O ABORTO

Considerações dispersas, politicamente incorrectas

 

A. O aborto não é só um problema entre outros; é o grande problema do nosso tempo. Para entender bem esta afirmação importa ler atentamente os números 1 a 6 (inclusive) do anexo à carta, de alguns cristãos, aos Padres de Portugal, sobre o aborto. Para ela remeto. Deve-se ainda considerar o número imenso de embriões crioconservados cujo destino será a experimentação e a destruição. Importa, também, recordar que Madre Teresa de Calcutá repetia, insistentemente: o aborto é o pior mal existente na Terra, é o maior inimigo da paz.

B. a) Em Fevreiro passado, aquando da campanha contra a legalização do aborto, muitos de nós ouviram a frase: "Vão mas é trabalhar com os pobres!" Este "convite" parece pressupor, pelo menos, uma destas quatro coisas: 1. A maioria dos abortos são feitos por pobres; 2. Se se acabasse com a pobreza deixaria de haver abortos; 3. Os bebés no seio de suas mães não são pobres; 4. Quem se mobiliza para defender a vida intra-uterina ignora os pobres. Ora, o 1. é manifestamente falso - como se pode constatar consultando qualquer estudo sério sobre o assunto, o 2., por consequência, não se verificaria, em relação ao 3. perguntemo-nos porque é que a Madre Teresa de Calcutá, cuja vida esteve toda ao serviço dos mais pobres dos pobres, tanto se dedicou aos nascituros. De facto, quem há aí mais pobre do que um bebé, frágil e sem defesa, cuja vida está dependente da arbitrariedade dos mais fortes? Quanto ao 4. o nosso comentário consiste na resposta que demos, na altura, ao "convite" (em si justo) de trabalhar com os pobres: já o fazemos, em bairros de lata, em orfanatos, nas missões, nas prisões, nos hospitais, em lares de terceira idade, etc. E adiantámos: quando quiserem fazer uma lei para matar os pobres cá estaremos noutra campanha.

Para finalizar, uma pergunta: que diabo de complexo de culpa é este dos católicos!? Quem, como a Igreja , em Portugal, faz tanto pelos mais carenciados?

b) Quando há declarações ou campanhas contra o racismo ou a pena de morte, para dar só dois exemplos, nunca vimos ninguém preocupar-se em saber se essas pessoas que assim se empenham (e muito bem) são coerentes na defesa da dignidade humana em todas as circunstâncias. Ninguém lhes pergunta, por exemplo, se são contra o aborto ou a eutanásia. Mas basta que alguns se manifestem defendendo a vida intra-uterina e logo muitos levantam um alarido e, sem cuidarem de qualquer investigação, insinuam que são obcecados, que são incongruentes, que não lutam contra a pobreza ou o racismo ou a pena de morte. Ora, normalmente o que acontece é exactamente o contrário. Eu, pelo menos, não conheço ninguém que seja contra o aborto e não defenda (por palavras e por obras) simultaneamente a vida de todos e toda a vida, desde o momento da concepção até à morte natural. Mas já tenho visto e ouvido alguns bradarem contra a pena de morte (e aqui concordamos) de um psicopata facínora que assassinou, violou e mutilou algumas dezenas de pessoas e, ao mesmo tempo, defenderem pertinazmente a morte injusta e cruel, pelo aborto, (mas aqui divergimos radicalmente) de bebés, ainda não nascidos, inocentes e sem defesa. E quantos anti-racistas ferrenhos não são abortistas obstinados: insultar um negro na rua é racismo mas assassiná-lo, no seio de sua mãe, não faria mal!

C. O perigo de vida da mãe não justifica o aborto provocado, isto é, voluntário e directo, pois isso seria fazer o mal (matar alguém - um inocente) para que daí resultasse um bem (salvar outrem) o que não é de todo admíssivel - " [ ...] declaro que o aborto directo, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral grave [ ...] "(João Paulo II, "O Evangelho da Vida", nº 62). Coisa bem diferente, e por isso lícita, é que o tratamento para salvar alguém (a mãe) implique indirectamente, como efeito previsto mas de modo nenhum desejado, a morte de outrem (o feto).

D. Negar que alguns abortos não o são e chamar-lhes "actos médicos" ( por ex. no caso dos anencéfalos ou dos "fetos inviáveis") é falso e é arrogar-se o direito de arrebatar a categoria de humano a quem mais carece de que ela lhe seja reconhecida. Torna-se preocupante quando quem o faz ocupa cargos de responsabilidade em Instituições da Igreja e deles se aproveita (no sentido em que não distingue entre a sua opinião e as afirmações doutrinais) para defender teorias claramente em contradição com o ensino do Magistério, iludindo assim quem os escuta e segue de boa fé.

E. Nunca é de mais insistir sobre a compaixão e misericórdia para com as mulheres arrependidas que abortaram, tanto mais se se tratou de algum caso dramático que atenuou consideravelmente a sua culpabilidade. Mas dizer que a mulher é sempre uma vítima e que é por isso que recorre ao aborto é, primeiro, uma falsidade, e, segundo, um disparate porque mina as resistências das mulheres, dando ocasião a que a tentação de abortar se torne mais forte à mínima dificuldade.

F. À pergunta, insistentemente formulada, a propósito do aborto, se se quer que as mulheres portuguesas vão para a prisão deve-se responder: não, não queremos que as mulheres portuguesas vão para a prisão. Os homens também não. Queremos isso sim que as mulheres ou os homens que cometem crimes de sangue, entre os quais se conta o do aborto sejam reponsabilizados criminalmente e, tendo em conta o seu grau de culpabilidade, recebam as penas devidas, entre as quais se conta a de prisão. Pois, se assim não for, oferece-se ao "agressor uma garantia de que a sua vítima não será protegida" (M. Schooyans). Recorde-se que o aborto é um homicídio particularmente perverso e abominável (Cfr. "O Evangelho da Vida", nº 58).

Nuno Serras Pereira