Alguns Comentários a um artigo do Deputado Sérgio Sousa Pinto (Público, 21.1.98)

Ciência: desenvolvimento embrionário


Anterior Seguinte


No já mencionado relatório elaborado pelos médicos americanos, em 1971, pode-se ler o seguinte sobre o desenvolvimento embrionário entre a oitava e a décima segunda semanas de vida:

Oitava semana

"Depois da oitava semana não se desenvolverá mais nenhum estrutura. Tudo o que se encontrará no bebé de termo já está presente neste momento. (...) Deste momento até a que atinja a maturidade, pelos 25 ou 27 anos, todas as alterações do corpo serão, fundamentalmente, em dimensão. (...) O esqueleto primitivo está completamente desenvolvido no final da sexta semana.

Os pré-requisitos para o movimento são os músculos e os nervos que começam a trabalhar conjuntamente entre a sexta e a sétima semana. Se se tocar levemente nos lábios, a criança responde afastando o corpo e fazendo um gesto rápido com os braços. A isto chama-se uma "resposta de padrão total" porque envolve a maior parte do corpo.

A partir do início da nona semana, o bebé move-se espontaneamente sem necessitar de ser tocado. (...) No final da oitava semana as pálpebras e as palmas da mão tornam-se sensíveis ao toque. Tocando a palma da mão, o bebé cerra os punhos.

Na nona e na décima semanas, a actividade da criança aumenta muito. Agora, quando lhe tocam na testa ele pode afastar a cabeça para longe e franzir o sobrolho. Ele já usa totalmente os seus braços e consegue dobrar o cotovelo e o pulso independentemente. Na décima semana todo o seu corpo está sensível ao toque.

Décima segunda semana

O bebé começa a apor o polegar aos outros dedos e engole regularmente. Consegue levantar o lábio superior, que é o passo inicial do reflexo de sucção. No final da décima segunda semana, os movimentos tornam-se mais graciosos e fluidos, tal como são no recém-nascido. A criança está activa e as reacções tornam-se mais vigorosos.

Tudo isto acontece antes da mãe sentir qualquer movimento. (...) [Convém observar que a parede interior do útero é insensível; durante muitos anos pensou-se que o bebé só ficava vivo no momento em que a mãe o sentia e portanto o aborto era punido a partir dessa altura; se o útero tivesse sensibilidade --o que deixa a natureza do bebé intacta mas altera a forma como ele é visto-- talvez este texto não fosse preciso nem ninguém sonharia em legalizar o aborto.]

(...) Na décima segunda semana ele dá pontapés, roda os pés, brinca com os dedos dos pés, cerra os punhos, faz caretas, troca os olhos, abre a boca, aperta os lábios. Pode engolir e bebe líquido amniótico. Os primeiros movimentos respiratórios fazem com que entrem e saiam fluidos dos pulmões.(...)

Cada bebé apresenta uma individualidade distinta no final do terceiro mês. Isto resulta do facto da estrutura muscular variar de bebé para bebé. O alinhamento dos músculos da face, por exemplo, segue um padrão herdado.

Alguns refinamentos mais ocorrem no terceiro mês. As unhas aparecem e a cara do bebé fica mais bonita. Os seus olhos, que inicialmente pareciam ausentes, movem-se agora em conjunto. As pálpebras cerram os olhos. A diferenciação sexual é patente: tanto nos órgãos internos como nos externos. As cordas vocais estão completas mas o bebé não consegue chorar por falta de ar. Ele só vai chorar no nascimento embora a capacidade para o fazer seja muito anterior. As papilas gustativas e as glândulas salivares desenvolvem-se neste mês. A criança começa a urinar.

A partir da décima segunda semana

Entre a décima segunda e a décima sexta semanas, a criança cresce muito depressa. O seu peso aumenta seis vezes e ele cresce de 8 a 10 polegadas.

Para este crescimento incrível a criança precisa de oxigénio e comida. Tudo isto vem-lhe através da placenta que, sabemos hoje, pertence ao bebé e não à mãe como se pensou durante muito tempo. (...)"

Conclusão Como se pode ver, a criança desenvolve-se continuamente sem haver um ponto onde a ciência possa dizer que este bebé pode ser morto mas aquele não. Nem se consegue perceber porque se pode matar um bebé que está completamente formado (o bebé de oito semanas), nem se consegue perceber porque, aceitando a morte do de oito semanas, se rejeita a do de treze. Verdadeiramente, qual poderá ser a relevância ética, jurídica ou científica de um aumento de peso?

 

João Araujo


Anterior Seguinte