Sexo
escolar
No
passado mês de Março, o nosso Parlamento aprovou na generalidade um projecto
de lei sobre educação sexual nas escolas. Depois de o discutir na
especialidade, o Parlamento prepara-se para lhe dar a aprovação final nos próximos
dias. Assim, graças à maioria dos deputados, as nossas escolas primárias e
secundárias vão ter em breve a cadeira de "educação sexual".
Segundo
este projecto, sexo é só saúde. As aulas são dadas "em colaboração
com unidades de saúde" e a questão mais referida no texto é a sida. Mas
a cadeira não é necessária para explicar às crianças e aos jovens os
detalhes do aparelho reprodutor e suas regras de higiene. Para isso já há as
disciplinas de ciências e estudo do meio, onde os alunos são obrigados a
decorar os detalhes fisiológicos do acto sexual, com nomes técnicos, definições
e variantes mais importantes. Aliás, outra coisa não seria de esperar de um país
moderno como o nosso, com educação avançada e desinibida. Pergunte ao seu
filho e vai ver que, sem ter percebido nada, ele em ciências já aprendeu tudo
sobre sexo.
Por
isso, a nova cadeira de "educação sexual" não irá trazer novos
conhecimentos orgânicos, higiénicos e medicinais. Então qual é a sua
finalidade? Apesar de o tentarem esconder debaixo de linguagem neutra, os nossos
deputados têm consciência que, mais que uma questão sanitária, o acto sexual
é um fenómeno pessoal e social. Por isso, a cadeira vai tratar de
comportamentos, relacionamento e ética. Para ser uma disciplina escolar, tem de
fingir ocupar-se de uma ciência rigorosa e geométrica, mas obviamente não
pode fugir às questões dos valores e das opções.
É
muito importante criar uma cadeira que lide com estes assuntos. As questões do
comportamento sexual sempre foram determinantes na formação do carácter e da
personalidade de cada um. Mas hoje a educação dos jovens é particularmente
necessária. Nos nossos dias, o acto sexual deixou de ser íntimo e privado e
passou para a praça pública. Das revistas aos debates televisivos, dos anúncios
de refrigerantes às telenovelas, dos concursos semanais aos escândalos políticos,
o nosso tempo não consegue deixar de publicitar os seus instintos. É por isso
crucial que a escola lide com o tema e ajude as crianças a orientar-se, neste
campo como nos outros.
Devemos
pois apoiar a criação desta disciplina escolar, se ela ensinar que o sexo só
tem sentido quando incluído numa profunda relação de amor, como parte
integrante de toda uma vida pensada em comum. Um ensino que louve o valor e a
grandeza da fidelidade, a beleza e a sublimidade da castidade, uma disciplina
que estude a importância da solidez do casal na estabilidade emocional dos seus
membros e na formação saudável dos filhos, um tempo lectivo que veja a família
como indispensável a uma vida equilibrada e a uma sociedade justa e solidária
é vital. Uma cadeira de "educação sexual" destas seria preciosa.
Um
programa lectivo assim, além de cientificamente sério, seguiria a opinião e o
ideal da maioria da população portuguesa. Se há excepções na prática
nacional, com aventuras ocasionais, divórcios e uniões de facto, isso não é
relevante. Também não é por muita gente fumar que a escola deve ensinar que
isso é boa ideia.
Mas
não é este o programa pensado para a cadeira de "educação sexual".
Um ensino destes só existe em países "atrasados e conservadores"
como os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha. Portugal é um país "moderno e
desinibido". Os nossos deputados pertencem não à maioria da população,
mas à classe intelectual, a mesma que escreve as revistas, faz os debates da
televisão, os anúncios, as telenovelas e os concursos, e que há muito
abandonou opiniões "antiquadas" sobre o sexo. Por isso, podemos
contar com um programa de "educação sexual" muito diferente. O princípio
básico do projecto não é o amor e a família, mas "os direitos sexuais e
reprodutivos". A questão será, pois, tratada como se fosse a "luta
de classes". A finalidade do sexo é o prazer próprio e, no caso de haver,
do parceiro ou parceiros de qualquer tipo. Limitar os instintos é o único
pecado possível. Com esta cadeira, as crianças a partir dos seis anos
descobrirão e apreciarão o seu potencial sexual, com toda a liberdade. A
cadeira não seria diferente se fosse pensada para cães.
O
programa será baseado no respeito e na tolerância por todos os tipos de opção
sexual. Podemos ter a certeza que as nossas crianças deverão estudar e decorar
que, ao lado da "família tradicional", há alternativas como uniões
de facto, efémeras ou duradouras, galãs conquistadores, aventuras ocasionais,
homossexuais e muitas outras variantes, que compõem a liberdade de costumes do
tempo actual. Todos equivalentes e iguais.
Que
não são iguais, basta olhar à volta. Mas os deputados não vêem. A cadeira
será mais ou menos como se a escola ensinasse política dizendo que, ao lado da
"democracia tradicional", existem as alternativas do sistema tribal à
ditadura. Formaria uma cadeira destas bons cidadãos?
Para
que não restem dúvidas, o projecto não se fica apenas pelo ensino, e trata
também de planeamento familiar. Na versão estalinista. Inclui medidas como a
distribuição de preservativos nas escolas primárias e secundárias, para
evitar a gravidez de adolescentes. É como se o Ministério da Justiça, para
combater o excesso de lotação das cadeias, distribuísse mascarilhas aos ladrões.
Os
nossos deputados, e depois o Ministério da Educação, estão assim apostados
em formar sexualmente as nossas crianças e jovens. E nesta meritória tarefa
terão certamente a ajuda de muitos. Operadores de telefones eróticos,
produtores de filmes e revistas pornográficos e tantos outros "defensores
da liberdade sexual" irão fornecer muito material para as aulas. A
promiscuidade sexual é hoje um negócio próspero. A partir de agora, graças
aos senhores deputados, a escola dá uma boa ajuda a esse sector económico.
Deve ser a isto que se chama "paixão pela educação".
João
César das Neves
Diário
de Notícias, 14
de Junho de 1999