ABORTO: INSANIDADE E DESINTERESSE
De
igual modo a proposta de resolução da autoria da deputada Helena Roseta, que
hoje se discutirá no parlamento, onde dificilmente se descortina mais do que
uma total incompreensão da função da lei penal e a vontade deliberada de
montar uma armadilha política, vem uma vez mais tornar claro que os abortistas
visam os efeitos e não se preocupam com as causas.
Em
lugar de se preocupar com o estado do planeamento familiar em Portugal (onde não
saímos do estádio dos chavões e da irresponsabilidade) e com a urgente mudança
do paradigma imposto na educação sexual (na verdade o modelo já testado em
tantos países europeus além de não ter produzido os efeitos desejados,
conduziu a uma situação de tal modo grave que obrigou mesmo o
primeiro-ministro britânico a suspendê-la), as organizações que mais não
sabem que oferecer o aborto a jovens abandonadas a si mesmas e mulheres em dificílimas
condições sociais, desresponsabilizam o Governo e o Parlamento, na medida em
que se satisfazem com um simples encolher de ombros perante os problemas
culturais, sociais e económicos, levantados por esta questão.
Em
vez disso a sociedade civil portuguesa reage: desde Junho de 1998 contam-se já
em duas dezenas as associações e iniciativas que pelo país inteiro abriram
casas de acolhimento para grávidas e crianças, disponibilizam linhas telefónicas
de apoio e editam diversos materiais de informação, promovem acções de formação
em planeamento familiar e educação sexual e, hoje, se dedicam a acompanhar as
mulheres vitimas deste flagelo e que se debatem na angústia, feridas no seu
corpo e na sua dignidade.
Neste
especial capítulo saúde-se a intenção, expressa em programa do Governo, de
finalmente apoiar estas iniciativas sociais, possibilitando-lhes mais meios e
sobretudo que quem necessite encontre quem ajude.
Este
no entanto é um trabalho invisível nos meios de comunicação social. Uma
qualquer iniciativa dos abortistas (um colóquio, um manifesto assinado pelas
vinte personalidades de serviço, uma conta bancária) dão sempre origem a páginas
inteiras e chamadas na primeira página. Quanto muito e no máximo umas linhas
reproduzem alguma das declarações de quem pensa diferentemente sobre esta
questão. Mas, ontem contra a escravatura e a pena de morte, hoje pelo direito
à vida e pela dignidade da mulher, essa sempre foi a condição de quem se bate
pelos Direitos Humanos: a oposição à mentalidade dominante traz a censura dos
bem-pensantes mas o coração dos homens acaba sempre por reconhecer a beleza da
vida e a necessidade da justiça.
António
Pinheiro Torres
Fundador dos Juntos pela Vida, deputado independente pelo PSD
in
“Público”, 19 de Maio de 2002