Vamos por partes
"Vamos por partes...", disse o
esquartejador. E assim, metodicamente, se debruçarão os deputados sobre a lei do aborto:
- Até que idade podem matar-se criancinhas?
- Em que circunstâncias é recomendável matá-las?
- Como se distingue o infanticídio legal do clandestino? Por requisitos administrativos
ou pelo processo de execução?
- Quem pode matá-las para que o infanticídio seja legal?
- Por que razão não se admite um advogado de defesa?
- Quem pode ser obrigado a colaborar na execução?
- Com que cuidados higiénicos? Seguindo que métodos?
- Quais os trâmites burocráticos?
- Quais os subsídios?
- E no caso de haver gémeos e se desejar só um?
- E se a mãe quer, e o pai não?
- E se a mãe prefere a craniotomia do pimpolho e o pai a asfixia?
- A quem pertence a carcaça? Que fazer dela?
- E se um quer guardar os restos, e o outro dá-los ao cão?
- Etc.
Enfim, um trabalho insano para os senhores deputados. Mas para isso é que são pagos:
para nos defenderem de intrusos, controlando a imigração de pessoas, suínos e fetos.
Não pensem lá as criancinhas que, pelo facto de serem inocentes e provirem do gozo
paterno, têm direito a incomodar-nos. O ventre é um sítio ambíguo, donde tanto pode
sair gente como urina, com igual expectativa jurídica. A triagem faz-se à saída.
Além disso, por que supor que a vida é um direito? Direito a quê? A esta choldra?
Tenham juízo e desapareçam daqui quanto antes, que só lhes fazemos um favor! Acabariam
por dar em doidos, como nós...
- "Rest in pieces!", disse o esquartejador.
PS - Oh, que falta de respeito por tão digno Parlamento e que deselegância falar de
carnes a este propósito! Torna a política sórdida, não acham? Mantenhamos as boas
maneiras... ao menos. Não se deve fazer humor negro com tema tão encarnado.
Hugo de Azevedo
Jornal de Notícias, 3 de Fevereiro de 1998