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Sou mulher
e, segundo alguns, parece que
devia estar contente porque
querem oferecer-me o aborto
livre e gratuito; dizem que é
para me dar mais um direito. Mas
não estou contente, estou
triste: entristece-me
profundamente que ponham sequer
esta hipótese. Não quero o
direito de poder matar um filho
em momento algum da sua vida.
Mais, sei que mesmo que a lei um
dia o declare, preto no branco,
esse direito continuará sempre a
ser uma mentira. Ninguém tem o
direito de destruir uma vida, e
ninguém pode dar esse direito.
Fomos dos primeiros a abolir a
pena de morte. Que pena me faz
ver este meu Portugal a regredir
a esses tempos, em que se
considerava que um ser humano
tinha poder de vida ou de morte
sobre outro! Dizem também que eu
devia estar contente porque
assim me querem proteger. E eu
pergunto: proteger de quê?
Proteger de ser mãe?! Será a
maternidade uma doença assim tão
terrível?
Sou mulher e vejo-me tão citada,
tão implicada, tão no centro
desta discussão, que decidi
informar-me melhor. Talvez eu
não estivesse a ver bem as
coisas… Afinal, parece que
querem proteger-me da cadeia.
Que eu queira abortar parece que
é considerado dado adquirido.
Que eu o faça ilegalmente,
também. Portanto, tudo se resume
às consequências do acto, não às
causas nem sequer ao acto em si
mesmo.
Infelizmente, eu sei que há quem
o faça, e acredito que, na
enorme maioria dos casos, não é
simplesmente para mostrar "que
se manda na própria barriga".
Dizem os estudos sérios, dos
países onde o aborto já é livre,
que não são as mulheres pobres
quem mais aborta, parece que são
as jovens com pouco mais de 20
anos, que investiram a vida
inteira nos estudos e na
carreira, e que neste mundo de
competição desenfreada, onde se
tornou tão difícil ser mãe, vêem
os seus planos desmoronar-
se e pensam que por ter aquele
filho vão desperdiçar os seus
esforços e estragar a vida.
Sejam quais forem as razões, são
sempre mulheres que enfrentam um
drama de medo e solidão. Eu
também não as quero na cadeia,
concluí.
Mas depois fui informar-me
melhor. Afinal há mais de 30
anos que não há nenhuma mulher
na cadeia por ter abortado. E
nos últimos 8 anos só 4 ou 5
foram julgadas (aquelas pobres 4
ou 5 que os que dizem que querem
defender as mulheres puseram na
televisão, desvendando o que
podia e devia ter ficado
anónimo) Coitadas, queriam tanto
esconder aquela gravidez (e
certamente ainda mais aquele
triste
acto)… mas os seus
defensores não deixaram. Ainda
por cima, todas tinham abortado
depois das 10 semanas. Esta lei
do referendo nada mudaria para
elas.
Também soube que deputados de
vários partidos e associações de
defesa da Vida propuseram mudar
as regras -
não a lei - mas as regras do
processo, para que as mulheres
fossem à partida desculpadas e
nem sequer fossem a Tribunal.
Claro que isto não implicava
oferecer a todas as mulheres,
ricas ou pobres, com ou sem
problemas, abortos gratuitos nos
hospitais, também não impedia o
julgamento dos médicos e
parteiras que enriquecem à custa
da vida dos filhos e da
destruição interior das mães,
não protegeria quem força a
mulher a dar este passo, e muito
menos implicaria a abertura de
clínicas privadas. Apeteceu-me
muito perguntar: mas afinal
querem proteger quem? A mulher
não é de certeza.
Ao procurar saber mais, descobri
que mais de metade das mulheres
que abortam nos países onde é
legal, dizem que o fizeram
obrigadas. Se ao menos fosse
proibido podiam ter dito que não
ao marido, ao namorado, ao pai,
ao patrão, mas assim, sem nada a
protegê-las, entraram no
hospital e saíram de lá
diferentes. Para sempre.
Tenho uma grande amiga que
abortou quando era nova, tinha
20 anos e sentia-se incapaz de
ser mãe. Pensou que assim ia
esquecer rapidamente aquela
gravidez tão fora de horas.
"Correu tudo bem", o bebé foi
desfeito por mãos muito
profissionais, não teve
problemas de saúde, mas as
feridas de que ninguém lhe falou
nunca mais sararam. Aos 40 anos
era alcoólica, estava sozinha,
nunca mais teve outro filho...
Ela é que precisava de ter sido
protegida. Fico feliz por saber
que agora já há muitas
associações que ajudam mulheres
nestas circunstâncias. Que
protegem realmente, ajudando a
enfrentar a realidade dum filho
que já existe e que mesmo não
programado se pode aprender a
amar.
Fico triste, terrivelmente
triste, quando dizem que me
querem dar o direito ao aborto
livre e gratuito, e mais ainda
quando se atrevem a dizer que é
para me proteger. |