Ainda sobre o aborto

É verdade, sim, que as mulheres que abortam não podem (ou não devem) ser consideradas criminosas. É sabido que as consequências de uma gravidez imprevista ou catastrófica recai principalmente sobre as mulheres. É incontroverso que haja casos de violação, de gravidez imposta, de malformações no feto. É óbvio que a mulher deve ser dona do seu corpo (até pode vendê-lo, se quiser). É claro que só uma desalmada pratica o aborto sem escrúpulos. É evidente que o aborto clandestino é feito nas piores condições. É taxativo que o poder económico diminui os riscos do aborto. Ninguém ignora nem ignorava nada disto, mesmo antes de se falar em referendo. Mas também são verdades outras coisas menos ditas, como a de não podermos deixar depender a vida de um ser-humano do seu tamanho em centímetros (matar uma formiga faz sempre menos impressão do que matar um urso ou um elefante, não faz?). Também é indesmentível o facto de um feto ser já um filho. Também é óbvio que lá por sermos donas do nosso corpo não significa que sejamos donas da vidas de terceiros. Também é provável que a autorização legal vá aliviar os escrúpulos das mulheres que praticam o aborto desportivo. Também é natural que seja grande esse número de mulheres. Também sabemos que a grande maioria se entrega sem precauções. Também é provável que essa faixa possa corresponder à maioria dos casos que se conhecem. Também é provável que essa maioria se transcreva em milhares de vidas abortadas. Também é verdade que nem sempre os crimes são cometidos por criminosos. Também é possivel que uma despenalização oficial possa ser interesseiramente confundida com uma despenalização moral, ou seja, que as pessoas possam rapidamente vir a confundir legalidade com legitimidade. Também é verdade que, em muitos casos, o risco de abortar persiste (ou pode persistir) mesmo com assistência estatal. Também é verdade que pensar (e apenas pensar) que a mulher pode abortar sem consultar o pai da criança (quando o conhece e é idóneo) é meio caminho andado para atrasar a luta por uma maior responsabilização masculina no que diz respeito aos filhos. Também é verdade que, a precisarmos do perdão de alguém, não seria nem do Estado nem do Papa, seria o nosso. E mesmo que tudo isto já seja óbvio, e mesmo que tudo isto nada tenha que ver com o referendo, como já ouvi, será importante repisar: deve-se evitar o aborto e não a vida, pesem todas as leis humanas.

Rita Ferro, «A Capital», 7/3/98