidências reconhecidas, de há muito, pela ciência e pelos próprios médicos abortistas: o Dr Abraham Stone da "Planned Parenthood"(2) salientou, em 1952, que qualquer método biológico, mecânico ou químico, " ... que impeça a ovulação ou a fertilização apenas evita que a vida se inicie ... Medidas destinadas a impedir a implantação caem numa categoria diferente. Aqui suscita-se a questão da destruição de uma vida já iniciada."(3)

Mas por uma questão de estratégia procura ocultar-se a verdade: em 1962 a Dr. Mary Calderone, então Directora Médica da "Planned Parenthood", disse que "se constatar que estes dispositivos intra-uterinos actuam como abortivos(4), não se levantará apenas a Igreja [sic] Católica contra eles, mas também as igrejas [sic] Protestantes."(5) Ora “os nossos esforços, para controlar o crescimento da população, não deveriam conduzir a sentimentos generalizados de culpa quanto à metodologia. Seria trágico se um comprimido eficaz para uso pós-coito ou um agente progestagéneo de efeito prolongado fossem declarados ilegais por causa dos seus efeitos abortivos."(6)  Já o Departamento federal de Saúde, Educação e Segurança Social, tinha alertado: "todas as medidas que impedem a viabilidade do zigoto desde o instante da fertilização até ao termo do parto constituem, em sentido estrito, formas de induzir o aborto. A administração a seres humanos de compostos, cujo mecanismo de acção tenha este carácter, seja para efeitos de investigação, seja como técnica prática de controlo da natalidade, suscita questões legais que, até ao momento, não estão resolvidas."(7)

Não lhes basta porém ocultar, decidem mesmo manipular. De facto, o investigador sueco Bent Boving, num simpósio conjunto da "Planned Parenthood-Population Council", em 1959, advogou que "a possibilidade de preservar a vantagem social de que a prevenção da implantação venha a ser considerada uma forma de evitar a concepção e não de destruir uma gravidez já estabelecida poderá depender de uma coisa tão simples quanto um prudente hábito de linguagem.”(8)

No simpósio do "Population Council", de 1964 o Dr. Samuel Wishik relevou que a aceitação ou a rejeição do controlo da natalidade dependeria da possibilidade de ele causar aborto precoce. O Dr. Tietze, membro da "Planned Parenthood" e do "Population Council" propôs, como estratégia de relações públicas, "não afligir aquelas pessoas para quem isto é uma questão de grande importância". Adiantou, ainda, que os teólogos e os juristas sempre tenderam a considerar os consensos biológicos e médicos dominantes do seu tempo como a verdade dos factos e que, assim, "se se formar e estabelecer um consenso médico segundo o qual a gravidez, e portanto a vida, se inicia com a implantação, os nossos pares de outros ramos acabarão por aceitá-lo."(9)

Em 1965 o Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia (ACOG) reagiu com a sua própria resposta semântica: "A Concepção é a implantação do óvulo fertilizado."(10)

Nem todos aceitaram estas manipulações. O Dr. Richard Sosnowski, manifestamente incomodado, exprimindo o desconforto de muitos, afirmou-se perturbado "... por, sem fundamentação científica que validasse a mudança, a definição de concepção enquanto penetração espermática bem sucedida num óvulo ser redefinida como a implantação de um óvulo fertilizado. Parece-me que a única razão para isto é o dilema colocado pela possibilidade de o dispositivo intra-uterino de contracepção poder funcionar como abortivo."(11)

 d) em apelidar de medicamento a uma substância que não tem por efeito curar, mas sim matar.

 2. O cair da máscara. O Infarmed depende do Ministério da Saúde do governo de António Guterres. Por isso a liberalização do aborto (químico) é introduzida em Portugal, burocraticamente, pela mão deste governo. O Ministério da Saúde em conferência de imprensa, querendo tapar o sol com uma peneira, mentiu aos portugueses, afirmando que a “pílula do dia seguinte” não é abortiva.

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Nuno Serras Pereira

 

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Notas: 

(1) Fecundação ou fertilização.

(2) Planned Parenthood  ou International Planned Parenthood Federation é, como tem sido referido abundantemente noutros escritos, a segunda maior ONG do planeta (sendo que a primeira é a Cruz Vermelha) e a maior promotora do aborto no mundo inteiro. Tem colaborado activamente no programa chinês “cada casal um só filho” e no novo imperialismo dos controladores populacionais. através da contracepção, da esterilização e do aborto. O ramo português desta organização é a APF.

(3) Abraham Stone, M.D., "Research in Contraception: A Review and Preview," presented at the Third International Conference of Planned Parenthood, Bombay, India Report of the Proceedings, November 24-29, 1952, no copyright, Family Planning Association of India, 101.

(4) Ou pro-abortivos

(5) Dr. Mary Calderone, discussion, Mechanisms of Contraceptive Action," in Intrauterine Contraceptive Devices: Proceedings of the Conference, held April 30-May 1, 1962, New York City, ed. C. Tietze and S. Lewitt, published by Excerpta Medica Foundation, 110.

(6) Robert W. Kistner, MD, The Pill, Delacourt Press, 1969, p. 248.

(7) A Survey of Research on Reproduction Related to Birth and Population Control (as of January 1, 1963) US Department of Health, Education, and Welfare, Public Health Service, page 27.

(8) Bent Boving, "Implantation Mechanisms," in Mechanisms Concerned with Conception, ed. C. G. Hartman (New York: Pergamon Press, 1963), 386. Boving acknowledged (p. 321)

(9) Proceedings of the Second International Conference, Intra-Uterine Contraception, held October 2-3, 1964, New York City, ed. Sheldon Segal, et al.., International Series, Excerpta Medica Foundation, No. 86, page 212.

(10) ACOG Terminology Bulletin, Terms Used in Reference to the Fetus, Chicago, American College of Obstetrics ad Gynecology, No. 1, September 1965.

(11) Dr. Richard Sosnowski, head of the Southern Association of Obstetricians and Gynecologists "The Pursuit of Excellence: Have We Apprehended and Comprehended It?" American Journal of Obstetrics and Gynecology, vol. 150. No. 2 (September 15, 1984) 117.