O absolutismo das maiorias
Uma série de episódios nacionais muito diversos, desde a
questão dos árbitros ao desafio de Strecht Monteiro e outro clínico à lei do aborto,
passando pelos casos de Proença de Carvalho e de Caldeira, da auto-suspensão da
Comissão de Ética do Parlamento, etc., começam a "italianizar" a sociedade
portuguesa, agudizando um problema que já em 1840 Tocqueville (um dos maiores
doutrinadores democráticos) denunciava como fraqueza da democracia americana e perigo
para qualquer outra: a confusão dos três poderes teorizados por Montesquieu
(legislativo, executivo e judicial), e agora acrescida do "imbróglio" com o
quarto e incontrolável poder dos "media".
É todo o problema de um regime baseado unicamente sobre a força das maiorias, sem
referência a qualquer tipo de padrão incontestado de valores, em que a própria
Constituição não representa senão a expressão de sucessivos acordos maioritários, e
é susceptível das mais variadas interpretações em função das previsíveis ou
pretendidas revisões. Uma sociedade sem rei nem roque e em que, mesmo na hipótese de ter
rei, este não passaria de um mero e irresponsável notário dos factos políticos.
Se a maioria é o critério supremo, ninguém se queixe da crise institucional nem da
nossa sujeição à sua tirania. Porque, nesse caso, como dizia Tocqueville, "os
homens não terão encontrado os meios para uma vida independente; terão descoberto
apenas (...) uma nova fisionomia da servidão" ("Democracia na América",
vol. II, cap.I).
E ninguém se queixe do poder crescente da comunicação social, visto ser ela
precisamente a criadora de "maiorias". A própria legislação resultante destas
e os estatutos "éticos" estabelecidos por consenso não se podem arrogar
verdadeira autoridade, pois em qualquer momento serão postos em causa por uma simples
"sondagem" à população, sem que haja sequer uma instituição neutral que
julgue do seu rigor estatístico.
"Tout se complique", como diria o malogrado Sempé, cujo suicídio pode
simbolizar o da sociedade ocidental. "Assistimos a carreiras judiciais construídas
sobre meios de informação. E carreiras nos meios de informação construídas sobre
acontecimentos judiciais", denunciava há pouco, em Capri, o presidente da Câmara de
deputados, Luciano Violante. "Uma grande parte do mundo político tem a impressão de
que uma pequena parte da magistratura recebe hoje a sua legitimação, não das leis, mas
do consenso. (Mas) se um magistrado baseia a sua acção no consenso dos cidadãos, e não
sobre a lei, esse magistrado é um perigo" ("La Stampa", 27-X-96).
A confusão aumenta em todos os sectores. As declarações recentes de Strecht Monteiro e
de outro médico, confessando pública e ostensivamente haverem infringido os prazos
legais da chamada "interrupção voluntária da gravidez", são tristemente
exemplares. E tudo em nome da necessidade de "acabar com a hipocrisia"! Já
nesta coluna tratei um dia do tema da hipocrisia, que, segundo um velho dito, é "a
homenagem que o vício presta à virtude". Por isso, quem resolve deixá-la confessa
que estava da parte do vício. Renunciar a ela por arrependimento é um acto nobre; sem
contrição nem propósito de emenda, um desaforo e um desafio. Em nome da
"maioria", é claro.
A sua "coragem", como foi saudada a confissão pelos fundamentalistas do aborto,
era, porém, uma "valentia" bem respaldada: que acção penal será possível
contra alguém que confessa ter matado e não diz (nem pode revelar) quem foi a vítima?
Trata-se, pois, tão-somente, de um golpe publicitário para o agravamento da impunidade
abortista.
Já que falei de Tocqueville, vale a pena reproduzir uma nota sua no vol. II da
"Democracia na América", acerca do "Ilimitado Poder da Maioria" (cap.
XV). Estranhava ele não ver na Pensilvânia nenhum negro a votar. Se eles pagavam
impostos, como os brancos, não seria correcto conceder-lhes também o direito de voto?
-"Você insulta-nos, se imagina que os nossos legisladores são capazes de cometer um
tão grave acto de injustiça e de intolerância!" -"Então os negros têm
direito de voto neste estado?" -"Evidentemente!" -"Nesse caso, por que
não vi um único negro esta manhã nas câmaras de voto?" - "Isso não é por
culpa da lei. Os negros possuem um indiscutível direito de voto, mas abstêm-se
voluntariamente de o exercerem". -"Belo gesto de modéstia da parte
deles!", ironizou Tocqueville. -"Bom , a verdade é que eles são inclinados a
votar, mas receiam ser maltratados; neste estado às vezes a lei não consegue manter a
sua autoridade sem o suporte da maioria. E neste caso a maioria possui fortes preconceitos
contra os negros; e os magistrados tornam-se incapazes de protegê-los no exercício dos
seus direitos legais". - "Portanto - concluiu Tocqueville - a maioria reclama,
não só o direito de fazer as leis, mas ainda o de infringir as leis que faz?"
Hugo de Azevedo
Jornal de Notícias, 12 de Nov. de 1996