A HIPOCRISIA NO ABORTO
Anda por aí um raciocínio extraordinário: "existem muitos abortos clandestinos; a sociedade, hipocritamente, ignora-os e a lei castiga quem os pratica, por isso, deve-se despenalizar o aborto". Se a sociedade pratica, devemos admitir a prática e legalizá-la. Parece uma atitude democrática, usando o sufrágio social para definir os valores. Desenvolvendo a ideia, devemos exigir a despenalização imediata da fuga ao fisco. Trata-se de uma prática bem mais comum que o aborto clandestino . A sociedade também ignora, hipocritamente, a evasão fiscal, e a lei castiga os infractores. Um caso nítido para a despenalização! A ideia pode-se estender a muitas outras situações, do roubo à violência, da injúria à burla. Numa delas o paralelismo é tão imediato que exige aplicação directa: o trabalho infantil. É uma prática comum na sociedade portuguesa, realizada por motivos de ordem económica, tal como alegadamente muitos abortos, e que a mesma ignora e a lei penaliza. Logo, a atitude correcta seria a de despenalizar imediatamente o trabalho infantil. E até, quem sabe, subsidiar as empresas que empregam crianças, tal como se acha que se deviam apoiar as instituições que praticam abortos. A lógica é a mesma. Se a sociedade faz, a lei deve permitir!
É extraordinário que quem luta contra o trabalho infantil, a exploração ou a violência sobre menores queira tornar legal que os irmãozinhos dessas crianças possam ser mortos antes mesmo de nascerem!
"Interromper a gravidez" é impedir que uma pessoa viva. E, em linguagem de gente, "impedir que viva" é matar. É por isso, e não por qualquer hipocrisia, que a sociedade condena e penaliza o acto: o aborto é crime de morte. Um crime tanto mais horrendo porquanto é praticado sobre quem é completamente inocente, não se pode defender, e tem toda a vida à sua frente. Que seja permitido praticar este acto legalmente é um recuo de milénios na civilização.
Dez anos após a lei assassina que hoje nos rege, a discussão agora já nem trata de quando começa a vida. Assume-se que se dá a morte, mas invocam-se conveniências para a praticar. Perdeu-se a vergonha. E a lógica, pois os argumentos são "pérolas de coerência": Os médicos afirmam a existência de malformações que a ciência só consegue detectar na fase mais avançada da gravidez, razão pela qual se deveria estender o prazo do aborto legal. Ora, algumas só são detectáveis depois do parto e até aos 5, 10 ou 20 anos de idade. Segundo essa lógica, aliás retirada da "ética" nazi, devia ser admissível eliminar esses "infra-humanos" quando a ciência os detecta, certamente para promover a "pureza da raça". Mas neste argumento existe uma perversidade ainda maior porque a questão é posta do ponto de vista do médico. Com que cara ficará ele se avisar os pais de que o filho é malformado, 2 ou 3 semanas depois do prazo do aborto legal? Nessa altura já não lhes será possível usar essa "solução" para o problema! O argumento científico para a extensão da lei é apresentado para resolver um problema sindical da classe médica. Mate-se a criança, mas que o médico não perca a face perante o cliente!
No caso da violação, os mesmos que (muito bem) nunca aceitariam a pena de morte para o violador aceitam que o filho, sem qualquer culpa no drama, seja punido com a morte.
E a novidade final neste segundo ataque contra a vida dos bebés antes de nascerem vem do facto de que, desta vez, quem tomou a liderança da discussão foram os autores do aborto, ou seja, aqueles que fazem dinheiro com os dramas dos outros.
O aborto é um terrível drama humano para quem o sofre. As mães e os pais que, em condições-limite, o cometem, viverão toda a vida com a morte daquele filho que nunca chegaram a ter. O sofrimento envolvido é tremendo e merece toda a nossa compreensão. Esse sofrimento não diminui, antes aumenta, a gravidade do crime.
João César das Neves
(Síntese-adaptação do artigo no DN, 11.11.1996)