Uma explicação

Há três semanas propus-me explicar por que razão os abortistas não querem falar do aborto, recusando-se a encarar de frente o que significa a expulsão voluntária de um feto do seio da mulher. Falam de tudo -dos direitos da mulher, da clandestinidade, da hipocrisia, da liberdade, da Igreja, da legislação estrangeira, etc. - menos do aborto. Nem o nome lhe querem ouvir; chamam-lhe uma coisa esquisita e, mesmo essa, preferem dizê-la por iniciais: a "IVG". Acerca do feto não sabem nada, excepto que não se trata de um ser humano; ou, se é um ser humano, não é pessoa. "O que é então?", como dizia a velha canção brasileira: É "uma parte da mulher"! Que parte, não dizem nem querem esclarecer, quando esse é precisamente o ponto fundamental da questão!... Por que motivo lhes repugna até a palavra, e tapam os olhos, escandalizados, quando lhes apresentam fotografias de um corpinho despedaçado ou mesmo simples desenhos esquemáticos do processo de abortamento?

A explicação quase seria desnecessária: repugna-lhes porque o aborto voluntário é, de facto, uma coisa horrível. E quem gosta de pensar numa coisa horrível? Então, por que o defendem e propugnam? Não prometi explicar isso. Cada um o saberá e invocará os seus motivos: políticos, ideológicos, económicos, pessoais... É bom não esquecer que estes (os motivos pessoais) têm cada vez maior peso no debate. Vai-se tornando, realmente, muito difícil tratar do aborto como problema social, ou moral, de modo genérico e sereno, pois cada vez há mais gente nele envolvida pessoalmente, seja por tê-lo praticado, seja por tê-lo apoiado ou promovido de alguma forma. A maior parte, possivelmente, sem má intenção: por desespero, por compaixão, por "modernidade", pela pressão do ambiente, por imposição de grupo, por medo a perder o emprego ou comprometer a carreira... Sempre se pode rectificar, evidentemente, mas é tão difícil! Sobretudo quando não se acredita no perdão, e a pessoa teme sentir-se isolada, criticada, e inclusive perseguida, no caso de reconhecer o mal que fez ou ajudou a cometer. Sem reparar que boa parte da culpa não é sua, mas de todos nós, de uma "cultura de morte", angustiada e desorientada, sem valores nem sentido, desesperançada, toda vivida a curto prazo, e como que embriagada numa "realização" imediata.

Daí que tendamos a justificar-nos, com uma lógica enviesada, mas tremendamente segura de si, sem admitir a mínima dúvida... que podia ser-nos fatal.

O raciocínio é este: se o aborto fosse homicídio, seríamos homicidas; ora, nós não somos homicidas; logo, não é homicídio. Se fosse um crime, não havia cadeias que bastassem; ora é impensável multiplicar as cadeias; logo, não é crime. Se fosse um atentado à vida humana, a lei do aborto contradiria a Constituição; mas a Constituição garante que a vida humana é inviolável; logo, não é um atentado à vida humana. Se essa lei fosse uma barbaridade legal, um recuo brutal na protecção dos direitos fundamentais, a nossa sociedade, em vez de progredir, regredia; ora a nossa sociedade é progressiva por definição; logo, a lei do aborto não é uma barbaridade. Se a legislação abortista fosse iníqua, o mundo de hoje seria horrível; ora o nosso mundo é melhor que todos os passados; portanto, essa legislação não é iníqua. Se o que se pratica "lá fora" não fosse melhor do que o que se pratica em Portugal, não seríamos um país atrasado; mas nós somos atrasados por natureza; logo, devemos seguir o que se usa "lá fora". Se os estrangeiros não fossem mais inteligentes do que nós, seriam parvos; ora parvos somos nós; logo, o que se faz no estrangeiro é que se deve imitar...

Não nos sentindo capazes da heroicidade de rectificar, pessoal e colectivamente, só nos resta um caminho: fugir para a frente - liberalizar ainda mais o aborto e convencer os outros (sobretudo as mulheres) de que nada há mais natural, racional, moderno, moral, legítimo, do que abortar a capricho. Queremos retirar à mulher o seu último direito: o direito à vergonha. Queremos, não que só aborte, mas o faça sem escrúpulos. Além de estimulá-la a essa desgraça, queremos obrigá-la a declarar oficialmente que rejeita o filho consciente e deliberadamente. E, como não o conseguiremos, o aborto clandestino continuará. Aliás, assim o comprovam as estatísticas.

O aborto não é um problema político; é um drama. O referendo não pode resolvê-lo. Sirva ao menos para nosso exame de consciência.

Hugo de Azevedo

Jornal de Notícias, 28 de Abril de 1998