O referendo
Há quem considere impróprio tratar com humor de um assunto
tão grave como o aborto. Eu sou um deles. Já o mesmo não direi acerca da lei do aborto.
Essa, para ser tratada seriamente, só admite duas perspectivas : dramática e cómica.
Quando o Estado se organiza para matar inocentes, o caso é profundamente dramático;
quando tenta justificar a matança, é de morrer a rir.
No entanto, fazem bem os políticos e os juristas que aceitam o diálogo nessa vertente,
com o intuito de minimizarem os trágicos efeitos da legislação abortista. Devem
precatar-se, porém, do insidioso perigo que correm ao entrarem nesse mundo virtual em que
desaparece do écran a figura principal da polémica: a pessoa do feto.
Na verdade, esse diálogo só se consegue manter dando (virtualmente) por suposto que o
aborto não tem nada a ver com o abortado, mas tão só com a mulher que o concebeu; ou
que o feto vai mudando de natureza conforme o seu desenvolvimento anatómico, ou ao
capricho dos sentimentos da procriadora; ou que é uma questão de "qualidade de
vida", quando é um problema de vida e de morte; ou então que se reduz a um
fenómeno social de ordem quantitativa, numérica, independente da sorte de seres
humanos... Enfim, só é possível o diálogo neste assunto deixando de falar dele,
procurando torneá-lo, focando aspectos secundários, e às vezes puramente imaginários
(como, por exemplo, o dos números impossíveis de comprovar), e esforçando-se por
demonstrar aos abortistas que as leis vigentes e as propostas afinal não resolvem o seu
alegado objectivo de liberdade e bem estar da mulher.
É um tipo de diálogo semelhante ao que se usa habitualmente com terroristas, embora mais
difícil, pois estes costumam ser sensíveis à sorte das crianças, dos velhos e doentes,
e aqui dá-se precisamente o contrário. E, sendo um diálogo muito prolongado, tem
efectivamente o risco de perturbar a razão dos próprios benévolos dialogantes, ao
entrarem num permanente jogo de equívocos, num esforço contínuo de prescindirem do
senso comum, e até de evitarem manifestar as suas mais claras e rotundas convicções.
A proposta de um referendo insere-se neste tipo de diálogo, e talvez seja oportuno e
útil em sentido "negocial". Os seus inconvenientes, porém, são grandes:
consagra como questão opinável a protecção da vida humana e desfaz de uma vez para
sempre o significado óbvio do artigo 24o da Constituição - "1.A vida humana é
inviolável." A partir de um referendo sobre o aborto, considerado compatível com a
Lei Fundamental do país, já nenhum termo constitucional significa literalmente nada, e
pode ser mesmo interpretado em sentido oposto, como é o caso.
Ou seja, a confusão mental que se gera numa discussão destas estende-se imediatamente a
toda a ordem jurídica, transtorna definitivamente o próprio conceito de Estado, cuja
primeira razão de ser consiste na defesa do bem comum (substituído pelo aparente bem de
uma maioria contra o bem mais elementar de milhares de pessoas indefesas), e cuja primeira
função é justamente a protecção do direito à vida. Estabelece legalmente a
distinção entre pessoas que merecem viver e outras que não o merecem, não por graves
crimes cometidos, mas pura e simplesmente por serem incómodos. Deste modo, para muitos a
profissão clínica passa a incluir a aberrante obrigação de matar, sob sanções que
chegam à expulsão dos seus postos de trabalho. O Estado converte-se numa organização
criminosa, e uma organização que não pode ser julgada (excepto pela História), nem
perseguida eficazmente, visto não dispormos de nenhuma alternativa para ele.
É curioso e assustador verificar como muita gente é capaz de enveredar pelo
infanticídio, sem consciência do que está fazendo: partem do princípio que, sendo bem
intencionados, nada de mal podem cometer. A sua "boa intenção" -de aliviarem a
pobre rapariga, de evitarem mais trabalhos familiares, etc.- fá-los esquecer por completo
o preço a pagar por tanta "bondade". Pela "qualidade de vida" de
alguém destroem a vida doutros. A sua "boa intenção" vai ao ponto de
forçarem muitas mulheres a eliminarem os filhos que geraram e as acompanham no ventre. As
cenas que se passam diariamente nos postos de saúde e nas maternidades são de arrepiar.
Mas algo lhes diz que procedem mal. Quando a mulher resiste às pressões brutais a que é
hoje sujeita e consegue levar avante a sua gravidez, e sai pelos corredores com uma
criança encantadora nos braços, vários médicos e enfermeiras se escondem pelas
esquinas, como ratos.
Quanto às outras, de facto, mais do que sanções, do que precisam é consolo,
misericórdia, ânimo e carinho. A "depressão pós-aborto", que os mais
acérrimos abortistas reconhecem como consequência normal do triste acontecimento, nunca
mais se apaga. Mas pode ser um ponto e partida para a salvação de muitas outras
mulheres.
Hugo de Azevedo
Jornal de Notícias, 5 de Nov. de 1996