Portugal
vive neste momento um forte perigo para a saúde pública. Um produto que pode
ter gravíssimos riscos para a vida e a saúde verá em breve a sua distribuição
feita sem controlo médico e, possivelmente, até gratuita. Com uma ligeireza e
uma irresponsabilidade inauditas, alguns partidos parlamentares fizeram aprovar
de repente projectos de lei que pretendem tornar fácil e generalizado o consumo
da chamada "pílula do dia seguinte" (não, desta vez não é a
droga).
Este
"medicamento", que está a criar grande polémica em todo o mundo, tem
algumas características evidentes. Trata-se de uma dose maciça de hormonas que
impede que o embrião de uma criança se desenvolva. Assim, constitui um meio
abortivo, pois interrompe uma vida já formada. De forma fraudulenta, a questão
é tratada como "contracepção de emergência". Mas, apesar do
disfarce de má-fé, é claro que se está, não a prevenir, mas a destruir uma
gravidez.
Além
disso, como é normal num químico tão poderoso, verificam-se consequências
laterais muito graves para a saúde da mulher (sempre ela!). Além de náuseas e
vómitos, é cada vez maior a evidência de risco sério de trombose, diabetes,
mutações no aparelho reprodutor e até nos cromossomas. Trata-se, pois, de um
fármaco violento, que ninguém deveria ingerir ligeiramente. Agora, a nossa lei
pretende tratá-lo como uma aspirina. O presidente do conselho consultivo do
Instituto Nacional de Farmácia e do Medicamento e professor na Universidade do
Porto demitiu-se revoltado com a situação.
É
evidente que estamos a lidar com um produto que tem muitos riscos, que nunca
ninguém pensaria alguma vez em tornar acessível sem graves restrições,
sobretudo no nosso tempo hipercuidadoso com a saúde. Quando se multiplicam as
campanhas de prevenção e terapêutica, se promove o combate ao tabaco e ao álcool,
se realizam investigações cuidadosas sobre a qualidade alimentar e se fazem
denúncias de produtos tóxicos na água, como é possível que, de um momento
para o outro, num súbito arrebatamento, a Assembleia da República facilite o
acesso a um produto que, comparado com os medos comuns, só pode ser considerado
um veneno perigoso? Por que razão se cai numa tão evidente irresponsabilidade?
Para
compreender este paradoxo temos de entender o enorme poder do tabu no nosso
tempo. Em todas as épocas, os piores erros vieram sempre dos tabus que
condicionaram e limitaram a vida humana. A racionalidade, a prudência e a
ponderação foram, ao longo dos séculos, gravemente distorcidas por eles,
ofuscando o pensamento de gerações inteiras. Consciente deste facto, o nosso
tempo decidiu eliminar de uma vez para sempre os tabus. E fê-lo com tanto vigor
e empenhamento que a eliminação dos tabus transformou-se, ela própria, num
tabu. Essa obsessão está a ter tão graves consequências na nossa vida como
em épocas transactas.
Hoje
é completamente impensável que alguém defenda outra coisa que não uma vida
sexual sem qualquer limitação. A única regra admissível é a ausência de
regras ou orientações. Aí deve vigorar a mais completa liberdade. A única
possibilidade é a entrega ao capricho e ao prazer numa "vida sexual
gratificante". Livre de convenções, livre de complexos, até livre de
gravidez e de crianças.
Aliás,
quem se atrever a beliscar este dogma é imediatamente vituperado e ofendido sem
piedade, como o eram na Antiguidade os que blasfemavam contra os tabus de então.
O consenso correcto da promiscuidade é sacrossanto e não pode ser desafiado,
sem imediata punição pelos zelosos sacerdotes do novo culto. O resultado é a
proposta de uma vida que os nossos antepassados classificariam como de
"brutos e selvagens". Na verdade, eles não teriam razão. Um
comportamento social deste tipo nunca se poderia verificar numa tribo primitiva,
solidamente regulada pelos hábitos tradicionais. Este tipo de desvio só
acontece na decadência de uma sociedade civilizada. Só na degradação dos impérios
babilónio e romano e na nossa sociedade ocidental se chegam a ver coisas
destas.
Este
princípio está a atingir o paroxismo da loucura.
Depois
de ter atacado o matrimónio e a família, depois de ter atentado contra a vida
dos embriões humanos, agora atenta-se contra a saúde pública de uma forma
evidente, sempre em nome do tabu do prazer venéreo sem limites.
A
irresponsabilidade já se manifestou muitas outras vezes. Por exemplo, no
tratamento da sida. É evidente para todos que a melhor forma de não contrair a
sida é que o sexo se viva numa relação estável e permanente. Ora, os médicos,
normalmente, não pedem licença para nos limitar a vida, interferindo com
displicência nos nossos hábitos e práticas. É comum proibirem, sem contemplações,
os seus doentes de fumar, comer à vontade, etc. Seria pois de esperar que, para
tratar doença tão grave, a classe médica viesse condenar vivamente a
promiscuidade e o sexo fora do casal. Mas, surpreendentemente, nada disso
aconteceu. Presas no tabu actual, as campanhas limitam-se a uma promoção
comercial do preservativo, um método indirecto e muito falível. Nunca se fala
sequer na necessidade de mudar os comportamentos. Assim se vê quanto pode um
tabu e um consenso politicamente correcto.
Na
mesma linha se promovem muitas outras práticas, da união de facto à
homossexualidade, e se despreza a família e os valores da educação, com
evidentes consequências nefastas a nível social e pessoal. Como sempre
aconteceu com os tabus, a lógica e a prudência são as primeiras sacrificadas.
Mesmo num tempo alegadamente racional e tecnológico como o nosso. A fúria a
que estamos a assistir em Portugal nos últimos anos é pois, salva a parolice
local, um movimento geral, onde a época moderna mostra as suas raízes tribais.
A forma azelha e ridícula provém da tradicional saloiice nacional, mas o
fervor sem limites dos profetas deste credo é importado lá de fora. A "pílula
do dia seguinte" é apenas a última invenção que os feiticeiros modernos
encontraram para prestar culto ao totem da tribo.
Diário
de Notícias, 30/10/2000