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Por decisão soberana das
nossas autoridades
iremos nos próximos
meses acumular às nossas
muitas preocupações a
discussão da questão do
aborto. Trata-se de um
tema polémico em que a
sociedade está
dolorosamente dividida,
com razões fortes dos
dois lados. Mas, ao
mesmo tempo, devemos
lembrar que esta
discussão de valores
básicos e vitais
constitui uma longa
tradição na civilização
moderna. Embora neste
caso com duas diferenças
importantes.
Os últimos séculos do
mundo ocidental incluem
uma sequência de debates
deste tipo. Há 200 anos
discutiam-se os
privilégios da nobreza e
a igualdade perante a
lei; há 150 lutava-se
contra a escravatura e a
pena de morte; há 100
anos debatiam-se os
direitos das mulheres e
a democracia; há 50 a
igualdade das minorias
étnicas, dos judeus aos
negros. Muitas vezes
estes assuntos
arrastaram-se, pelo que
todas as gerações
recentes se encontraram
divididas por temas
fundamentais. A
discussão do aborto e
outras conexas -
eutanásia, droga,
casamento, família -
toma hoje o lugar de
velhas lutas.
Não faltam os que,
precisamente por isso,
consideram o combate
pela liberalização do
aborto como o próximo
passo na longa e
majestosa epopeia de
afirmação dos direitos
individuais. Esses
consideram os que se lhe
opõem como relíquias
obscurantistas e
retrógradas que serão
pulverizadas pela
simples passagem do
tempo. Mas a realidade é
precisamente a inversa.
Os termos da discussão
são claros. De um lado
temos os que defendem um
princípio fundamental.
Antes era a igualdade de
todos os cidadãos, o
direito à vida dos
condenados ou à
liberdade dos escravos.
Hoje é o direito à vida
do embrião. Confrontando
esta posição simples e
fundamental, o outro
lado apresenta uma
enorme quantidade de
interesses particulares.
Os antigos absolutistas,
esclavagistas, racistas
e totalitários diziam
proteger velhas
tradições e privilégios,
benefícios económicos
concretos, vantagens
comunitárias
específicas. Contra
esses, a luta pelos
direitos fundamentais
sempre se baseou na tese
de que a conveniência
sócio-económica de
alguns não podia
justificar a angústia,
escravização ou morte de
outras pessoas. Foi
sempre assim que se
combateu a opressão e
discriminação.
Hoje, do mesmo modo,
alguns invocam a
conveniência
sócio-económica para
liberalizar o aborto.
Esses falam de múltiplos
temas e aspectos, dos
julgamentos de mulheres
às práticas
clandestinas, passando
pela desigualdade social
Têm razão em muito do
que dizem. Mas contra
eles está apenas a
superioridade do direito
fundamental à vida. Os
abortistas, ao negarem o
igual estatuto humano ao
embrião, fazem
precisamente o mesmo que
os antigos racistas e
esclavagistas faziam às
suas vítimas. Pelo
contrário quem defende a
vida dos mais fracos,
daqueles que não se
podem defender nem têm
voz na sociedade, são os
que querem manter a
proibição do aborto.
Existem, porém, duas
enormes diferenças neste
debate que merecem
destaque. A primeira é
que desta vez a
discussão pretende ser
feita por vias
legaisAntigamente o
combate pela liberdade e
igualdade desenrolava-se
na sociedade, mas a luta
pelo aborto parece
fazer-se pela convocação
de um referendo. Todos
fingem que uma votação
vai decidir a questão.
Depois, como se viu há
oito anos, nada fica
resolvido, porque o
problema não é
regulamentar, é humano.
Mas as autoridades
insistem na mesma via,
convencidas ingenuamente
de que assim se arruma o
caso.
A segunda diferença é
que antigamente quem
lutava pelos direitos
básicos desafiava a lei
estabelecida. Eram os
códigos milenares que
estabeleciam os
interesses da
aristocracia, a abjecção
dos escravos, a
humilhação da mulher e
das minorias étnicas. E
foi a luta social que
mudou esses pergaminhos.
Mas, desta vez, a lei
nacional prescreve há
muito tempo o direito à
vida de cada ser humano
desde a sua concepção.
Assim, a defesa do
direito fundamental
faz-se dentro do quadro
legal, e são os que o
querem atacar, por
razões de conveniência
sócio-económica, que
desejam alterar a lei.
Este último ponto é
muito significativo. Ele
mostra como, ao
contrário do que se
afirma, este confronto
não representa um passo
na majestosa luta pela
afirmação dos direitos
individuais. O que está
em causa não é alargar
os direitos, mas
reduzi-los. Liberalizar
o aborto, mesmo por
razões compreensíveis,
destrói sempre um valor
muito superior. A luta é
pois para evitar um
primeiro recuo na
trajectória
civilizacional dos
direitos humanos. |