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Ao contrário do consenso
que foi reivindicado
pela campanha do sim,
penso que a sociedade
portuguesa se encontra
muito dividida, como
aliás se verificou nos
dois referendos e no
Acórdão Constitucional
mais recente. Se algum
consenso há, é que o
aborto é sempre um mal.
Nos debates públicos
também foi consensual
que ninguém deseja uma
punição da mulher que
possa ser cruel; mas não
foi consensual a
despenalização, pura e
simples, do aborto. Isso
não foi.
A meu ver, a questão foi
demagogicamente
distorcida,
demonstrando-se mais uma
vez as fragilidades do
instituto do referendo,
o que não justiça a
negação da sua
legitimidade e
vantagens. Os adeptos do
sim ao aborto livre
conseguiram que o
argumentário da campanha
se centrasse nas
desgraças da mulher que
aborta, causadas pela
clandestinidade e
acrescentadas pela
penalização legal.
Assim, em vez de se
discutir o crime de
aborto (isto é, o seu
desvalor) e, em
consequência dele, a
melhor adequação da sua
prevenção e repressão (e
há mil coisas que se
podem fazer para apoiar
e tratar a mulher
grávida sem por isso
descriminalizar o
aborto), a argumentação
centrou-se na crítica
abstracta à instauração
de processo judicial e à
eventual aplicação de
pena à mulher que aborta
voluntariamente,
afirmando uma sempre
injusta vitimização da
autora do crime. Ora,
não se pode afirmar que
a mulher que aborta o
faz sempre por
justificadas razões; e
isso prova-se até com os
casos (excepcionais) de
mães que maltratam e até
matam os filhos, depois
de nascidos.
Desta forma, por mérito
de uma hábil centração
psicológica dos debates
nos sofrimentos da mãe,
dignos de compaixão, a
morte violenta do filho
inocente, provocada por
decisão arbitrária e
insindicável da mãe, por
métodos por vezes
bárbaros, ficou na
sombra e no olvido. E a
prova disto é que foi
tabu falar e, mais
ainda, descrever ou
mostrar imagens do
aborto. Como explicar?
Penso que na raiz da
enorme polémica entre o
sim e o não esteve uma
matricial divergência de
pré-compreensões acerca
do homem, da vida e do
mundo. É uma velha
clivagem; mas porque, na
era actual da
civilização ocidental,
ela se tem manifestado
com maior evidência a
propósito das questões
da vida, já foi
reconduzida à
alternativa entre “uma
cultura de vida e uma
cultura de morte”. Sem
dúvida, esta expressão é
caricatural e, por isso
mesmo, sugestiva. Por
mim, prefiro afirmar
que, na sua raiz mais
profunda, a alternativa
das opções culturais é
entre: a racionalidade e
suas consequências ainda
que incómodas; ou a
comodidade e suas
consequências ainda que
irracionais. Ora, a
tendência mediática e
ideológica do nosso
tempo progride em
direcção à preferência
da comodidade, ainda que
irracional.
“A razão débil”; “a
razão indolente”; “a
razão cómoda”, ou
comodista; estas e
outras expressões
começam hoje a circular
pelos escritos dos
filósofos e dos
cientistas sociais,
sempre para apontar o
mesmo fenómeno detectado
como característica
dominante da cultura dos
nossos dias: a
desfalecência ou
descrença da razão, e
desde logo da razão
ética. Não é por acaso,
e apenas por causa da
“guerra santa”, que o
Papa Ratzinger abriu, ou
reabriu, a frente
decisiva de defesa da
razão.
A indiferença pela morte
do filho gerado
chocou-me nos defensores
do sim; que, pelo
contrário, revelaram uma
sensibilidade máxima,
exclusiva e obsessiva,
pelos incómodos ou
sofrimentos da mãe que
aborta, e sobretudo pela
alegada violência da
perda da sua privacidade
quando levada a juízo.
Num tempo em que por mil
razões se tem comprimido
o direito de
privacidade, implícita
estava pois a ideia de
que a morte violenta do
filho abortado, além de
ser legítima, ainda por
cima é assunto privado,
onde o direito não deve
entrar. Postulou-se que
o filho, quando
condenado à morte pela
mãe, não pode ter nem
defensor nem testemunha.
Tal indiferença assumiu
a sua formulação mais
extrema na tese em que a
vida do filho, para ser
digna de protecção, deve
ser desejada. Não é
possível ir mais longe
na desvalorização da
vida humana. O que aliás
foi ilustrado, com a
ironia do insulto, aos
filhos indesejados, de
filhos do Código Penal –
fórmula esta
pós-modernista de muito
mau gosto.
Com esta dessacralização
da vida, com esta
violação da vida,
abre-se uma porta que
não é possível fechar
para outras formas de
violação, que começam a
alinhar-se. Perdesse o
único critério
substantivo, que é o da
inviolabilidade.
Restarão apenas
arbitrários e ocasionais
limites formais – como o
das dez semanas.
Quem resiste? Sobretudo
os crentes, ouvi dizer.
Os adeptos do sim
disseram muitas vezes
que na questão do aborto
os católicos não deviam
pretender impor uma
moral confessional num
Estado laico. São
portanto os não crentes
a identificar a fé
religiosa como
inspiração da cultura de
defesa intransigente da
vida. Com essa alegação,
pretendem ilegalizar a
cidadania dessa cultura.
Porém, sem razão. Foram
os católicos, inclusive
os bispos, a dizer que a
defesa da vida vale por
si mesma, no plano da
laicidade, com plena
autonomia racional
cultural; e que é neste
plano que os católicos
intervêm.
A propósito, recordo
que, numa entrevista que
ficou célebre, o famoso
filósofo e jurista
italiano Norberto Bobbio,
laico e liberal
progressista, expoente
da luta pelos direitos
humanos, pela democracia
e pela paz, afirmou que
“o direito do nascituro
pode ser respeitado
somente deixando-o
nascer”, acrescentando:
“surpreendo-me que os
laicos deixem aos
crentes a honra de
afirmar que não se deve
matar”.
Não penso que os crentes
desejem este monopólio;
mas não desdenham a
honra. |