Juntos pela Vida   Factos da Vida

Ano I, nº 5, Outubro de 2000

 

  

O CONTROLE DE POPULAÇÃO: 
GUERRA CONTRA AS PESSOAS

   

O Dr. Joseph Meaney (Human Life International) tornou-se conhecido entre os movimentos de defesa da vida de todo o mundo, quando em 1999 visitou os campos de refugiados de kosovares no Norte da Albânia. Nesses campos viu directamente a acção do lobby de controle de população: apesar da falta dos meios médicos mais elementares, todos os meios necessários para impedir os nascimentos, incluindo máquinas de abortar manuais, estavam disponíveis em grandes quantidades.

Em Abril de 2000 realizou-se em Granada, Espanha, um congresso de movimentos de defesa da vida. Aí encontrámos o Dr. Joseph Meaney e aproveitámos para conversar com ele sobre estes temas.

  
Controle de população na Guatemala

Factos da Vida: Pode começar por dizer-nos como se envolveu no movimento pró-vida?

Dr. Joseph Meaney: Eu comecei a fazer trabalho pró-vida quase desde que nasci. Os meus pais estavam muito envolvidos e envolveram os seus filhos desde muito cedo. Eu nasci em 1970 e a lei do aborto foi aprovada nos Estados Unidos da América em 1973. Estávamos constantemente a rezar, havia pessoas que ficavam em nossa casa, víamos filmes, os folhetos... A minha irmã mais nova, Elizabeth, chegou a aparecer num folheto de um Crisis Pregnancy Center [centro de apoio a grávidas em risco]. Era um bebé engraçado...

Na escola começámos um grupo pró-vida: recolhíamos dinheiro, artigos diversos, roupas e outras coisas para as mães que queriam ter os seus bebés com a ajuda dos Crisis Pregnancy Centers. Também fazíamos marchas.

Na Universidade fiz parte do secretariado de um clube pró-vida e fomos a Washinghton D.C. tomar parte numa marcha em que, cada ano desde 1973, mais de cem mil pessoas marcam a sua recusa absoluta do aborto nos EUA, dizem que a vida é a verdadeira escolha, etc. Assim, eu estava muito envolvido.

Penso que houve um ponto de viragem... Provavelmente eu não pensava que a minha actividade profissional viria a estar relacionada com a defesa da vida. Sempre pensei que isso seria algo que eu faria para além do meu trabalho. O meu principal interesse era fazer trabalho missionário, e também fazer trabalho de desenvolvimento económico e trabalhar com pobres em países da América do Sul. E, assim juntei-me a um grupo que fazia missões médicas – levava cirurgiões e prestava cuidados de medicina pública – na Guatemala. Comecei em 1994 e continuei em 1995 e 1996. Fazia de intérprete e organizava visitas médicas. E foi aí que pela primeira vez vi o controle de população em actividade. Foi chocante pois não fazia ideia de como actuava. Em geral pensava que essas pessoas faziam coisas más em locais distantes como a China e Índia, Bangladesh, etc. Mas não sabia que o fazem por todo o lado: todos os países pobres têm esse controle.

  

“E o véu caiu: não era para as mães e crianças, era para esterilizar pessoas e garantir que haveria menos índios”

 

Trabalhávamos numa pequena cidade chamada Passion em Chihuahua, nas terras altas ocidentais da Guatemala. Havia apenas vinte mil pessoas na cidade de Passion. Não era uma grande cidade. Tínhamos aí um pequeno hospital e certos grupos começaram a aproximar-nos dizendo que tinham um “programa mãe e criança” e queriam dar-nos ajuda e dinheiro para realizarmos esse programa de apoio a mães e crianças. O chefe do hospital, o Dr. Ramon, disse: “Isso é fantástico. Nós gostamos imenso de ajudar mães e crianças. Estamos muito apertados [de orçamento]. Precisamos de toda a ajuda que arranjarmos.” E então essas pessoas começaram a explicar que iriam treinar parteiras para ajudar as mães a terem partos seguros, para ajudar com a saúde das crianças e esse tipo de coisas. E por fim queriam juntar planeamento familiar como parte do seu plano de saúde para as mães. E então o Dr. Ramon disse: “Bom, sabem que somos da Igreja Católica. Obviamente concordamos. Podemos trabalhar sobre isso. Podemos oferecer métodos naturais – método de Billings, método Sintotérmico, coisas dessa natureza. Estamos desejosos de incorporar esses aspectos.” E eles disseram: “Não, penso que não entenderam. Queremos distribuir a pílula, o DIU, o Norplant, Depo-Provera, promover o preservativo e tudo o resto. E queremos fazer esterilizações cirúrgicas e estamos interessados no vosso hospital, pois têm uma sala de operações onde podemos fazer esterilizações.” O Dr. Ramon disse: “Bom, não podemos fazer isso. É imoral e nem sequer é muito legal aqui na Guatemala.” Mas a resposta foi: “Bom, se não podem fazer isso... essa é a parte mais importante do nosso programa.” E o véu caiu: não era para as mães e crianças, era para esterilizar pessoas e garantir que haveria menos índios – especialmente índios porque o programa não era para pessoas de classes média/alta, era para os índios que viviam nas montanhas.

Então comecei a ficar mais envolvido com o movimento pró-vida a nível internacional, quando vi que até uma pequena cidade como esta era visada. Felizmente conseguimos impedir que o programa decorresse no nosso hospital – porque éramos católicos e tínhamos princípios morais – mas eles ofereciam milhares e milhares de dólares e, quando dissemos “não”, trabalharam com um grupo protestante local para instalarem o seu próprio pequeno hospital e começaram o programa. Isso mostra que o movimento de controle da população é muito poderoso e activo por todo o mundo.

 

Os foruns internacionais 

FdV: Esteve na conferência do Habitat em Istambul. Quer falar sobre isso?

JM: Sim, claro. Isso foi um resultado imediato. Eu pensei: “Se isso é o que se passa aqui na Guatemala, o que se passa internacionalmente?”

Havia muitas notícias sobre a Conferência do Cairo de 1994 sobre “População e Desenvolvimento” e pensei: “É uma pena ter perdido a Conferência do Cairo, não ter podido ir e defender a vida e ajudar a esclarecer as pessoas...” Porque um aspecto é que muitas das pessoas que vão, muitos delegados de países que vão a essas conferências são diplomatas profissionais, mas não têm formação sobre temas pró-vida. Quero dizer, têm uma carreira política, de administração pública, ou coisa parecida, mas, apesar de terem valores, não estudaram as questões e não sabem o que é que os termos e palavras codificados significam; como “saúde reprodutiva”.

Sobre a Conferência de Istambul pensei: “Bom, eu vou, mas é uma conferência sobre o habitat, sobre povoações, habitação, etc. Não terá uma componente importante sobre população, mas eu gostava de ver como trabalham as Nações Unidas, pois sei que o Fundo das Nações Unidades para a População [FNUAP] é muito activo, etc.”

Quando cheguei a Istambul foi uma enorme surpresa ver que a principal questão durante toda a conferência foi a população. Na conferência sobre habitação havia um grupo chamado Women’s Caucus que era uma espécie de organização de cobertura para grupos feministas de diferentes famílias; outro grupo chamado WEDO, Women’s Environmental and Development Organization era uma cobertura para grupos ambientalistas, etc. E eles literalmente forçaram os temas da “saúde reprodutiva” e dos “direitos reprodutivos”. E nisso incluíam o “direito” ao aborto como parte da saúde reprodutiva e dos direitos reprodutivos; o “direito” de crianças, mesmo apenas com 10 anos, receberem informação sobre planeamento familiar, receberem aconselhamento sobre o aborto e isto sem a intervenção dos pais, que poderiam ter uma visão contrária. Os direitos da criança significavam que as crianças têm “direitos sexuais” – “direitos sexuais” era outro termo – que tinham o direito ao sexo, sem impedimentos, que o casamento não era relevante, etc. Foi chocante e surpreendente.

   

“E eles literalmente forçaram os temas da “saúde reprodutiva” e os “direitos reprodutivos”. E nisso incluíam o “direito” ao aborto”

 

Os delegados árabes... Isso foi outro aspecto... Os delegados árabes viam os “direitos reprodutivos” e a tradução para árabe (porque tudo é traduzido para as seis línguas mais faladas da ONU: Inglês, Francês, Espanhol, Russo, Chinês e Árabe) era o “direito à reprodução”. E eles pensavam “Isso é óptimo. Claro que temos direito a ter filhos. Isso está absolutamente certo.” E nós tivemos de lhes dizer que não e mostrámo-lhes os documentos onde a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu direitos reprodutivos e saúde reprodutiva como incluindo serviços de aborto, etc. “Não, não podem concordar com isso.”

E então o interessante é que começou a vir à superfície: “Ok, vamos incluir um parágrafo com uma menção de que todos os países devem oferecer a saúde reprodutiva como parte dos serviços gerais de saúde e dos direitos à saúde das pessoas.” E quando houve uma objecção à questão dos direitos reprodutivos, de repente, eu diria, o dentes ficaram à mostra, o véu caiu novamente, e o “grupo” disse: “Não, não estão a perceber: se querem dinheiro, se querem ajuda económica, vão deixa-nos fazer este programa.”

E uma das coisas que aconteceu em Istambul... Bom, há um grupo chamado G77 que é uma coligação de países – actualmente são mais de 77 – constituído sobretudo por países africanos, da América Latina, Ásia, os países mais pobres, uma espécie de países não-alinhados. Foi feita uma aproximação aos países africanos – foi informal e off the record – e disseram-lhes: “Olhem, os centros Habitat em Nairobi, Kenia... a não ser que nos apoiem nesta questão dos direitos reprodutivos nós somos capazes de conseguir transferir esses centros de Nairobi para a Europa. E vocês perderiam milhões e milhões de dólares por causa dos ordenados e edifícios, etc.”

As pessoas acreditaram nas ameaças: pareciam reais. No entanto, tivemos de lhes dizer: “Estas pessoas dizem que vos darão dinheiro. Prometem dinheiro em troca de vocês se venderem na questão do aborto etc. Mas eles não vos vão dar dinheiro, e vão insistir na questão do aborto. Muito do que dizem é mentira e podemos prová-lo. Podemos provar que no passado nas conferências das Nações Unidas houve promessas de dar um bilião e setecentos milhões de dólares para causas ambientais. E se virmos o que realmente aconteceu depois da Conferência do Rio em 1992, nem metade do dinheiro foi dado aos países, mas as regulamentações ambientais foram em grande medida impostas, sob ameaça de nem sequer darem uma pequena parte do dinheiro se não o fossem, etc.”

Istambul foi fantástico, pois os delegados ergueram-se e a Santa Sé foi uma espécie de ponto de referência, dando informação sobre o que realmente estava em jogo, dizendo para não comprometerem os princípios: “Não se pode aceitar o que é inaceitável.” Como a Santa Sé não depende de ninguém, é livre de falar. Foi uma conferência muito interessante.

 

FdV: Não sei se quer deixar mais claro quem é que queria impor essas políticas aos países pobres.

JM: Claro. É um facto trágico. Isto está exposto, não é de forma alguma segredo. A administração Clinton, nos Estados Unidos, que está no poder desde 1992, tem feito do controle da população uma prioridade, promovendo o aborto. Tem tido alguns problemas, porque o Congresso republicano tende a opor-se a esta situação, não lhes facilitando a vida. Mas a delegação americana tem sido uma das mais fortes a nível internacional no apoio ao controle da população e planeamento familiar. A União Europeia tem sido também uma grande apoiante das mais variadas iniciativas ao nível da população. Alguns países como o Canadá têm tido também uma participação forte. Por vezes mais alguns países do mundo desenvolvido, como o Japão e alguns países escandinavos, envolvem-se também. Assim, é essencialmente uma coligação dos países mais ricos, geralmente do hemisfério norte, que suporta essas iniciativas.

 

FdV: E há também organizações privadas...

JM: Isso é outro aspecto das Nações Unidas que é bastante problemático. A ideia das Nações Unidas era criar uma maneira de os países se juntarem com fins pacíficos, para cooperarem, mas mantendo a sua soberania. Estes países não se tornaram [com a ONU] uns “Estados Unidos do Mundo” ou algo do género, mas trabalham juntos em iniciativas comuns, projectos globais, etc. Assim, tecnicamente falando, cada país tem direito a um voto – é claro que existe o Conselho de Segurança com o poder de veto, não é perfeito – mas a ideia é que os países sejam o factor de decisão. Agora, o que a experiência dos anos mais recentes permite verificar é que certas Organizações Não Governamentais, ONGs, têm talvez mais influência do que certos países. A International Planned Parenthood Federation (IPPF), algumas agências especializadas das Nações Unidas, como o Fundo para a População (FNUAP), e outros grupos dessa natureza têm sido bastante activos e intimidantes dos países, mais uma vez financeiramente.

As Nações Unidas não podem obrigar os países a alterarem a sua legislação, porque não têm jurisdição, não têm autoridade. O que podem fazer é afirmar “A não ser que alterem a lei, damos a ajuda a outro país. Nós vamos dar este projecto ou este programa que representa milhões de dólares a outros...” Há chantagem financeira e os países pobres são os principais afectados. Os países ricos podem dizer: “Não nos dêem a nós o dinheiro; não queremos saber; não precisamos do vosso dinheiro.” Os árabes sauditas, por exemplo, nas conferências das Nações Unidas “riem-se” porque não precisam de dinheiro, e assim podem ser uma força poderosa. A Santa Sé o mesmo. Mas se é um país que depende de milhões de dólares de ajuda que chega todos os anos, politicamente como é que explica às pessoas do país: “Não vamos ter mais dez escolas este ano, não vamos ter mais programas alimentares, não vamos fazer nada disso, porque defendemos princípios e não vamos permitir que crianças sejam mortas, não vamos permitir que tenham lugar esterilizações em massa, não vamos comprometer os nossos princípios” ?

 

FdV: Estava a dizer que existe uma espécie de chantagem. Isso quer dizer que os países ricos ou mais ou menos ricos, como Portugal, por exemplo, estão a salvo deste tipo de estratégias?

JM: O que acontece nos países ricos é o seguinte. Não pode haver pressão internacional sobre o país sob o ponto de vista financeiro. O que acontece é que os media e diferentes grupos de pressão mobilizam-se a fim de criarem pressão política. E o que dizem é: “A não ser que apoiem esta política progressiva-liberal-esclarecida, nós vamos denunciar-vos, vamos denegrir a vossa imagem na imprensa, vamos processá-los, vamos criar-vos todo o tipo de problemas” – e isso acontece. [...]

 

Kosovo, Milosevic e o FNUAP 

FdV: Pode-nos falar um pouco sobre o Kosovo? Como é que as pessoas estão a viver nos campos de refugiados?

JM: Eu penso que toda a questão dos refugiados, recentemente a crise do Kosovo mas também em outros países, é muito clara e penso que é um exemplo incriminatório da falta de respeito pelas pessoas e pelos direitos humanos, do lobby do controlo da população, dos planificadores da população.

O estandarte dos direitos reprodutivos tem sido nos últimos anos levado para os refugiados. Algures no Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), na Organização Mundial de Saúde (OMS) os ideólogos decidiram. “O que estamos a fazer para controlar, para oferecer planeamento familiar aos refugiados, etc..? É óbvio que estas pessoas estão deslocadas, fora dos seus países e que custam muito dinheiro, que os campos de refugiados têm que ser administrados. Eles estão muito vulneráveis, não têm oportunidade de levantar a voz, são estrangeiros, muitas das vezes estão em países estrangeiros, não são bem-vindos, etc. E o que é que nós podemos fazer? – Podemos fazer com que não tenham crianças. Podemos pelo menos fazer com que não se reproduzam e tornem o problema maior.”  

 

“Mas o risco de vida das mulheres era muito menos importante do que o objectivo a atingir de impedir que tivessem filhos.”

A crise do Kosovo foi um exemplo claro disso. Quando os kosovares fugiam das perseguições que sofriam – iam na sua maioria para a Albânia e também para a Macedónia e outros países – o FNUAP anunciou com pompa e circunstância que iria enviar ajuda para trezentas mil pessoas. Chamaram-lhes “kits de saúde reprodutiva”. Se víssemos o que estava dentro deste “kit” – era um “kit” de saúde reprodutiva extraordinário... – os items úteis eram um pedaço de plástico para se deitar em cima durante o parto, uma lâmina para cortar o cordão umbilical e um pequeno fio para atacar o cordão umbilical, uma pequena ventosa para ajudar no parto. Tudo coisas muitos baratas: também um sabonete e coisas do género. E o resto do “kit” eram preservativos, pílulas contraceptivas, DIUs, e uma tosca máquina manual de sucção para realizar o aborto. E a ideia que estava por detrás destes “kits” realmente era: “Nós não temos os equipamentos adequado para resolver os problemas dos campos de refugiados, mas nós vamos providenciar o melhor substituto possível que é este instrumento para o aborto, estas coisas de controle de população, de planeamento familiar, DIUs e pílulas, mas sem qualquer preocupação para com a saúde destas mulheres.”

Eles falam sobre os direitos das mulheres mas colocar um DIU numa mulher em condições sanitárias precárias, sem esterilização, cria um grande risco de infecção. E, se não houver um hospital perto essa mulher pode morrer. As feministas lidam com a gravidez como se ela fosse uma doença. Como se lidar com a gravidez significasse preveni-la ou interrompê-la quando tiver início. Mas a gravidez é uma coisa natural e as pessoa não correm risco de vida só por estarem grávidas. O parto pode ser por vezes difícil, mas incluir esses instrumentos, o DIU e o aspirador manual, é criar um risco evidente para as suas vidas. Mas o risco de vida das mulheres era muito menos importante do que o objectivo a atingir de impedir que tivessem filhos, e impedir que causassem problemas sobrepovoando os campos.

Outro ponto também importante, e eu penso que isto é muito claro, é que os refugiados são na maioria mulheres e crianças. Portanto não há um problema muito grande de terem muitos filhos. Há um problema que é o da violação, por vezes por parte dos guardas desses campos. A solução do FNUAP não é a de tentar evitar as violações; a solução é dar a pílula do dia seguinte, para evitar que a mulher violada tenha uma gravidez. Obviamente, a pílula do dia seguinte é um meio abortivo. Eles não trabalham as causas. O mais importante é que nenhum bebé sobreviva, mais ou menos como no programa chinês.

 

FdV: Ouvimos dizer que Slobodan Milosovic pediu ao FNUAP um programa de “saúde reprodutiva” para os kosovares mesmo antes da crise começar. Sabe alguma coisa sobre isso?

JM: Isso é verdade. É deveras chocante a grande diferença de natalidade entre os kosovares e entre sérvios e outros jugoslavos. Os kosovares têm tendência a ter mais filhos, a serem mais abertos à vida e, visto não serem uma minoria mas uma maioria na região do Kosovo os sérvios viram-nos como uma ameaça. [...] O presidente Milosovic achou que o melhor a fazer seria promover a “saúde reprodutiva” só entre os kosovares e chamar o FNUAP e outras instituições para trabalharem só no Kosovo, mas não noutras partes da Jugoslávia. Evidentemente, a ideia era rectificar o facto de existirem crianças a mais entre os kosovares. Isto é completamente transparente: que outra razão teria o regime sérvio para só convidar o FNUAP para trabalhar com os kosovares e simultaneamente ter uma política pró-natalista para os sérvios e noutras partes da Jugoslávia?

 

“O presidente Milosovic achou que o melhor a fazer seria promover a “saúde reprodutiva” só entre os kosovares e chamar o FNUAP e outras instituições para trabalharem só no Kosovo, mas não noutras partes da Jugoslávia.”

 

É um claro exemplo de hipocrisia. Eles usam coisas úteis, palavras que parecem inofensivas, como saúde reprodutiva e direitos sexuais e outras como estas, mas se se olhar para os factos... Nós sabemos o que os sérvios fizeram, e isto é apenas outra forma de limpeza étnica: prevenir que as pessoas tenham filhos.

Todos os kosovares perceberam isso. Quando falei com os refugiados eles disseram: “Sim, nós teremos filhos porque nós queremos existir, nós queremos sobreviver. A única coisa que temos neste momento são as crianças. Se nos tirarem a última coisa que temos, as nossas crianças, o que nos resta? Nós não temos dinheiro, não temos casas, não temos direitos políticos, mas pelo menos temos a nossa família.”

 

JpV: Isso significa que o que se passava nos campos já se passava há muito tempo no próprio Kosovo? Era uma situação contínua?

JM: O que é interessante nisto é que o FNUAP foi solicitado muito tarde para Kosovo. Penso que a primeira coisa que os sérvios tentaram fazer foi encorajar a população a crescer, sérvios a mudarem-se para o Kosovo, etc. Quanto essas tentativas falharam, o segundo passo foi promover o planeamento familiar de controlo da população entre os Kosovares.

O problema é que o Fundo da População das Nações Unidas vê números. Eles também alegam que “a população são as pessoas não números”, que querem livrar-se de quotas e objectivos [numéricos] e ajudar realmente as pessoas a realizarem-se e terem direitos, etc. Mas quando se olha, vê-se que realmente eles medem o sucesso através do número de nascimentos que conseguiram evitar e do decréscimo do aumento da população, o que é catastrófico em muitos países. Actualmente em Itália é catastrófico. Se as coisas continuarem como estão agora a população irá decair um terço, de 60 milhões de pessoas irá para 43 milhões. E quem irá pagar a reforma dos mais velhos? Temos uma sociedade em que há mais pessoas com mais de 60 anos do que menos de 15. A tensão é enorme. E parte desta mentalidade anti-vida é patrocinada pelas Nações Unidas. É verdadeiramente espantoso!

 

Mais sobre as agências da ONU 

FdV: Não sei se há notícias de coisa semelhante em outros países, mas em Portugal passou na televisão durante algum tempo um spot onde uma “estrela da TV” fazia propaganda à FNUAP. Dizia qualquer coisa como “no mundo há muitas crianças que morrem, etc, etc” e no final: “FNUAP: pessoas e não números.” Tem conhecimento de propaganda semelhante em outros países? Qual será o objectivo de tal propaganda?

JM: É um aspecto muito interessante. Nos países em vias de desenvolvimento, na África sub-Sahariana, na América Latina, em algumas partes da Ásia, a cultura ocidental tornou-se numa grande influência: Coca-Cola, calças de ganga, filmes, MacDonalds, etc. Tudo isso tem grande aceitação e as pessoas pagam por essas coisas. A única coisa para a qual não há procura, a única coisa que é quase impossível fazer com que as pessoas comprem são contraceptivos, controle de natalidade. O que eles têm de fazer nesses países é promover o controle de natalidade, criar propaganda, têm de o tornar condicional, digamos: “Se quer comida para o seu filho, então só damos se aceitar o controle de natalidade, se aceitar o DIU.” Têm de usar a imprensa e os media. E o FNUAP paga o que eles chamam de “Embaixadores da Boa Vontade”, que são figuras influentes, para dizerem: “Isto é bom, é moderno, devem fazê-lo”. Músicos Pop que compõem canções: foi provado que na Nigéria músicos Pop foram pagos para incluírem o controle de natalidade, mensagens sobre métodos contraceptivos, nas suas canções populares, para tentar influenciar e mudar a cultura. Porque percebem que a cultura é pela vida. E não é que eles [esses países] não sejam modernos no sentido de que não queiram Coca-Cola ou calças de ganga ou nada moderno. Estão muito interessados na educação. Não vêm o objectivo do controle de natalidade. Não percebem porque é que ter menos crianças é melhor. E por isso têm de fazer o assim chamado “marketing social” e usar os Embaixadores da Boa Vontade e outras pessoas para subornarem as pessoas a aceitarem o controle de natalidade, ou tentarem mudar a sua mentalidade cultural, ou de alguma forma o imporem pela força. [...]

É por isso que programas de controle de população coercivos, que efectivamente forçam as pessoas a fazerem o que não querem, na China e noutros lugares, têm todo o apoio do FNUAP. Dizem algumas palavras contra mas estão de facto a apoiá-los: dão-lhes dinheiro que é a forma mais tangível de apoio que se pode dar. E dão desculpas por eles. Não têm problemas em forçar as pessoas: eles é que sabem, eles têm as soluções e as outras pessoas têm de os seguir. É realmente uma tragédia. Tem de ser visto e exposto pelo que é: manipulação de pessoas muito pobres e, nos casos dos refugiados, pessoas indefesas.

 

FdV: Em Portugal a propaganda era só à FNUAP, não ao controle de natalidade...

JM: Claro, porque se alguém contribui para o FNUAP está a contribuir para o controle de natalidade e é mais fácil promover uma instituição do que uma prática errada. As pessoas pensam “Estes grupos, o FNUAP, tem boa imagem na imprensa. Estou certo que não hão de fazer nada horrível pois são da ONU...” É mais fácil apoiar a ONU do que apoiar uma prática maligna para obter apoio do público.

 

FdV: E o que nos diz sobre a UNICEF? Ouvimos dizer que também andam a promover o controle de natalidade, etc.

JM: A UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Criança, tem uma longa e distinta história de ajuda a crianças e mães, programas de educação, e muitas outras coisas.

Nos últimos anos, porém, tem sido trágico ver a ideologia do controle de população e do feminismo e outras coisas perverterem a sua missão. A UNICEF é a única agência da ONU que é apoiada através de donativos privados. A maior parte das agências da ONU são apoiadas por fundos governamentais. A UNICEF é popular. As pessoas dizem: “Eu quero ajudar as crianças”, etc. No entanto, foi infiltrada por ideólogos que dizem “Também temos de fazer controle de população; parte do nosso programa para mães e crianças deve incluir planeamento familiar.” O FNUAP teve muito má influência na UNICEF. Então a Santa Sé disse que não os podia continuar a apoiar tal coisa e retirou os seus donativos e apoio aos programas da UNICEF até que mudassem de atitude. No entanto, não o fizeram. Provavelmente conseguem obter mais dinheiro de outros grupos do que da Santa Sé. E os projectos que realizam actualmente muitas vezes contêm actividades imorais, como dar comida em troca de planeamento familiar e fazer das duas coisas uma. Chamam-lhe a inter-goal approach. [...] E trabalham juntos para atingirem todos os seus objectivos, que são ajudar as crianças, e evitar as crianças também se tornou um objectivo, o que é realmente triste.

 

Entrevista por João Araújo e Miguel P. Correia em exclusivo para os Factos da Vida e Infovitae. Tradução e transcrição: Belinda Santos, Ana Luísa Mansura, Catarina Hook Caetano, Miguel P. Correia. Colaboração: Cláudia Muller.  

  

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