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1. A
Assembleia
da República
decidiu
sujeitar,
mais uma
vez, a
referendo
popular o
alargamento
das
condições
legais para
a
interrupção
voluntária
da gravidez,
acto
vulgarmente
designado
por aborto
voluntário.
Esta
proposta já
foi
rejeitada em
referendo
anterior,
embora a
percentagem
de opiniões
expressas
não tivesse
sido
suficiente
para tornar
a escolha do
eleitorado
constitucionalmente
irreversível,
o que foi
aproveitado
pelos
defensores
do
alargamento
legal do
aborto
voluntário.
Nós, Bispos
Católicos,
sentimos
perplexidade
acerca desta
situação.
Antes de
mais porque
acreditamos,
como o fez a
Igreja desde
os primeiros
séculos, que
a vida
humana, com
toda a sua
dignidade,
existe desde
o primeiro
momento da
concepção.
Porque
consideramos
a vida
humana um
valor
absoluto, a
defender e a
promover em
todas as
circunstâncias,
achamos que
ela não é
referendável
e que
nenhuma lei
permissiva
respeita os
valores
éticos
fundamentais
acerca da
Vida, o que
se aplica
também à Lei
já aprovada.
Uma
hipotética
vitória do
“não” no
próximo
referendo
não
significa
a nossa
concordância
com a Lei
vigente.
2. Para os
fiéis
católicos o
aborto
provocado é
um pecado
grave porque
é uma
violação do
5º
Mandamento
da Lei de
Deus, “não
matarás”, e
é-o mesmo
quando
legalmente
permitido.
Mas este
mandamento
limita-se a
exprimir um
valor da lei
natural,
fundamento
de uma ética
universal. O
aborto não
é, pois, uma
questão
exclusivamente
da moral
religiosa;
ele agride
valores
universais
de respeito
pela vida.
Para os
crentes
acresce o
facto de, na
Sua Lei,
Deus ter
confirmado
que esse
valor
universal é
Sua vontade.
Não podemos,
pois, deixar
de dizer aos
fiéis
católicos
que devem
votar “não”
e ajudar a
esclarecer
outras
pessoas
sobre a
dignidade da
vida humana,
desde o seu
primeiro
momento. O
período de
debate e
esclarecimento
que antecede
o referendo
não é uma
qualquer
campanha
política,
mas sim um
período de
esclarecimento
das
consciências.
A escolha no
dia do
referendo é
uma opção de
consciência,
que não deve
ser
influenciada
por
políticas e
correntes de
opinião.
Nós, os
Bispos, não
entramos em
campanhas de
tipo
político,
mas não
podemos
deixar de
contribuir
para o
esclarecimento
das
consciências.
Pensamos
particularmente
nos jovens,
muitos dos
quais votam
pela
primeira vez
e para quem
a vida é uma
paixão e tem
de ser uma
descoberta.
Assim
enunciamos,
de modo
simples, as
razões para
votar “não”
e escolher a
Vida:
1ª. O ser
humano está
todo
presente
desde o
início da
vida, quando
ela é apenas
embrião. E
esta é hoje
uma certeza
confirmada
pela
Ciência:
todas as
características
e
potencialidades
do ser
humano estão
presentes no
embrião. A
vida é, a
partir desse
momento, um
processo de
desenvolvimento
e realização
progressiva,
que só
acabará na
morte
natural. O
aborto
provocado,
sejam quais
forem as
razões que
levam a ele,
é sempre uma
violência
injusta
contra um
ser humano,
que nenhuma
razão
justifica
eticamente.
2ª. A
legalização
não é o
caminho
adequado
para
resolver o
drama do
“aborto
clandestino”,
que
acrescenta
aos traumas
espirituais
no coração
da
mulher-mãe
que
interrompe a
sua
gravidez, os
riscos de
saúde
inerentes à
precariedade
das
situações em
que consuma
esse acto.
Não somos
insensíveis
a esse
drama; na
confidencialidade
do nosso
ministério
conhecemos-lhe
dimensões
que mais
ninguém
conhece. A
luta contra
este drama
social deve
empenhar
todos e
passa por um
planeamento
equilibrado
da
fecundidade,
por um apoio
decisivo às
mulheres
para quem a
maternidade
é difícil,
pela
dissuasão de
todos os que
intervêm
lateralmente
no processo,
frequentemente
com meros
fins
lucrativos.
3ª. Não se
trata de uma
mera “despenalização”,
mas sim de
uma
“liberalização
legalizada”,
pois cria-se
um direito
cívico, de
recurso às
instituições
públicas de
saúde,
preparadas
para
defender a
vida e pagas
com dinheiro
de todos os
cidadãos.
“Penalizar”
ou
“despenalizar”
o aborto
clandestino,
é uma
questão de
Direito
Penal. Nunca
fizemos
disso uma
prioridade
na nossa
defesa da
vida, porque
pensamos que
as mulheres
que passam
por essa
provação
precisam
mais de um
tratamento
social do
que penal.
Elas
precisam de
ser ajudadas
e não
condenadas;
foi a
atitude de
Jesus
perante a
mulher
surpreendida
em
adultério:
“alguém te
condenou?...
Eu também
não te
condeno. Vai
e doravante
não tornes a
pecar”.
Mas nem
todas as
mulheres que
abortam
estão nas
mesmas
circunstâncias
e há outros
intervenientes
no aborto
que merecem
ser
julgados. É
que tirar a
vida a um
ser humano
é, em si
mesmo,
criminoso.
4ª. O aborto
não é um
direito da
mulher.
Ninguém tem
direito de
decidir se
um ser
humano vive
ou não vive,
mesmo que
seja a mãe
que o
acolheu no
seu ventre.
A mulher tem
o direito de
decidir se
concebe ou
não. Mas
desde que
uma vida foi
gerada no
seu seio, é
outro ser
humano, em
relação ao
qual tem
particular
obrigação de
o proteger e
defender.
5ª. O aborto
não é uma
questão
política,
mas de
direitos
fundamentais.
O respeito
pela vida é
o principal
fundamento
da ética, e
está
profundamente
impresso na
nossa
cultura. É
função das
leis
promoverem a
prática
desse
respeito
pela vida. A
lei sobre a
qual os
portugueses
vão ser
consultados
em
referendo, a
ser aprovada,
significa a
degenerescência
da própria
lei. Seria
mais um caso
em que
aquilo que é
legal não é
moral.
3. Pedimos a
todos os
fiéis
católicos e
a quantos
partilham
connosco
esta visão
da vida, que
se empenhem
neste
esclarecimento
das
consciências.
Façam-no com
serenidade,
com respeito
e com um
grande amor
à vida. E
encorajamos
as pessoas e
instituições
que já se
dedicam
generosamente
às mães em
dificuldade
e às
próprias
crianças que
conseguiram
nascer.
Lisboa, 19
de Outubro
de 2006 |