
FEDERAÇÃO PORTUGUESA PELA VIDA
No passado dia 7 de
Dezembro foi apresentada no Porto a “Federação Portuguesa pela Vida” da
qual o Associação Juntos pela Vida é fundadora. Apresentamos a Declaração
de Princípios, os seus contactos e a lista de associações fundadoras.

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS
A
Federação Portuguesa pela Vida assume como pressupostos da sua acção que:
1.
A vida humana é inviolável e como tal deve ser reconhecida desde o momento da
concepção até à morte natural.
2.
É dever de cada cidadão, da sociedade civil, das instituições públicas e do
Estado, propor e promover uma cultura de respeito e adequada protecção da vida
humana.
3.
O progresso económico, cultural e social só é verdadeiro se reconhecer,
respeitar e preservar o valor da vida e a dignidade própria de cada ser humano.
4.
São inaceitáveis todas as formas de negação destes valores como o aborto, a
eutanásia, a experimentação com embriões e a clonagem de seres humanos, a
pena de morte ou quaisquer eugenismos fundados numa utilização ilegítima dos
mais recentes avanços da biologia e da genética.
5.
A comunidade familiar, elemento fundamental e estruturante da sociedade,
proporciona o ambiente natural e adequado para a transmissão da vida, a educação
das crianças e a protecção em geral dos membros de uma sociedade. Aos pais
cabe, em primeiro lugar, o direito e o dever de educar os filhos, de acompanhar
o seu desenvolvimento e de promover a sua formação integral, preparando-os,
nomeadamente, para um exercício responsável da cidadania.
6.
A protecção da vida humana e a promoção activa do seu valor impõem-se pela
frequência com que os mesmos são negligenciados e grosseiramente agredidos no
mundo contemporâneo. Da dignidade inegociável de toda a vida humana decorre um
conjunto de valores que, por si mesmo, representam uma aquisição cultural e
civilizacional fundamental que urge preservar e defender. Tais valores são
partilháveis por quaisquer Homens e Mulheres, independentemente das suas
particulares condições socioeconómicas, de etnia, língua, cultura, credo
religioso, convicções políticas, ou outras.
Assim,
tendo em conta estes pressupostos, a Federação Portuguesa Pela Vida propõe-se:
1.
Promover uma verdadeira Cultura de Defesa da Vida.
2.
Actuar sempre com total independência face ao Estado, a organizações político-partidárias
ou confissões religiosas.
3.
Apresentar, nomeadamente pela via do estudo e da investigação, soluções
positivas, no que respeita à defesa da vida humana, da família, da maternidade
e da paternidade.
4.
Criar um espaço de intercâmbio entre as instituições filiadas, constituindo
um verdadeiro apoio para as suas iniciativas e actividades.
5.
Exercer um papel activo e regular junto dos órgãos de soberania, das instituições
públicas, dos meios de comunicação e da sociedade civil, com vista à
prossecução do seu objecto social e defesa dos valores que promove.
6.
Estabelecer contactos regulares a nível nacional e internacional com instituições
que, pelo seu objecto ou actividades, possam permitir a constituição de
parcerias no que aos fins da Federação diz respeito.
7.
Desenvolver um plano de actividades que lhe permita prosseguir os seus fins sem
nunca se substituir à função que é própria das instituições filiadas.
8.
Participar no combate a todas as causas sociais propiciadoras de condições de
vida sem dignidade, como a pobreza, a exclusão social ou a ausência de educação.
9.
Apoiar e incentivar a constituição de núcleos de apoio à vida, nomeadamente
Centros de Acolhimento Temporário, em todo o território nacional.
10.
Criar grupos de estudo e trabalho nas diversas áreas abrangidas pelo seu
objecto social.
11.
Incentivar a constituição de centros de formação para apoiar a família e
outros agentes educativos na difusão dos valores de defesa da vida.
12.
Constituir-se como entidade parceira e formadora, nomeadamente na área da educação
da sexualidade — uma polaridade essencial e estruturante da personalidade de
cada ser humano —, no pressuposto de que o desenvolvimento desta exige um
atento acompanhamento dentro e fora da comunidade familiar e de que esta pode, e
deve, ser orientada para o amor e os valores da vida, de molde a ser vivida de
forma gratificante e no respeito da dignidade própria e do outro.
SEDE
SOCIAL
Praça 8 de Maio, 42 – 2º Andar – Sala 2
Coimbra
SEDE
ADMINISTRATIVA
Rua Arqt. Marques da Silva, 285 – 2º Centro
4150-484 Porto
Tel. 226061930 – Fax. 226061939
Email: federacao.vida@clix.pt
ASSOCIAÇÕES
FUNDADORAS
ADAV (Aveiro)
ADAV (Coimbra)
Ajuda de Berço
Juntos pela Vida
Mulheres em Acção
Ponto de Apoio à Vida
Tudo pela Vida
Vida Norte – Norte Família e Vida
Vida Universitária
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Boletim informativo da Associação Juntos pela Vida * Correspondência: Apartado nº 52055, E.C. de Campo Grande, 1721-501 Lisboa * Tel.: 21 396 8567 * Correio electrónico: juntospelavida@gmail.com * WWW: http://go.to/juntospelavida * Editor: Miguel Pupo Correia * Colaboradores: João Araújo, Margarida Brito Correia, Maria Furtado, João Loureiro, Teresa André Loureiro, Vítor Rodrigo * Concepção gráfica: Paulo Emiliano * Pode ser reenviado, impresso e copiado |
EDUCAÇÃO SEXUAL
COMUNICADO DA FEDERAÇÃO PORTUGUESA PELA VIDA
A
Federação Portuguesa Pela Vida, associação que tem por objectivo a defesa
da Vida Humana, desde o momento da concepção até à morte natural, a promoção
da dignidade da Pessoa Humana e o apoio à Família e à Maternidade, e que
reúne em vínculo federativo diversas associações portuguesas de defesa da
vida – sendo suas instituições fundadoras: ADAV-Aveiro, ADAV-Coimbra, Ajuda
de Berço, Juntos Pela Vida, Mulheres em Acção, Ponto de Apoio à Vida, Tudo
Pela Vida, VIDA NORTE e Vida Universitária - deseja trazer ao conhecimento de
Vossas Excelências a sua profunda preocupação relativamente ao actual
enquadramento, legal e prático, da Educação Sexual nas escolas em Portugal.
Na
sequência do referendo sobre o aborto, e invocando um
alegado consenso sobre a necessidade de haver educação sexual como uma
forma, entre outras, de prevenir o recurso ao aborto, foram
tomadas diversas medidas tendentes a levar para as salas de aula conteúdos
sobre educação sexual. O resultado do referendo foi, como bem se sabe,
uma vitória daqueles que entendem que a liberalização do aborto não é uma
boa solução.
Porém,
escandalosamente consideramos nós, a orientação e definição da educação
sexual para prevenir o aborto, nas escolas públicas, foi adjudicada
de forma monopolista e com carácter de exclusividade à associação denominada
APF (Associação Para o Planeamento da Família), uma organização que desde
sempre tem liderado o processo e os movimentos a favor da liberalização do
aborto em Portugal, e cujo Director Executivo, Duarte Vilar, afirmou continuar a
ser esse um dos seus principais objectivos, mesmo depois do referendo: “In
spite of the referendum results, which have effectively postponed the
possibility of having legal abortions in Portugal for some time, APF continues
to lead the network for legal and safe abortion, and we are planning new
initiatives and strategies in order to encourage a new parliamentary debate and
to keep the issue of abortion alive” (texto de Duarte
Vilar, Director Executivo da APF, in Choices, Volume 27, no 1, 1999).
A
actual legislação e modelo de educação sexual em vigor resulta
exclusivamente da transposição para a lei de um modelo defendido e preconizado
pela tal associação denominada APF.
Note-se,
porém, que não é o facto de a APF estar empenhada em promover a legalização
do aborto que torna, só por si, o seu modelo de educação sexual inadequado
para os fins que se pretendiam atingir (mas regista-se a contradição...).
Note-se
também que não é a rejeição explícita dos modelos pró-abstinência que
torna rejeitável o modelo que vem sendo implementado pela APF, apesar de esta
rejeição representar, no nosso entendimento, uma falta de senso, dado que
estes modelos “pró-abstinência” são em tudo semelhantes aos bem aceites
programas do tipo “diz Não ao álcool, drogas e tabaco”.
O
que o torna absolutamente inaceitável é o facto de se basear em modelos
datados - modelos dos anos 60 do século passado -, oriundos de algumas teorias
das ciências da educação, hoje absolutamente ultrapassadas. De facto, esses
modelos apresentaram resultados trágicos que se puderam verificar empiricamente
e demonstraram serem completamente inválidas as teorias gerais que os
inspiraram.
Tanto
assim é, que dois dos maiores inspiradores destes modelos de educação sexual
(Carl Rogers e Lawrence Kohlberg) já há muito assumiram terem rejeitado os
seus próprios modelos e terem alertado para os perigos e desastres que
resultariam da aplicação nas salas de aula das suas teorias.
Com
a adjudicação da orientação e definição das “Linhas de Orientação”
da educação sexual à APF, o que, em bom rigor, o Estado Português está a
fazer é impor compulsivamente como doutrina oficial para as nossas escolas, um
modelo de educação sexual baseado em teorias e modelos que, em grande parte são
os principais causadores dos problemas que se diz querer combater - doenças
sexuais, promiscuidade, gravidez adolescente e aborto.
Além
disso, a adjudicação em situação de monopólio e sem prévio concurso público
(note-se que estão envolvidas várias centenas de milhares de Euros de subsídios
anuais à mesma associação...) parece-nos consubstanciar um acto
administrativo de duvidosa legalidade.
Julgamos,
pois, ser urgente clarificar que o Estado Português está a impor
compulsivamente como doutrina oficial da Nação, não um conjunto de informações
úteis, científicas e certas na área da sexualidade, mas uma visão particular
do mundo e do homem, e cujos contornos concretos são – estamos certos -
desconhecidos de Vossas Excelências. Não se trata de um conjunto de
conhecimentos científicos neutros, mas de um quadro de valores particulares –
uma ética privada – imposta, sem possibilidade de defesa, aos mais jovens
membros das famílias portuguesas.
E
a forma de, discretamente, tornar compulsivo o modelo defendido pela mencionada
associação foi conseguir a aprovação de um modelo de educação sexual
interdisciplinar (se está em todas as disciplinas, ou quase todas, como é
possível fugir dele?).
Consideramos
que está já completa e cientificamente provado que o modelo de educação
sexual que está a ser promovido em Portugal é
responsável de forma causal pelo aumento da promiscuidade.[1]
Para
mais, é preciso ter absolutamente claro que o saldo entre o aumento de
promiscuidade e o aumento da chamada protecção (por preservativos,
contraceptivos, etc.) tem sido manifestamente negativo. De facto, o aumento da
actividade sexual promíscua, ainda que protegida, tem tido o efeito directo de
aumentar o que se pretendia evitar: as doenças, a gravidez adolescente e o
aborto.[2]
Isto para não falar das vidas humanas destruídas, e dos mil e um dramas
pessoais que uma vivência superficial e imatura da sexualidade tem provocado.
É
bem claro actualmente – como se pode constatar pelas mais recentes declarações
públicas do seu director executivo - que a APF promove activa e deliberadamente
o relativismo moral, pretendendo de forma explícita que isso é algo neutro e
aceitável por todos. Ora, isto mereceu uma censura generalizada entre os
especialistas portugueses, destacando-se aqui – precisamente por ser uma
personalidade que não partilha dos mesmos princípios que nós no que diz
respeito à defesa da vida - o Professor Daniel Sampaio que realçou (cfr.
Notícias Magazine, de 26.11.2000) que esta educação sexual vai ser feita com
quaisquer valores e que nela vai valer tudo em termos morais.
Consideramos
um chocante atentado às famílias que os defensores da inexistência de valores
morais objectivos (e que defendem que “cada um tenha um quadro de valores próprios,
sejam eles quais forem”, na expressão recolhida nas Linhas Orientadoras da
Educação Sexual em Meio Escolar) reivindiquem para si o privilégio tirânico
de impor a toda a gente de forma interdisciplinar, logo compulsiva, as
suas próprias ideias.
Fica
assim vedada qualquer hipótese de criar um espaço, nas escolas, para aqueles
que, não só pensam de forma diferente, mas também desejam e exigem que a
formação dada aos seus filhos consista em algo mais profundo, sólido e
seguro.
Note-se
que não é intenção da Federação Portuguesa Pela Vida retirar aos pais a
possibilidade de colocarem os seus filhos a receber educação sexual segundo o
modelo implementado pela APF. Bem pelo contrário: todos os pais que o desejarem
devem ter esse direito.
No
entanto, o que consideramos absolutamente inaceitável é a impossibilidade que
os outros pais têm de gozar o mesmo direito a livremente escolherem o tipo de
formação que querem para os seus filhos. Este sistema tem que ser
imediatamente alterado!
Acresce
que, escandalosamente, estão a ser os defensores do aborto livre a reivindicar
para si o privilégio exclusivo e monopolista de educar os filhos dos outros,
ainda que estes a isso se oponham frontalmente. Julgamos inaceitável e intolerável
que o Estado colabore na prossecução deste sinistro objectivo.
Não
se pretende impedir nenhuma associação de apresentar projectos na área da
educação sexual; não se pretende impedir a APF de desenvolver o seu trabalho.
Pretende-se que sejam criadas as condições objectivas para que, em circunstâncias
de igualdade e sem qualquer tipo de monopólio, se possam candidatar à obtenção
de subsídios para desenvolver trabalho na área da educação sexual todas as
associações que o desejem, mediante a apresentação de projectos credíveis e
fiáveis.
A
Federação Portuguesa Pela Vida está totalmente disponível para provar, seja
em que instância for, todos os factos e conclusões que constam do presente
Comunicado.
Nestes
termos, a Federação Portuguesa Pela Vida solicita ao Governo Português, e bem
assim à Assembleia da República, que com carácter de urgência, iniciem todos
os procedimentos necessários para a reposição da justiça no que concerne à
admissão de candidaturas para o desenvolvimento de projectos educativos na área
da sexualidade e para a atribuição às Famílias do legítimo direito que lhes
assiste de decidirem se pretendem, ou não, submeter os seus filhos à educação
sexual que é dada nas escolas.
Concretamente,
com efeitos já para o próximo ano lectivo e entre outras soluções que
consideramos igualmente admissíveis, propomos:
Revogação
imediata do modelo interdisciplinar/compulsivo que consta da Lei nº 120/99, de
11 de Agosto;
Definição
da educação sexual como área educativa opcional;
Esta
área educativa seria desenvolvida em cada escola no âmbito de um projecto
detalhado e abrangente, previamente apresentado e aprovado pelos encarregados de
educação e conselho directivo da escola, ao qual todas as associações e
instituições interessadas em dar formação na área da sexualidade se possam
candidatar;
Monitorização
muito rigorosa destes projectos: avaliação do impacto com um follow up
de pelo menos 2 anos, feita por avaliadores independentes e com os resultados da
avaliação tornados públicos.
A
Direcção
Dr.
José Paulo Areia de Carvalho
Porto,
16 de Dezembro de 2002
[1] G. Oettinger, The Effects of Sex Education on Teen Sexual Activity and Teen Pregnacy, Journal of Political Economics, 1999, vol 107, nº3, 606-644. Este artigo recolhe, aprofunda e comprova diversos estudos anteriores (que cita) e que já sugeriam os maus resultados deste modelo.
[2] Há cerca de um ano, num estudo feito na Maternidade Alfredo da Costa, os próprios investigadores ficaram impressionados com a percentagem de adolescentes que tinham alguma doença sexual. Mas o estudo de referência nesta matéria é D. Paton, THE ECONOMICS OF FAMILY PLANNING AND UNDERAGE CONCEPTIONS, Journal of Health Economics, 2002, 21, 2 (March),27-45.
ASSOCIAÇÕES DE
MALFEITORES
Numa
época em que a televisão é uma toxicodependência tornam-se normais os casos
de overdose. Portugal nas últimas semanas viveu um episódio destes, em que
obsessão noticiosa leva o País a viver uma alucinação colectiva durante
semanas. Isto é feito por simples inversão, com a informação a manipular a
vida e a vida a desaparecer na informação. O mais incrível é a facilidade
com que se dá o passe de prestidigitação.
A
imprensa anunciou ter descoberto uma rede de malfeitores para a exploração
sexual das crianças e jovens da Casa Pia de Lisboa. Tendo ignorado o caso
durante décadas, apesar de queixas e relatos, os jornais só o notaram quando o
crime já acabou e a notícia deixou de existir. Se isto é perspicácia
noticiosa, não se vê o que possa ser incompetência. Apesar disso, a imprensa
congratulou-se efusivamente a si mesma pela descoberta e acusou todos de a terem
omitido.
O
tratamento jornalístico começou por ser atabalhoado, para acabar numa infâmia
quase equivalente ao crime original. O fenómeno foi cuidadosamente mascarado de
«pedofilia». De facto, trata-se de algo muito pior, com repetidas violações
homossexuais de crianças em situação de fragilidade e dependência, entregues
por isso mesmo ao cuidado do Estado. Trata-se de uma barbaridade gravíssima.
Mas como a opinião politicamente correcta já só repudia severamente a
pedofilia, assim teve de ser classificado.
Seguiram-se
exemplos do pior tipo de reportagem, sôfrega, incompetente, desonesta. Baseada
em boatos, rumores, opiniões, foram lançadas suspeitas sobre multidões.
Falou-se em décadas, em centenas, em redes. Insinuou-se sem provas,
perseguiu-se sem bases. Os réus eram identificados por profissões, por cargos,
conspurcando toda a classe. Pior que tudo, a imprensa trapalhona lançou a
vergonha sobre todas as crianças da Casa Pia, envolvidas no caso sem distinções,
sem rigor, sem dignidade.
Daí
foi fácil descer à depravação. Rapidamente as reportagens deixaram de ser
informação para se tornarem em ... pedofilia. Os mesmos jovens que tinham sido
explorados voltaram a sê-lo, desta vez pelas câmaras e em nome das audiências.
Os telejornais foram pornografia, com os apresentadores a anunciar em tom alarve
o choque ao público. Não havia qualquer conteúdo a noticiar, era mesmo só
devassidão. A imprensa constituiu-se numa segunda rede de malfeitores,
agredindo com requintes de violência as mesmas vítimas e os espectadores.
Esta
foi a visão do transe da toxicodependência, a parte visível do passe de mágica.
Ao mesmo tempo, dava-se o truque de desaparição. Desapareceram um Orçamento
de Estado, uma greve geral, até dois atentados terroristas. Mas, mais
significativo, foi escondida uma terceira rede de malfeitores.
No
meio do fragor, quase ninguém reparou que o Ministério da Educação renovou
por mais um ano o protocolo de cooperação com a Associação para o
Planeamento da Família (APF), sobre educação sexual nas escolas (ver DN de 26
de Novembro). Os actuais responsáveis ministeriais, fiéis à sua estratégia
de declarar políticas meritórias para depois recuar à última hora,
entregaram de novo à APF o dinheiro dos nossos impostos e, pior, as nossas
escolas (alegadamente cerca de mil).
Dias
antes, involuntariamente, o presidente da APF revelava o grau da aleivosia.
Declarou-se preocupado (ver Público de 15 de Novembro) por a educação sexual
nos Estados Unidos defender «a abstinência e o adiamento das relações
sexuais para depois do casamento». «Esperemos que haja o bom senso para que o
modelo não se alastre em Portugal», afirmou. Na educação sexual, o professor
«não deve emitir uma opinião, mas agir no sentido de debater, porque existem
diferentes posições morais», disse.
Assim
se vê como a APF ataca directamente a imensa beleza e valor da sexualidade
humana, vivida num amor perene. Felizmente que o tal «modelo americano», que a
APF repudia, «alastrou» e alastra há milénios em Portugal e no mundo. Os
pais e educadores conscientes é isso mesmo que ensinam aos adolescentes.
Contra
isso milita a suposta educação sexual imposta pelo ministério.
Ela
não passa de um relativismo demissionário e antiquado, recusado nas sociedades
mais avançadas. Debaixo da aparente neutralidade, defende-se um facilitismo
cobarde, que promove a irresponsabilidade e o deboche com todos os seus males,
que diz combater.
Mas
a APF tem razão: existem aqui diferentes posições morais. Debaixo da sua
influência, dominarão as «posições morais» da pedofilia e da pornografia.
As
últimas semanas manifestaram em Portugal a acção de três associações de
malfeitores. A primeira foi denunciada, mas não está identificada, nem se sabe
se será castigada. A segunda goza de impunidade e beneficiou de audiências
acrescidas. A terceira até foi premiada com dinheiros públicos. Num país em
que a informação é toxicodependência, não admira que os traficantes
prosperem à nossa custa.
João
César das Neves
Diário
de Notícias, 9 de Dezembro de 2002
O CÃO DE PAVLOV
As
recentes declarações de um dirigente da APF a propósito da alegada “falta
de senso” da proposta de abstinência trouxeram a público uma discussão que,
efectivamente, estava latente no seio da sociedade portuguesa e que, mais tarde
ou mais cedo, teria que ser travada, porque toda a problemática e complexidade
do actuar humano reside na liberdade e na decorrente responsabilidade.
Paradoxalmente,
esta consideração não é estranha, ainda que pareça. Para se entender melhor
não é demais atender aquilo que tem sido o “trabalho” da APF ao longo dos
seus 35 anos de existência em Portugal.
O
ideário veiculado por esta sucursal do IPPF em Portugal pode resumir-se a duas
ou três linhas de acção:
*
A maternidade e a natalidade são um mal que deve ser combatido. Apresenta-se
como justificação para o combate a melhoria daquilo que consideram
“qualidade de vida”. Por isso a prática do aborto e da contracepção são
duas prerrogativas indeclináveis.
*
A sexualidade e a procriação devem ser separadas. A primeira é uma questão
de saúde positiva – o bem supremo acima do qual nada se pode aspirar. A
segunda é também uma questão de saúde mas negativa, um mal de que as
mulheres, em particular, se devem libertar, condição de “obscurantismo
medieval”.
*
A homossexualidade e a heterossexualidade têm o mesmo valor e a mesma
expectativa, inclusivamente jurídica. Tanto faz. É tudo igual.
A
grande obra da APF em Portugal, seguramente a mais visível, é o envelhecimento
da população portuguesa e a miserável natalidade a que nos habituámos nos últimos
anos. Ou será que este estado de coisas não tem responsáveis nem culpados?
Que
venham agora dizer que a proposta de abstinência é uma “falta de senso” é
algo lógico e está dentro da sua “missão” de promover a incitação às
experiências sexuais precoces. Com o dinheiro das famílias que não pensam
assim, pois claro. É uma atitude típica de quem sente o tapete a fugir dos pés.
Manda
a lógica que se diga que se a proposta de abstinência é uma “falta de
senso”, então a atitude sensata será a contrária, ou seja, a de incitar os
jovens em idade escolar a experiências sexuais precoces para “todos os
gostos”. Portanto, a única liberdade que eles pretendem é a de seguir os
instintos.
O
ideário da APF pressupõe e cria um determinado “estilo de vida” e uma visão
do ser humano. O projecto de “educação sexual” da APF não é mais do que
o modelo do cão de Pavlov: toca-se a sineta e aí está ele logo a babar-se.
Manuel
Brás
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