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1. O facto
de a Igreja
Católica ser
contra o
aborto
voluntário,
em todas as
circunstâncias,
e devido à
influência
da doutrina
da Igreja na
definição
dos
parâmetros
de
moralidade,
leva a
opinião
pública a
considerar
que esta
disputa
entre o
"sim" e o
"não" é um
confronto
entre a
Igreja
Católica e o
resto da
sociedade. A
esta
perspectiva
dicotómica
não escapam
mesmo alguns
defensores
do "não".
Ora não me
parece que
esta seja a
maneira mais
correcta de
situar o
problema.
Uma lei que
permita a
destruição
da vida
intra-uterina
vai contra
valores
chave da
nossa
civilização.
A defesa e a
protecção da
vida são um
valor
fundamental
na estrutura
de uma
sociedade
justa, onde
o valor da
vida humana
é o
principal
fundamento
da dimensão
ética que
deve
inspirar
toda a
convivência
em
sociedade.
Milénios de
história e
de evolução
cultural, em
que as
religiões
exerceram um
papel
significativo,
levaram a
humanidade a
reconhecer,
de forma
progressiva,
valores
universais
humanos, que
não se
impõem à
sociedade
por serem
religiosos,
mas por
serem dados
adquiridos
da evolução
cultural, na
qual as
religiões
exerceram a
sua
influência
específica.
O
judeo-cristianismo,
logo no
decálogo da
Lei de
Moisés,
confirmou
estes
valores
universais.
No que à
vida diz
respeito,
exprimiu
esse valor
cultural no
preceito
"não
matarás". No
cristianismo,
este 5º
mandamento
da Lei de
Deus,
aprofunda-se
com a
exigência do
amor
fraterno.
Esse é o
principal
mandamento
da Lei: o
amor de todo
o seu
semelhante.
Como diz São
João, "se
alguém diz
que ama a
Deus e
rejeita o
seu irmão, é
mentiroso"
(1Jo. 4,20).
Na moral
católica, o
valor
universal do
respeito
pela vida,
ganha a
beleza e a
exigência da
caridade.
Uma lei que
permita a
destruição
da vida
humana é um
atropelo de
civilização,
sinal de
desvio
preocupante
no conjunto
de valores
éticos que
são a base
das
sociedades
humanistas,
tão
arduamente
construídas
ao longo de
séculos. Os
autores e
defensores
da proposta
legislativa
que vai ser
referendada
em 11 de
Fevereiro
próximo
encontram
justificação
para esta
deriva
cultural na
possível
dúvida sobre
o momento em
que começa a
vida humana
no seio
materno. É
uma dúvida
chocante, no
actual
estado dos
conhecimentos
científicos
sobre a vida
intra-uterina.
2. Neste
quadro
civilizacional,
defender o
aborto
voluntário
significa
uma de duas
atitudes: ou
se duvida
acerca do
momento em
que começa a
vida humana,
ou se tem
uma atitude
de
desrespeito
pela vida.
A questão do
momento em
que começa a
vida humana
é também ela
uma atitude
cultural. Na
própria
história do
pensamento
cristã, essa
questão
pôs-se.
Alguns
autores
escolásticos,
numa
perspectiva
dualista da
união da
alma e do
corpo,
defenderam
que a
infusão da
alma se dava
numa
determinada
etapa da
evolução do
feto. E
nessa visão
antropológica,
só depois da
infusão da
alma se
podia falar
de vida
humana.
Semelhante a
essa é,
ainda hoje,
a visão
muçulmana da
evolução do
feto.
Essa questão
foi
completamente
ultrapassada
pela
Teologia e
pelo
Magistério.
A alma está
presente
desde o
primeiro
momento do
corpo e
exprime-se
nele e
através
dele. A alma
não habita o
corpo,
anima-o e
humaniza-o.
Será que os
defensores
do aborto
são
"escolásticos",
do ponto de
vista
antropológico?
Não deixa de
ser curioso!
Mas a
palavra
esclarecedora
sobre esta
questão
é-nos dada
pela
ciência. A
partir do
embrião,
toda a
especificidade
de cada ser
humano está
definida. É
possível
identificar,
desde logo,
o código
genético e
as etapas do
crescimento
estão
caracterizadas.
É uma vida
humana,
desde o
início.
Apoiar-se no
carácter
incompleto
de cada
etapa do
crescimento,
para
justificar a
interrupção
desse mesmo
crescimento,
é
incongruente.
O homem é
sempre um
ser em
construção e
nenhuma
imperfeição
na
realização
de toda a
sua
potencialidade
pode
justificar a
sua
exclusão.
3. A atitude
de
desrespeito
pela vida
humana está,
infelizmente,
muito
espalhada na
sociedade. A
violência, a
exclusão, o
assassinato
indiscriminado,
a própria
pena de
morte. Esta
é uma luta
em que a
humanidade
não pode
esmorecer,
pela defesa
da dignidade
e dos
direitos
fundamentais
de todo o
ser humano,
o primeiro
dos quais é
o direito a
viver e a
ser
protegido
pela Lei.
Passa pela
educação,
pelas leis
justas e
pela visão
do homem e
da sociedade
que devem
inspirar uma
sociedade
justa.
Esta é, de
facto, uma
questão de
cultura e de
civilização,
donde, a
partir do
respeito
pela vida,
deve emergir
o sentido da
grandeza da
maternidade. |