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Ano I, nº 4, Setembro de 2000 |
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ABORTO, DEMOCRACIA E TOTALITARISMO
UMA ENTREVISTA A MICHEL SCHOOYANS
| Com
dois doutoramentos e cerca de vinte livros publicados, o padre e professor
Michel Schooyans é um conhecido estudioso de questões relacionadas com o
aborto e com o controle de população. É Professor Emérito da Universidade
Católica de Lovaina (Bélgica), membro da Academia Pontifícia de Ciências
Sociais, do Instituto Brasileiro de Filosofia, da Société Philosophique de
Louvain, do Institut Royal des Relations Internationales (Bruxelas), do
Population Research Institute (Washington), da Association pour la Recherche et
l’Information Démographique (Paris) e de diversas outras instituições de
todo o mundo. No passado mês de Março foi um dos oradores do Congresso “A Saúde
e o Poder”, organizado pela Associação dos Médicos Católicos Portugueses
em Lisboa. Nessa ocasião, o Pe. Nuno Serras Pereira entrevistou-o em exclusivo
para a Infovitae e para os Factos da Vida. É um excerto dessa entrevista que
aqui reproduzimos. O prof. Schooyans gosta de empregar expressões fortes, por
vezes polémicas. As suas respostas são necessariamente breves e por vezes é
preciso recorrer às suas obras para as compreender melhor. É preciso ainda
referir que a entrevista foi realizada em português, que o prof. Schooyans fala
correctamente, já que viveu alguns anos no Brasil. |
Nos seus livros, nota-se uma apurada
sensibilidade às questões da liberdade e uma vigorosa rejeição dos
totalitarismos. Numa das suas obras, “L´avortement: enjeux politiques”
chega mesmo a dizer que se prepara um “império totalitário” sem
precedentes na história da humanidade. Mas que isso é disfarçado por uma
ideologia que mascara a sua verdadeira finalidade, os seus verdadeiros
objectivos. Poderia comentar e explicitar melhor essa questão?
Estamos
vivendo numa época em que o totalitarismo soviético foi oficialmente
derrubado. Acontece, no entanto, que a ideologia totalitária soviética e de
inspiração comunista sobrevive às instituições soviéticas nas quais esse
totalitarismo estava encarnado. Ao mesmo tempo que se assiste àquele fracasso
do sistema soviético de governo, nós estamos assistindo ao surto da tendência
totalitária da ideologia neo-liberal.
Ora,
ao depararmos com as duas ideologias – digamos a comunista de um lado, a
neo-liberal do outro lado – constatamos que à primeira vista, há uma grande
diferença entre as duas, que são quase opostas. Entretanto, na realidade, há
um traço comum, uma característica comum às duas ideologias: ambas incitam à
luta, exaltam uma forma de sobrevivência do mais forte. A luta de classes, por
exemplo no sistema comunista, consagra a vitória do mais forte. Segundo Marx,
os burgueses, numa certa fase da história, tiveram razão porque conseguiram
derrubar a nobreza; em seguida, o proletariado, que se está tornando cada vez
mais forte, vai acabar com a burguesia, motivo pelo qual ele terá razão na
história. Esta ideia da luta de classes é muito central no sistema marxista e
na sua encarnação comunista.
Quando
vemos o que se passa na ideologia neo-liberal, deparamos exactamente com a mesma
dinâmica: vemos a dinâmica da concorrência ferrenha, da sobrevivência. O que
é o mercado?[1] É um campo de batalha onde se opõem forças
diversas, as forças dos mais fracos e dos mais poderosos. E quem sobrevive,
quem tem direito de sobreviver nesse mercado são justamente aqueles que têm a
capacidade de consumir e de produzir. “Os outros que se danem!”, como se diz
familiarmente. Importa, pois, perceber com muita clareza que hoje em dia estamos
numa situação onde o dinamismo da ideologia comunista soviética e o dinamismo
da ideologia neo-liberal se conjugam, se somam, para constituir uma espécie de
consagração da violência institucionalizada.
E
é justamente aqui que a situação do cristão é crucial, porque o dinamismo
do Evangelho consiste exactamente no contrário daquilo. O dinamismo do
Evangelho é um dinamismo de defesa dos mais fracos. Ora, tanto a ideologia
comunista como a neo-liberal recusam esse dinamismo. Para essas duas ideologias,
a natureza é violenta e deve consagrar a vitória do mais forte através de uma
selecção natural e/ou artificial, através da luta de classes, através da
concorrência. Mas em qualquer caso, trata-se de consagrar a supremacia do mais
forte; enquanto que para os cristãos, e inicialmente para o próprio Cristo, o
que importa é a dignidade de todos e de cada um dos seres humanos qualquer que
seja a sua condição física, o seu tamanho, a cor de pele, a idade, e assim
por diante. Basta ler os textos da liturgia dos Domingos. Aparecem muitas vezes
relatos de curas. Jesus aproxima-se dos doentes, aproxima-se daqueles que a
sociedade rejeita, e essas pessoas procuram Cristo, justamente porque percebem
que uma coisa nova está acontecendo na história. Enquanto que os doentes, os
aleijados, os pobres eram afastados, expulsos da sociedade, Cristo aproxima-se
deles. Ele é o Bom Samaritano que se avizinha, que toma a iniciativa de se
aproximar deles.
O
grande drama do nosso tempo, consiste, justamente, na rejeição, por parte da
sociedade, desta mensagem de Jesus Cristo. Porque de acordo com a “vulgata”
ideológica dominante, o pobre, o marginal, o aleijado, não valem nada já que
são inúteis para a sociedade. E nós cristãos, justamente, devemos fazer o
que Cristo fez, isto é, restituir àquela gente, reconhecer àquelas pessoas
marginalizadas, fracas, doentes, aleijadas, uma dignidade igual à dignidade de
todos os outros seres humanos. A nossa ética cristã, neste particular, é uma
ética que contraria terminantemente a ética hedonista, a ética utilitarista,
que se encontra tanto na tradição marxista, como também na tradição
liberal.
Costuma-se
dizer que o problema, talvez, mais grave dos dias de hoje é o problema do
aborto e da sua legalização, e que isso, corrompe, ou destrói mesmo, a
democracia. Quer desenvolver esta questão e mostrar porque é que conduz ao tal
totalitarismo sem precedentes na história? Que diferença há entre este
totalitarismo que se prepara e o Estado totalitário que foi combatido ao longo
do século XX?
Na linha do que acabamos de comentar, aparece de facto
a questão do aborto. Essa não é apenas uma questão entre muitas outras na
reflexão sobre a evolução dos costumes, a evolução das leis e assim por
diante. O caso do aborto é realmente paradigmático, é exemplar, é revelador
de uma evolução altamente preocupante na sociedade e na sua maneira de pensar.
De facto, quando se estuda um pouco a história da democracia, constata-se que a
característica essencial da democracia consiste justamente no reconhecimento da
igual dignidade de todos os seres humanos. É a questão da universalidade dos
direitos humanos. Universalidade proclamada solenemente em 1948, na Declaração
Universal dos Direitos Humanos e em muitos documentos constitucionais ou legais.
Ora, quando uma sociedade que se pretende democrática, decide que o ser humano
nascituro, isto é, antes do seu nascimento, que este ser humano pode ser
abortado, eliminado, esta sociedade introduz na dinâmica democrática uma excepção
que, na realidade, destrói o princípio da universalidade dos direitos humanos.
Uma vez tomada tal decisão, passa a haver uma categoria de seres humanos — os
nascituros —a quem não é reconhecida a mesma dignidade que aos outros, já
que a lei, em vez de protegê-los, autoriza a sua eliminação.
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"O caso do aborto é realmente paradigmático, é exemplar, é revelador de uma evolução altamente preocupante na sociedade e na sua maneira de pensar." |
Mas uma sociedade onde isso acontece é uma sociedade
que já entrou num processo de totalitarismo, porque esta sociedade se reserva o
direito de definir e decidir quem pode viver e quem pode ser eliminado. E se
este “direito” se estende ao caso do não nascido, não há motivo para que
o catálogo das excepções não se multiplique, o que de facto se observa. Por
exemplo, na Holanda e em vários países da Europa ocidental, já se pratica a
eutanásia de pessoas idosas, e nada impede que mais tarde se venham a eliminar
os inválidos, os deficientes de todo o tipo, e os dissidentes políticos, etc.
Daí
resulta que a nossa sociedade entrou realmente numa dinâmica de tipo totalitário
e a ilustração disso, a concretização disso, verifica-se na evolução do
Direito. O Direito torna-se simplesmente um positivismo jurídico, isto é,
emana simplesmente da voz dos mais fortes, da voz da maioria. A maioria que tem
esse poder de impor a sua vontade, decide quem é admitido a viver e quem pode
ser encaminhado para a morte. É uma sociedade realmente totalitária. É um
totalitarismo brando, manso, subtil, que está sendo propalado, mas é um
totalitarismo de tipo novo que eu chamo, aliás, um “ultranazismo”, porque
esse totalitarismo consagra, potencializa, o totalitarismo nazi conjugando-o com
o totalitarismo comunista e o neo-liberal.
[...]
Por vezes, aqui em Portugal, ouvimos dizer que o aborto é uma
questão da consciência de cada um. Alguns políticos argumentam assim...
Isso
é uma argumentação idiota e inadmissível porque então, se tal for o critério,
eu posso também dizer: “Bom, eu vou roubar o meu vizinho porque a minha
consciência me autoriza a roubar o meu vizinho”; “Eu vou envenenar a minha
sogra porque a minha sogra dá-me cabo da paciência”. Isso são critérios de
uma debilidade mental total, porque não se pode governar uma sociedade a partir
de uma recusa de princípios morais elementares, como é o caso do princípio do
respeito da vida humana. Porque se o respeito da vida e dos bens do outro
depender da minha consciência subjectiva, isto significa que deixa de haver
qualquer norma ética na sociedade, e que a lei é – voltamos ao que estávamos
dizendo – simplesmente o reflexo da vontade dos mais fortes. Mas nesse caso,
os mais fracos não têm futuro, não têm mais existência, não têm mais
direito nenhum.
Importa,
pois, saber qual é a sociedade que queremos. Não é possível ter uma
sociedade de solidariedade e de liberdade para todos se não houver uma relação
íntima entre a lei e a moral. Isso é uma coisa muitas vezes negada hoje.
Evidentemente, a lei não resolve todos os problemas, de acordo. Mas há alguns
princípios fundamentais, como o respeito de todos os seres humanos, a igualdade
de todos os seres humanos, que numa sociedade civilizada e numa sociedade democrática
devem ser respeitados e protegidos pela lei.
O
documento a que me referi antes, a Declaração Universal dos Direitos Humanos
de 48, não é de modo algum um documento jurídico, é um documento moral. Mas
é um documento moral que convida a várias aplicações no sector das legislações
nacionais. Por exemplo, o respeito da vida de todo o indivíduo humano – é o
artigo 3º da Declaração – esse direito de todos os indivíduos humanos à
vida deve ser traduzido em todas as legislações nacionais, mas é sempre a
mesma referência ao mesmo valor, isto é, a vida humana, que é protegido através
da legislação.
[...]
Para terminar gostava de lhe colocar uma pergunta sobre a relação
entre a contracepção e o aborto. Há pessoas que afirmam, de boa-fé, embora
iludidas, que a melhor forma de prevenir e combater o aborto seria promover a
contracepção...
A
contracepção e o aborto... Primeiro vejamos o que nos dizem as estatísticas.
Nos países onde a contracepção está mais difundida – na Europa são países
como a Itália, a Espanha, a França – constatamos que a divulgação massiva
da contracepção não diminuiu o número de abortos. Em França, por exemplo,
onde a percentagem das usuárias de contracepção é uma das mais altas do
mundo, observamos também um dos mais altos níveis de ocorrências de abortos.
Isto, mais de vinte anos após a legalização do aborto.
Mas
há uma explicação muito mais simples e muito mais compreensível do ponto de
vista psicológico: a contracepção deve ser totalmente eficaz; se ela não for
eficaz recorre-se ao aborto. A lógica do aborto e a lógica da contracepção são
duas lógicas que se complementam. É uma coisa muito simples. Quando falham os
processos contraceptivos, o aborto aparece como a solução que se impõe. De
tal modo que é da mesma atitude fundamental de recusa à vida que procedem
tanto a contracepção como o aborto.
Isto é confirmado por estudos que justamente
evidenciam que o número elevado de abortos resulta de contracepções
fracassadas. Entre as duas coisas, há uma relação que ninguém hoje pode
negar. Eu sei que há quem queira ocultar essa relação ou dissociar totalmente
as duas coisas, porque tal é o seu interesse. Mas a análise séria desses dois
tipos de comportamento revela, pelo contrário, a complementaridade quase que
natural entre esses dois procedimentos.
[...]
--------
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A
entrevista completa está disponível no nosso site:
http://www.terravista.pt/enseada/1881/ent-scho.html
A Infovitae é uma publicação semanal sobre temas relacionados com a defesa da vida. É distribuída por correio electrónico e gratuita. Pode ser pedida para: nunoallen@mail.telepac.pt |
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BREVES
Expulsão
do Vaticano da ONU?
No
início de 1999 um grupo denominado “Católicas pelo Direito à Escolha”
(“Catholics For a Free Choice” – CFFC) lançou uma campanha denominada
“See Change”. A campanha consistiu num abaixo assinado de instituições de
todo o mundo pedindo que fosse retirado à Santa Sé o seu estatuto actual na
ONU: observador permanente como Estado não membro. Assim, a Santa Sé passaria
a ter um estatuto semelhante ao de uma mera Organização Não Governamental
(ONG).
O
CFFC foi criado em 1970. Os seus escritórios começaram por ser na sede da
delegação americana da International Planned Parenthood Federation (IPPF), em
Nova Iorque, e desde então tem colaborado com algumas das organizações mais
anti-católicas e pró-aborto americanas e mundiais: IPPF, NARAL, NOW, National
Abortion Federation, Religious Coalition for Abortion Rights, etc. O objectivo
do grupo é lançar a confusão entre os católicos, sugerindo que há um forte
antagonismo dentro da própria Igreja Católica em relação a pontos doutrinais
como o aborto. A Conferência Episcopal Americana repetidamente tem declarado
que o CFFC não é um grupo católico.
Com
o passar do tempo, foi-se tornando claro que as intenções da campanha “See
Change” não eram propriamente o que tinha sido dito inicialmente. A Santa Sé
em conjunto com muitos outros países tem sido um grande obstáculo nas conferências
da ONU a países e grupos, como o CFFC e a IPPF, que pretendem que o aborto seja
reconhecido como um “direito humano”, entre outras ideias anti-vida e
anti-família. Nas conferências do Cairo (1994) e Pequim (1995) essas ideias não
passaram em grande medida graças à actuação da delegação da Santa Sé. O
grande objectivo da campanha, segundo as palavras de uma dirigente do CFFC, é o
de pressionar a Santa Sé e os países que com ela alinham para que essas
medidas possam ser aprovadas.
Num
ano, o CFFC conseguiu as assinaturas de cerca de quinhentas organizações,
entre as quais as portuguesas Associação para o Planeamento da Família (APF)
e Asa/Despertar. Contudo, em menos de quatro meses mais de duas mil organizações
fizeram saber ao Secretário Geral da ONU que apoiam a manutenção do estatuto
do Vaticano numa campanha de sentido contrário lançada pelo Catholic Family
& Human Rights Institute (C-FAM). Mais tarde diversos países e o Senado
americano manifestaram igualmente o seu apoio à Santa Sé, acabando com as
pretensões do CFFC.
Mais
informações no site do C-FAM: http://www.c-fam.org/HolySee/
Novos
centros de apoio a grávidas
Abriram
nos últimos meses alguns centros de apoio a grávidas em situação de risco. A
ADAV (Associação de Defesa e Apoio da Vida) iniciou o “Projecto Mãe” com
dois centros de atendimento, em Coimbra e Leiria, estando prevista para breve a
abertura de dois outros em Aveiro e Viseu. O horário de atendimento é das 9.00
às 13.00 e das 14.30 às 17.30. Na ilha da Madeira surgiu o Centro da Mãe com
um centro de atendimento, casa de acolhimento e “telefone S.O.S.”
ADAV
– Projecto Mãe – COIMBRA – Tel. 239 82 0000; Praça 8 de Maio, 42, 2º.
sala B
ADAV
– Projecto Mãe – LEIRIA – Tel. 244 80 2040; Clínica Médica da Misericórdia,
sala 2; Rua N. Senhora da Encarnação
Centro da Mãe – FUNCHAL –
Tel. 291 22 0274
Pequim+5
No
passado mês de Junho, 5 anos depois da Conferência de Pequim sobre a Mulher, a
Assembleia Geral da ONU fez um balanço da aplicação do programa de acção
então aprovado. Na sequência do que se tinha passado nas conferências do
Cairo e de Pequim, as delegações de alguns países desenvolvidos e ONGs
tentaram aprovar um suposto direito ao aborto. Como tem sido também habitual,
essa tentativa escondeu-se sob o eufemismo de “acesso de todas as mulheres aos
serviços de saúde sexual e reprodutiva” para o qual se pediu “a remoção
de todas as barreiras legais”. Aos ataques à vida somaram-se os feitos à família,
com a tentativa de substituir o conceito tradicional de família pelo de “famílias”,
que admitiria diversas formas. Mais uma vez, as intervenções da Santa Sé, de
muitos países, sobretudo do hemisfério sul, e de representantes de movimentos
de defesa da vida de todo o mundo, conseguiram travar estas tentativas. A sessão
final prolongou-se pela madrugada fora, com a tentativa desesperada de aprovação
de pelo menos algumas dessas novidades. Felizmente, sem sucesso.
Mais
informação no site dos Juntos pela Vida: http://www.terravista.pt/enseada/1881/pequim5.html
Clonagem
“terapêutica” e experimentação com embriões
No
passado mês de Agosto o governo inglês aprovou a clonagem de embriões humanos
com fins científicos. Essas técnicas são designadas por vezes de “clonagem
terapêutica”, pois têm por fim desenvolver tratamentos para determinadas
doenças. A expressão “clonagem terapêutica” usa-se também por contraposição
à “clonagem reprodutiva”, que visaria obter novos seres humanos que se
desenvolveriam, nasceriam, etc.
A
defesa dessa aprovação foi feita com base nos hipotéticos tratamentos que
essa linha de investigação permitirá descobrir. Os embriões clonados servirão
para obter “células estaminais” que se prevê serem úteis para tratar doenças
graves, como as de Parkinson e Alzheimer. Muitas das notícias sobre o assunto
realçaram a possibilidade dessas terapias esquecendo que, de momento, não
passam de meras hipóteses. Também foi esquecido o facto de as “células
estaminais” poderem ser obtidas a partir de seres humanos adultos sem recurso
a clonagem e sem colocar problemas éticos. Por fim, o facto de os embriões
clonados serem seres humanos que são destruídos durante ou na sequência das
experiências também foi pouco referido.
Também
em Agosto, o governo americano aprovou o uso de fundos públicos para o
financiamento desse tipo de experimentação. Mais informação no site dos
Juntos pela Vida na secção “Clonagem e experimentação no embrião
humano”.

João
Paulo II fala sobre o direito à vida
“a
lei que não respeita o direito à vida desde a concepção até à morte
natural do ser humano, independentemente da condição em que se encontra, com
saúde ou doente, ainda em estado embrionário, ancião, ou em estado terminal, não é uma lei conforme ao desígnio divino:
por isso, o legislador cristão não pode contribuir para a sua formulação
nem aprová-la em sede parlamentar”
João Paulo II, Discurso no Jubileu dos Políticos, 4/11/2000
| Boletim informativo da Associação Juntos pela Vida * Correspondência: Apartado nº 52055, E.C. de Campo Grande, 1721-501 Lisboa * Tel.: 21 396 8567 * Correio electrónico: juntospelavida@gmail.com * WWW: http://www.terravista.pt/enseada/1881 * Editor: Miguel Pupo Correia * Redacção: João Araújo, Margarida Brito Correia, Maria Furtado, João Loureiro, Teresa André Loureiro, Vítor Rodrigo * Concepção gráfica: Paulo Emiliano * Pode ser reenviado, impresso e copiado |
LEGISLAÇÃO
SOBRE A PÍLULA DO DIA SEGUINTE
No
passado dia 19 de Outubro foram aprovados na Assembleia da República três
projectos de lei relacionados com a “pílula do dia seguinte”. Estes
projectos determinam que essa pílula seja distribuída gratuitamente nos
centros de saúde e hospitais, e que seja vendida sem receita médica nas farmácias.
Neste momento os projectos estão na Comissão Parlamentar de Saúde e
Toxicodependência. Apresentamos excertos de dois artigos aparecidos na imprensa
sobre o assunto.
Tabu
Venenoso
Portugal
vive neste momento um forte perigo para a saúde pública. Um produto que pode
ter gravíssimos riscos para a vida e a saúde verá em breve a sua distribuição
feita sem controlo médico e, possivelmente, até gratuita. Com uma ligeireza e
uma irresponsabilidade inauditas, alguns partidos parlamentares fizeram aprovar
de repente projectos de lei que pretendem tornar fácil e generalizado o consumo
da chamada "pílula do dia seguinte" (não, desta vez não é a
droga).
Este
"medicamento", que está a criar grande polémica em todo o mundo, tem
algumas características evidentes. Trata-se de uma dose maciça de hormonas que
impede que o embrião de uma criança se desenvolva. Assim, constitui um meio
abortivo, pois interrompe uma vida já formada. De forma fraudulenta, a questão
é tratada como "contracepção de emergência". Mas, apesar do
disfarce de má-fé, é claro que se está, não a prevenir, mas a destruir uma
gravidez.
Além
disso, como é normal num químico tão poderoso, verificam-se consequências
laterais muito graves para a saúde da mulher (sempre ela!). Além de náuseas e
vómitos, é cada vez maior a evidência de risco sério de trombose, diabetes,
mutações no aparelho reprodutor e até nos cromossomas. Trata-se, pois, de um
fármaco violento, que ninguém deveria ingerir ligeiramente. Agora, a nossa lei
pretende tratá-lo como uma aspirina. O presidente do conselho consultivo do
Instituto Nacional de Farmácia e do Medicamento e professor na Universidade do
Porto demitiu-se revoltado com a situação.
É
evidente que estamos a lidar com um produto que tem muitos riscos, que nunca
ninguém pensaria alguma vez em tornar acessível sem graves restrições,
sobretudo no nosso tempo hipercuidadoso com a saúde. Quando se multiplicam as
campanhas de prevenção e terapêutica, se promove o combate ao tabaco e ao álcool,
se realizam investigações cuidadosas sobre a qualidade alimentar e se fazem
denúncias de produtos tóxicos na água, como é possível que, de um momento
para o outro, num súbito arrebatamento, a Assembleia da República facilite o
acesso a um produto que, comparado com os medos comuns, só pode ser considerado
um veneno perigoso? Por que razão se cai numa tão evidente irresponsabilidade?
Para compreender este paradoxo temos de entender o enorme
poder do tabu no nosso tempo. Em todas as épocas, os piores erros vieram sempre
dos tabus que condicionaram e limitaram a vida humana. A racionalidade, a prudência
e a ponderação foram, ao longo dos séculos, gravemente distorcidas por eles,
ofuscando o pensamento de gerações inteiras. Consciente deste facto, o nosso
tempo decidiu eliminar de uma vez para sempre os tabus. E fê-lo com tanto vigor
e empenhamento que a eliminação dos tabus transformou-se, ela própria, num
tabu. Essa obsessão está a ter tão graves consequências na nossa vida como
em épocas transactas.
Hoje
é completamente impensável que alguém defenda outra coisa que não uma vida
sexual sem qualquer limitação. A única regra admissível é a ausência de
regras ou orientações. Aí deve vigorar a mais completa liberdade. A única
possibilidade é a entrega ao capricho e ao prazer numa "vida sexual
gratificante". Livre de convenções, livre de complexos, até livre de
gravidez e de crianças.
João César das Neves
“Diário
de Notícias”, Opinião, 30 de Outubro
Efeito
Perverso
[...]
A
existência desse problema levou o governo trabalhista a realizar uma campanha
no sentido de revalorizar o sexo responsável e consciente [...]. A sua mensagem
é simples: recomenda aos jovens que reflictam antes de escolherem ter relações
sexuais. Combate a ideia de que ter relações é mais ou menos a mesma coisa
que beber uma coca-cola ou, já agora, "dar uma passa".
A
campanha, naturalmente, não resolverá o problema, mas pelo menos procura
estimular comportamentos responsáveis, procura que os jovens pensem nas consequências
dos seus actos. Ir pelo caminho contrário - o de facilitar comportamentos
irresponsáveis, como o sexo ocasional sem preservativo, em nome de uma pílula
do dia seguinte universal e gratuita - é capaz de produzir exactamente um
efeito contrário ao que se pretende. [...]
José Manuel Fernandes
“Público”, Editorial, 19 de Outubro
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