A citação seguinte resume a posição dos que advogam a despenalização do aborto: "O princípio supremo é o direito que cada um tem de julgar e decidir por si sobre a rectidão ou o erro, sobre os benefícios ou malefícios, de um acto. E o direito de agir livremente, o direito à liberdade de pensamento, de livre análise das questões, é o nosso direito mais querido [ ...] É preciso deixar que as pessoas decidam por si próprias." Para eles, a liberdade de escolha individual é o princípio fundamental que não pode ser limitado pela lei. Não advogam o aborto como um bem. Segundo eles, não se quer forçar ninguém a abortar. Mas acham intolerável que a lei proíba ou penalize quem, baseado nesse princípio, opte pelo aborto: quem não quer abortar, não o faça; mas não imponha a sua moral aos outros. Propugnam a tolerância total em nome da liberdade.
Talvez se ignore que esta foi exactamente a argumentação usada pelos esclavagistas nos USA. A citação inicial, de facto, é dum discurso (1858) de S. Douglas, um dos maiores defensores da sociedade esclavagista. Nele se advoga que quem não quer escravos, não os tenha; mas não imponha a sua moral aos outros. Ele aliás nem os tinha. Como muitos que eram pela manutenção da sociedade esclavagista, não era sequer a favor da escravatura. Mas achava intolerável a existência de leis que proibissem os escravos: a decisão de os ter ou não, era, como hoje se diz, uma questão da consciência.
Recorriam ainda a ditos imbecis afirmando que os escravos não eram seres humanos, ou que, sendo humanos, não eram pessoas, ou, se pessoas, não tinham os mesmos direitos que as outras. Também neste aspecto as teses abortistas, contra toda a racionalidade, negando que o feto seja um de nós e dotado de igual dignidade, percorrem o caminho repugnante do esclavagismo.
A. Lincoln derrotou Douglas mostrando que os direitos naturais e universais têm de ser sempre respeitados e que a sociedade nunca pode aceitar os actos que contra eles atentam, devendo proteger-se com leis que os proíbam; mostrando que quem, em consciência, escraviza outro ser humano, comete um crime ¾ enfim, combatendo aquela que é hoje a argumentação abortista. Se vivo, Lincoln, lideraria a campanha pelo NÃO, no referendo do aborto.
José Sampaio