As lendas negras
A propósito do referendo sobre o aborto há quem deseje afastar a Igreja da contenda, sob o pretexto de se tratar de um assunto político, o que significaria que a Igreja nunca deveria intervir nas questões sociais. E quando se responde que eles mesmos se queixam de falta de intervenção da Igreja em outras questões políticas do passado e do presente, logo aproveitam a ocasião para insistir nessa pretensa falta, retirando-lhe autoridade moral para intervir nesta... Preso por ter cão e por não ter. Incongruências. Sofismas. Trapalhices. Medo. E quando acabam argumentos, vão pedradas: Inquisição, Galileu, riquezas... Desconversas.
Um amigo meu sugeriu-me que escrevesse um folheto para esclarecimento rápido das "lendas negras" da Igreja. E respondi-lhe que há muitos. Ainda recentemente Vittorio Messori publicou um bom livro com esse mesmo título. Mas que estou convencido de que essas "lendas negras" constituem uma espécie de muleta ou recurso mental: a gente precisa de arquétipos, de padrões comuns referenciais, sobre o bem e o mal. Em geral não raciocinamos sobre verdades históricas nem sobre princípios abstractos. Recorremos a imagens feitas. Ora, no Ocidente cristão é natural que várias dessas imagens, mitos ou fantasmas, se relacionem com a Igreja, a instituição mais permanente e conhecida, e ela mesma arquétipo da verdade e do bem. Ainda há pouco um cineasta português explicou por que motivo escolheu um sacerdote para figura central do seu filme sobre o drama da toxicodependência: porque assim era muito mais dramático, mesclando-se e contrastando-se ao mesmo tempo a miséria moral com a suprema exigência da vida sacerdotal. Isto é: as "lendas negras" da Igreja partem da sua "lenda branca", não o esqueçamos. Ao acusar-se a Igreja de todas as malfeitorias, parte-se da convicção assente e indiscutível de que ela é o protótipo da perfeição. É paradoxal, mas é assim. Os mitos e os fantasmas não obedecem à lógica, nem à história, nem à ciência. Têm vida própria e correspondem a uma necessidade de quadros imagéticos comuns. Ao mesmo tempo que se brandem contra ela essas e outras bandeiras, muitas das suas figuras e instituições permanecem como símbolos contrários: Francisco de Assis, Madre Teresa, inúmeros santos, missionários e mártires, hospitais, Universidades, monumentos...
A propósito de "riquezas", por exemplo: ao mesmo tempo que a Igreja é acusada de "luxos", os seus monumentos são considerados riqueza universal (e nacional) e é acusada igualmente de os desleixar, ou de não ter capacidade económica para a sua conservação. Acusa-se de falta de sentido artístico a promotora da imensa maioria de obras de arte do país e da Europa... Acusa-se de obscurantista a principal promotora da cultura ocidental. Galileu, cuja obra só se explica num ambiente de apaixonada busca científica (em que primavam os eclesiásticos) e que foi sempre católico, tornou-se o símbolo do "obscurantismo" da Igreja...
Como dizia, as tais lendas não são racionais. Nenhuma lenda o é. E por isso, é quase inútil esclarecê-las. As pessoas geralmente não querem saber a verdade, sempre complexa e difícil de captar no terreno histórico; querem imagens bem definidas que lhes sirvam de linguagem comum. Aos judeus ninguém lhes tira a fama de cruéis usurários nem, simultaneamente, de sagradas e inocentes vítimas de todas as perseguições. A "América" é o símbolo do progresso e da liberdade, assim como do capitalismo selvagem e do imperialismo... As "lendas negras" acompanham todas as nações, instituições e pessoas. São a sua sombra, a sua "contra-informação".
Isto não significa que as lendas negras sejam sempre falsas. As sombras não são puras ilusões. Simplesmente, podem esboçar correctamente ou deformar até à monstruosidade os corpos que as projectam. No caso de Galileu, por exemplo, os seus inimigos agigantaram-se até cobrir o quadro inteiro, os seus amigos esfiaparam-se, e ele ficou estilizado e rodeado de auréolas... No quadro da Inquisição desapareceram os seus principais responsáveis e executores -reis e governos-, os mortos multiplicaram-se em dança macabra no contra-luz das fogueiras, esqueceu-se que ela perseguiu a própria Igreja...
A História é tão complicada! As lendas
simplificam-na, sem dúvida. Tornam-na "manejável". Só é pena que muitos
intelectuais, acreditem piamente em sombras chinesas.
Hugo de Azevedo
Jornal de Notícias, 3 de Março de 1998