"Verdade e Consequências"

por Gonçalo Maleitas Corrêa

Diário de Notícias, Dezembro 13, 2006

 

A Plataforma NÃO OBRIGADA, apresentada há uma semana e que no sábado pôs na rua o seu primeiro cartaz, prometeu para o referendo ao aborto uma campanha moderna e informativa, preocupada com a mulher e com o bebé, que contribua para um debate sério do problema do aborto e proponha soluções para o enfrentar. 

O primeiro sinal do cumprimento desta promessa foi partir da realidade do terreno em vez de preconceitos ou de ideias feitas. Para isso contratou com o Centro de Sondagens da Universidade Católica a realização de uma grande sondagem de opinião sobre as questões da vida e do aborto. Tratou-se da maior sondagem até hoje realizada sobre o assunto: 1880 entrevistas pessoais, 36 locais de amostragem, cobertura de todo o território de Portugal continental e 4 dias de trabalho de campo. 

Foi esta mesma sondagem que, num artigo de Fernanda Câncio publicado no dia 8 nas páginas deste jornal, foi reduzida a “três singelas perguntas” e acusada de ser um “prodígio de manipulação”. É sabido que esta jornalista é uma activista militante do aborto livre em Portugal, mas essa qualidade não a pode influenciar na leitura de uma sondagem objectiva, feita por um centro de sondagens de referência em Portugal e cuja ficha técnica está acessível no site www.nao-obrigada.org. Isto para não falar, se dúvidas houvesse, da possibilidade de consulta à assessoria de imprensa da Plataforma. Mas, não. Preferiu acusar, sem investigar. 

A Plataforma divulgou três perguntas e esclareceu que eram apenas “alguns resultados” da sondagem. Outros há que merecem relevo. Por exemplo, que os portugueses sabem que o coração do bebé já bate logo nas primeiras semanas de gestação ou que a liberalização do aborto vai aumentar muito o número de abortos praticados.

A sondagem incluía uma pergunta exclusivamente dirigida às mulheres com o seguinte teor: «Se estivesse grávida e atravessasse um momento de dificuldade ou dúvida sobre a sua gravidez ou maternidade, desejaria:». A esta questão três quartos das mulheres inquiridas (75,6%) responderam: «Ser ajudada e apoiada a manter a gravidez e poder ter o bebé» – contra 13,5% e 10,2% que preferiam que o aborto fosse livre ou ser encaminhadas para uma clínica para abortar, respectivamente. Apesar de ser facultativa, àquela pergunta responderam todas as inquiridas e, entre aborto livre e ser ajudada, a esmagadora maioria opta pela ajuda. Esta é a verdade. A consequência deve ser o apoio à gravidez e não o financiamento do aborto pelo Serviço Nacional de Saúde com os impostos dos contribuintes 

Estas linhas não são uma resposta a um artigo; são antes um lembrete. As mulheres portuguesas não querem a liberalização total do aborto, porque recusam as consequências de uma lei que a consagre. Na Plataforma NÃO OBRIGADA está muita gente que todos os dias, em múltiplas estruturas de apoio à gravidez e à maternidade, trabalha na solução. Este trabalho vem sendo feito desde há longos anos e com particular vigor desde 1998. A convicção da vitória do “Não” no próximo referendo é um estímulo para o continuar. 

* Membro da Plataforma NÃO OBRIGADA

    

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